Risco compartilhado, terapias gênicas e “Netflix”: os planos para o futuro da saúde na América Latina Em entrevista exclusiva à VEJA SAÚDE, presidente regional fala sobre desenvolvimento e acesso a medicações inovadoras Há um ano, o governo brasileiro deu início à aplicação do “medicamento mais caro do mundo” pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A implementação do remédio na rede pública se deu por meio de um acordo entre o Estado e a farmacêutica Novartis, que desenvolveu o tratamento, visando facilitar o pagamento do produto. Valendo cerca de R$ 7 milhões, o Zolgensma é uma terapia que corrige o DNA de bebês com atrofia muscular espinhal (AME) tipo 1, a forma mais grave da doença rara e genética que compromete a mobilidade e a sobrevivência de um a cada 10 mil nascidos vivos. O pagamento das doses se dá por um acordo de risco compartilhado: o governo paga parcelas anuais à farmacêutica apenas se o paciente atingir os resultados esperados do tratamento em determinado período.
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Em outras palavras, se não fizer efeito, não é necessário pagar. “ O preço dos medicamentos está ligado ao valor que eles proporcionam ao paciente, ao sistema de saúde e à sociedade”, avalia José Marcilla, presidente regional da Novartis na América Latina e Canadá.
Em entrevista exclusiva à VEJA SAÚDE, o farmacêutico espanhol fala sobre o acordo e planos da empresa para o desenvolvimento da saúde no continente. Desde 2020, a companhia lançou 18 novos tratamentos no Brasil — e pretende dobrar as indicações até 2030. Nos últimos anos, a Novartis também tem investido em ensaios clínicos no país.
Por aqui, 107 estão em andamento nas áreas de oncologia, imunologia, neurociências e doenças do coração, rins e metabolismo. Leia a entrevista a seguir. Desde 2023, a Novartis se propõe a “reimaginar a medicina”. Leia também: O que acontece com o cérebro ao comer um ovo por dia, cinco vezes por semana
Como vocês estão construindo essa nova medicina e como a América Latina pode contribuir para o futuro da saúde global? Bem, estamos num momento fascinante da história da medicina, com duas revoluções acontecendo simultaneamente. Por um lado, a revolução tecnológica, com o aprendizado de máquina que todos conhecemos.
Mas, ao mesmo tempo, uma revolução não linear e exponencial: o desenvolvimento de novas terapias e novas tecnologias como nunca vimos na história da humanidade. Quando observamos a expectativa de vida, que na década de 1950 era de 50 anos, vemos que praticamente a cada 10 anos ela aumenta de 1 a 2 anos. Se isso continuar, as gerações futuras provavelmente viverão mais de 100 anos.
Portanto, estamos vivendo um momento histórico, caminhando rumo a uma medicina baseada nos “quatro Ps”: preventiva, preditiva, personalizada e participativa. Na Novartis, nosso foco principal está em cinco plataformas tecnológicas: química tradicional e biológica, mas especialmente em três plataformas de próxima geração: terapia celular e gênica, terapia de RNA e terapia com radioligantes [tratamento oncológico de precisão]. Quais são as áreas da medicina prioritárias nesse momento?
A Novartis está estrategicamente focada em quatro áreas terapêuticas: oncologia, imunologia, neurociência e cardiovascular. Nosso objetivo é desenvolver medicamentos que transformem a vida das pessoas; acima de tudo, medicamentos de alto valor que respondam a uma necessidade médica não atendida e onde possamos ser os melhores ou os pioneiros. Somos uma indústria que investe fortemente em pesquisa e desenvolvimento [P&D] e inovação.
Mais de 20% dos nossos investimentos são destinados a projetos dessa área. Além disso, a Novartis também adquire empresas de biotecnologia. Os países da América Latina estão envolvidos em dezenas de ensaios clínicos da Novartis. Mais de saude
Qual é a importância de incluir a população da região nos estudos? Uma parte significativa do investimento da Novartis, especialmente na América Latina, está no número de ensaios clínicos, que queremos dobrar. Atualmente, temos mais de 100 ensaios clínicos em andamento no Brasil.
Estamos investindo quase 25 milhões de dólares neles. Trazer ensaios clínicos para cá significa facilitar o acesso à inovação futura para muitos pacientes. Significa desenvolver talentos, desenvolver hospitais com base científica e gerar investimentos.
E essa, para mim, é uma estratégia fundamental para a Novartis na América Latina. Aqui, temos praticamente quase 600 milhões de pessoas e eu diria que, na indústria farmacêutica em geral, provavelmente estamos aquém. O número de ensaios clínicos provavelmente não está de acordo com a população. Leia também: Canetas emagrecedoras podem causar desnutrição, alerta estudo — entenda o risco
Por que isso acontece? Muitas vezes tivemos barreiras regulatórias, processos burocráticos muito longos e um ambiente regulatório que não favoreceu o acesso à inovação. O que nós estamos pedindo, por meio de colaborações com os estados aqui no Brasil e com os governos, é poder ser parceiros para criar um marco que fomente a inovação e que seja benéfico para os pacientes, para os pesquisadores e para os hospitais; para que os latino-americanos não tenham que esperar, em média, cinco ou seis anos por uma terapia após ela ser aprovada pela FDA [órgão regulatório dos EUA] ou pela EMA [órgão regulatório europeu].
Acreditamos que tudo o que for feito para fomentar a pesquisa resultará, no fim das contas, em mais investimento e aproximará a inovação dos pacientes. Outro paradigma a ser quebrado é que o investimento em saúde não é um gasto, é um investimento. De fato, cada dólar investido em saúde gera 3 dólares de retorno na economia.
E isso é algo que também estamos conversando com os governos na América Latina. E o que é preciso ser feito para expandir essa atuação no continente? Precisamos de um arcabouço regulatório estável, eficiente e ágil, pois vivemos em um mundo competitivo.
Um dos aspectos que apresenta maior incidência na América Latina, em comparação com outros países fora do continente, é o subdiagnóstico de doenças. No Brasil, frequentemente encontramos patologias para as quais um paciente pode esperar até 5 ou 7 anos para encontrar um tratamento. E quanto mais tardio o diagnóstico, como vocês podem imaginar, pior o prognóstico.
Na Novartis, o que fazemos é auxiliar os profissionais de saúde com formação científica, permitindo que façam o diagnóstico o mais cedo possível para que os pacientes possam se beneficiar ao máximo dos medicamentos disponíveis. E como anda o desenvolvimento de tratamentos para doenças tropicais negligenciadas na América Latina? Temos um produto para a malária, que fornecemos a um custo muito baixo em muitos países e, em alguns, praticamente o entregamos a preço de custo.
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