Mitos e verdades sobre o surto de hantavírus: das origens à gravidade da situação O que já se sabe (e o que não se sabe) a respeito do surto iniciado em navio que preocupa a OMS O surto de hantavírus no barco MV Hondius, que fazia uma viagem do sul da Argentina a Cabo Verde, vem despertando alertas no mundo inteiro.
A detecção da “cepa andina“, a única transmissível entre seres humanos, despertou temores ainda maiores diante da situação, poucos anos após a experiência traumática da pandemia de covid-19. Afinal, até que ponto é preciso se preocupar com a ameaça do patógeno que está dominando as manchetes nos últimos dias? E o que ainda não se sabe a respeito dessa história?
Leia no AINotícia: Panorama da Saúde: Asma, Cérebro, Ombros e Inovações
Confira a seguir um resumo das principais informações relacionadas ao caso, e como a Organização Mundial da Saúde (OMS) vem lidando com a situação até o momento. Vírus transmissível entre humanos foi detectado no barco Verdade. Há oito casos suspeitos relacionados ao surto no MV Hondius.
Cinco deles já foram confirmados em testes laboratoriais como sendo casos de hantavírus. Normalmente, o hantavírus é contraído a partir do contato com excretas (saliva, fezes e urina) de ratos que, uma vez aerossolizadas em pequenas partículas, são então inaladas por seres humanos. Mas há um tipo que preocupa mais: a “cepa andina”, com relatos descritos em estudos de que ele poderia, sim, passar de pessoa para pessoa. Leia também: Remédio alivia principais queixas da menopausa em quem teve câncer de mama
Autoridades sanitárias da África do Sul já divulgaram a informação de que dois pacientes recebidos pelo país (uma das quais faleceu) deram positivo para o tal vírus Andes, o único potencialmente transmissível entre seres humanos. O surto começou com um casal holandês Verdade, mas isso exige explicação. A OMS considera um casal holandês os “casos 1 e 2” do surto atual.
Os dois já morreram: ele, de 70 anos, faleceu em 12 de abril ainda a bordo. Ela, de 69 anos, acabou falecendo na África do Sul em 26 de abril, após ser evacuada do navio. No entanto, o fato de eles serem os primeiros pacientes identificados não significa, necessariamente, que o casal tenha dado início ao surto no barco.
Ainda não há confirmação de uma cadeia de transmissão a bordo: cada caso suspeito poderia ter contraído o vírus separadamente, por exemplo, e não necessariamente uns dos outros. Também não está claro onde exatamente os passageiros contraíram o hantavírus. Uma das questões que torna o rastreio mais difícil é que a doença pode ficar incubada por até oito semanas, ou seja, um intervalo de dois meses desde a exposição original.
O barco partiu em 1º de abril e a primeira morte foi apenas 11 dias mais tarde. Uma terceira morte suspeita (que ainda não foi confirmada para hantavírus), de uma passageira alemã, ocorreu apenas em 2 de maio, mais de um mês após o MV Hondius zarpar. Extraoficialmente, investigadores argentinos falaram à imprensa que o casal holandês teria visitado um aterro sanitário em Ushuaia antes de embarcar, onde poderiam ter se exposto a roedores.
Situações semelhantes podem ter ocorrido com outros passageiros e tripulantes. Vários países já detectaram casos relacionados ao surto Mito. Até aqui, nenhum caso foi confirmado entre pessoas que não estavam a bordo do navio. Mais de saude
Seguindo recomendações da OMS, diferentes países do mundo estão tentando localizar e testar pessoas que tiveram contato com os passageiros contaminados após estes deixarem o barco e apresentaram sintomas que poderiam ser atribuídos ao vírus. Você deve ter visto, inclusive, notícias falando de pessoas que “testaram para hantavírus”. Mas é importante fazer a distinção: testar significa que o caso está sendo investigado, e não que o teste deu positivo.
Um exemplo notório disso é o rastreamento que foi feito na Holanda: três pessoas que tiveram contato próximo com a mulher que morreu na África do Sul foram submetidas a exames após apresentar sintomas, incluindo um comissário de bordo de um avião no qual ela chegou a embarcar. Mas todos tiveram resultados negativos. A quantidade de casos tratados como suspeitos e depois descartados tem a ver com os sintomas característicos da cepa andina: ela provoca a chamada síndrome cardiopulmonar por hantavírus, que gera dificuldades respiratórias. Leia também: volodymyr zelensky
Assim, uma pessoa que tenha entrado em contato com os passageiros automaticamente se torna um caso suspeito até ser testada para hantavírus, mesmo que os sintomas possam ter se originado em outro quadro, como uma gripe ou resfriado. Possível transmissão entre humanos exige contato prolongado Até onde se sabe, é verdade.
Mas aqui também é preciso fazer uma ressalva: ainda não é consenso científico que a transmissão entre seres humanos realmente ocorra, mesmo nos casos do vírus Andes. Em 2021, um amplo estudo de revisão, que envolveu até mesmo pesquisadores do Hospital de Clínicas da Unicamp, analisou trabalhos já feitos que tentaram demonstrar esse tipo de contágio, e concluiu que as evidências disponíveis ainda são insuficientes. Os pesquisadores diziam que até mesmo para o famoso surto de Epuyén, no sul da Argentina, entre 2018 e 2019, não era possível cravar que houve transmissão de pessoa para pessoa: segundo eles, o fato de o sequenciamento genético mostrar altíssima similaridade entre os vírus detectados nos pacientes também poderia ser explicado por uma exposição às mesmas populações de roedores da região.
Mas vale dizer que diversos especialistas e a própria OMS declarem que a transmissão entre humanos pode sim ocorrer. Os casos documentados indicam que é preciso um contato próximo e prolongado entre as pessoas – algo que ocorre quando se está confinado em um cruzeiro transatlântico por um mês, mas é bem menos provável em contextos normais. Por isso, o potencial pandêmico do hantavírus continua sendo considerado remoto até o momento, a menos que a cepa encontrada no MV Hondius tenha passado por algum tipo de mutação que permita uma transmissão sustentada e facilitada.
Até o momento, porém, não há indícios disso.

