No último sábado (9), duas juízas ligadas a movimentos feministas sugeriram que eu fizesse um contraponto às manifestações de repúdio a uma charge de Marilia Marz publicada na Folha. A peça traz uma lápide no cemitério com os dizeres: " Vidinha mais ou menos, até perdê-la junto dos penduricalhos".
A charge foi associada, indevidamente a meu ver, à morte da juíza Mariana Francisco Ferreira, ocorrida dias antes, após a coleta de óvulos. Eu não estava acompanhando as redes sociais. Não conversara com ninguém, mas opinei:
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" Não acredito que a autora e o jornal tenham pensado na morte da juíza para fazer e editar a charge. Não conheço a chargista, mas tenho dificuldade em aceitar essa associação".
No mesmo dia, fui procurado por mais dois juízes e uma advogada (juíza aposentada), aos quais sustentei minha primeira avaliação. Os cinco são experientes, acostumados a rever posições. Conheço alguns há mais de 20 anos.
Má vontade persistente No dia seguinte, o Painel do Leitor publicou resposta da chargista: " Leia também: Fiscalização da Receita contra autoridades cai 54% após Moraes suspender
A morte trágica da juíza Mariana Ferreira não foi inspiração para a charge, e lamento muito que essa associação tenha sido feita. Só soube dessa horrível coincidência e interpretação a partir dos ataques na internet. Sinto muitíssimo".
Esse depoimento não arrefeceu as críticas. Em artigo sob o título "Chargista não debochou da morte da juíza", a colunista Mariliz Pereira Jorge questiona: "
Que empatia tem quem usa a memória de uma mulher morta para destruir, em vida, reputação e carreira de outra mulher? " Marília escreveu depois: " Tarde demais.
Todos os tribunais já haviam decidido que a minha cabeça operava numa chave macabra e cruel, segundo a qual zombar da morte de outra mulher seria algo razoável". A chargista ficou sozinha. Afastando suposições
Reproduzo alguns argumentos que expus aos juízes em mensagens: - Respeito a dor da família da juíza. Mas a charge (imprópria e infeliz) poderia ter sido criada pensando num juiz que aprova penduricalhos para pagar academias e despesas de parentes. - A lápide da charge não faz nenhuma sugestão sobre gênero. Mais de politica
Só a assinatura da autora. - Achei uma maldade sugerir que a chargista tenha desconhecido a desigualdade de gênero e ofendido uma juíza cuja morte nada tinha a ver com penduricalhos. - Poderia estar "enterrado" ali qualquer presidente (masculino) de tribunal.
Ou do TCU, do Ministério Público, da AGU. - Por que não supor que a lápide foi dirigida aos machistas? - Pode ser uma crueldade sugerir que a chargista fez o desenho pensando no triste caso da juíza.
- A questão dos penduricalhos incomoda os juízes. Mas essa polêmica envolve outras carreiras. - Se você ler a coluna de hoje [sábado] do criminalista Luís Francisco Carvalho Filho, verá que a crítica sobre os penduricalhos não fica só no Judiciário. Leia também: Como ver mais notícias da Folha na pesquisa do Google
Veja a lista de entidades que ele coloca. - Tomo emprestado perguntas que os editores fariam aos repórteres: a chargista foi ouvida? A família da juíza que morreu foi ouvida? -
As associações de juízes estão espumando com as críticas do jornal. Esquecem que a Constituição vem sendo driblada. - Os ministros que agora defendem o teto têm muitos motivos pessoais, acredito, para a grita.
- O momento pode ter sido infeliz, a charge também, mas a morte da juíza não tem a ver com os penduricalhos. - Houve precipitação. E talvez tenha sido cometido uma grande injustiça com a autora da charge, que assinou a peça.
E é mulher. Preferi o risco de errar na avaliação do que ser injusto. Críticas dos magistrados
Eis algumas manifestações dos juízes: - É inegável o timing terrível e o desrespeito com a classe. O veículo dando a sua contribuição para um verdadeiro cancelamento da magistratura. - Todo mundo na carreira, inclusa eu, estamos incrédulos e profundamente ofendidos com essa charge que a Folha publicou.
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