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A histórica condenação da Lafarge, a grande empresa do setor de cimento, por fomentar o terrorismo internacional

Crédito, EPA Legenda da foto, Bruno Lafont, ex-diretor executivo do grupo Lafarge, no tribunal de Paris, na França, em 13 de abril de 2026 Article Information Author

A histórica condenação da Lafarge, a grande empresa do setor de cimento, por fomentar o terrorismo internacional
Bruno Lafont, ex-diretor executivo do grupo Lafarge, no tribunal de Paris, na França, em 13 de abril de 2026

Crédito, EPA

Legenda da foto, Bruno Lafont, ex-diretor executivo do grupo Lafarge, no tribunal de Paris, na França, em 13 de abril de 2026
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    • Author, Norberto Paredes
    • Role, BBC News Mundo
  • Há 4 horas
  • Tempo de leitura: 7 min

A histórica condenação de uma das empresas mais importantes da França sacode o mundo das multinacionais e poderá mudar sua forma de operação em zonas de conflito.

Na segunda-feira, 13 de abril, a empresa do setor de cimento Lafarge foi considerada culpada pelo pagamento de milhões de dólares em subornos a grupos jihadistas, incluindo o autodenominado grupo Estado Islâmico (EI), para manter seus negócios na Síria durante a guerra civil do país (2011-2024).

Oito ex-diretores da empresa também foram declarados culpados por financiar o terrorismo internacional. Entre eles, está o seu ex-diretor-executivo, Bruno Lafont, condenado a seis anos de prisão, com início imediato do cumprimento da pena.

Atualmente, a empresa faz parte do conglomerado suíço Holcim. Ela efetuou pagamentos a três organizações jihadistas, incluindo o EI, por um montante de cerca de 5,6 milhões de euros (cerca de R$ 32,3 milhões) entre 2013 e 2014. O objetivo era manter em funcionamento uma fábrica no norte da Síria, segundo a sentença do Tribunal Penal de Paris.

O dinheiro teria permitido que o IE "organizasse atentados terroristas", como o ataque ao semanário francês Charlie Hebdo em janeiro de 2015, segundo o tribunal. Leia também: Como polícia desmascarou assassino brasileiro que ficou foragido no Paraguai por décadas

A advogada do ex-diretor-executivo da Lafarge, Jacqueline Laffont, defendeu que a decisão contrária ao seu cliente não é "justa, nem razoável".

"Esta não será a primeira, nem a última vez, em que uma decisão de juízes de primeira instância é revogada pelo Tribunal de Recursos", declarou ela em entrevista à rede de rádio pública francesa France Info.

"Trata-se de uma sentença sem provas, sem demonstração. O tribunal presume a culpabilidade de Bruno Lafont e que ele tinha conhecimento dos pagamentos em questão, que ocorreram dentro da empresa Lafarge, pelo simples fato de que era seu presidente."

Lafont dirigiu a empresa entre 2007 e 2015. Ele reiterou que é inocente e afirmou ter dito a verdade durante o julgamento.

Seus representantes informaram que irão recorrer ao veredito, mas a sentença pode mudar o tabuleiro das multinacionais que operam em zonas de conflito. Mais de mundo

A Lafarge declarou à BBC que reconhece a sentença judicial e garantiu que as ações "que ocorreram há mais de uma década constituíram uma violação flagrante do código de conduta da Lafarge".

A empresa descreveu a decisão como um "marco importante" nos seus esforços para "tratar de forma responsável deste tema herdado". Leia também: Quem foi São Jorge, padroeiro do Rio de Janeiro e da Inglaterra

Decisão histórica

O professor de direito e ciências penais Didier Rebut, da Universidade Paris-Panthéon-Assas, na França, afirma que a decisão é "histórica" por vários motivos.

"Em primeiro lugar, ela é histórica pela qualificação de terrorismo aplicada a fatos cometidos por uma empresa e seus dirigentes no âmbito da sua atividade econômica", declarou ele à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

Vista da fábrica de cimento da Lafarge Cement Syria (LCS) em Jalabiya, no norte da Síria

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Vista da fábrica de cimento da Lafarge Cement Syria (LCS) em Jalabiya, no norte da Síria

Para ele, "o que se deduz é que uma empresa e seus diretores podem ser condenados por terrorismo, em razão das suas decisões econômicas e financeiras".

"Trata-se, aparentemente, da primeira vez na França e no mundo que uma grande empresa internacional e seus dirigentes são condenados por terrorismo, mesmo que, é claro, não exista nenhuma adesão ideológica, nem conivência com os grupos terroristas em questão."

Pagamentos para garantir acesso e matéria-prima

O logotipo da fábrica de cimento da empresa francesa de materiais de construção Lafarge em Issy-les-Moulineaux, na França, no dia 19 de outubro de 2022
Legenda da foto, A Lafarge se declarou culpada e admitiu ter pago milhões de dólares ao EI para manter sua fábrica em funcionamento

'Não é possível alegar que eles simplesmente se adaptaram'

Christian Herrault, ex-vice-diretor de operações da Lafarge, chegando ao tribunal de Paris no dia do veredito
Legenda da foto, Christian Herrault, ex-vice-diretor de operações da Lafarge, foi condenado a cinco anos de prisão. Ele alegou que a decisão de manter aberta a fábrica na Síria foi tomada por preocupação com os trabalhadores locais.

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