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Mães endividadas apostam online em busca de renda, aponta estudo

Mais da metade das brasileiras já sentiu na pele o avanço das bets, seja jogando, seja arcando com a conta

Mães endividadas apostam online em busca de renda, aponta estudo

Mais da metade das brasileiras já sentiu na pele o avanço das bets, seja jogando, seja arcando com a conta. Entre elas, 42% apostam ou já apostaram, e outras 12% que nunca apostaram dizem sofrer os efeitos do vício de parceiros ou parentes. Entre as mulheres que apostam, as que têm filhos jogam cerca de 1,6 vez mais do que as sem filhos, sugerindo que, para essas mães, jogar tem menos a ver com lazer ou adrenalina e mais com a tentativa de fechar as contas do mês.

Os dados são do estudo "Mulheres & Bets", divulgado pela Clarice, estúdio de pesquisa sobre mulheres e poder, em parceria com o Instituto Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA. O levantamento combina 20 grupos qualitativos com 60 mulheres e homens e uma enquete nacional com 2.008 entrevistados, feita em julho. O avanço das apostas entre as mulheres também se reflete nos participantes dos encontros dos Jogadores Anônimos, entidade de acolhimento de pessoas com problemas relacionados ao jogo.

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Entre novembro de 2024 e julho deste ano, quando a Folha participou de reuniões, o crescimento do número de mulheres participantes também foi perceptível. Na visita mais recente, elas eram quase um terço da presença na sala. Havia desde uma gestante que relatava as dificuldades de abandonar os caça-níqueis online, até uma mãe que só conseguiu largar o jogo há cerca de nove meses ao pensar no filho.

Esta última, hoje, tem receios de se aproximar de familiares da nova namorada, devido à relação deles com o jogo. " As mulheres que apostam, as mães que apostam, não apostam para serem a Virgínia, como as pessoas ficam achando", diz Beatriz Della Costa, cofundadora da Clarice e uma das porta-vozes do estudo, em referência à influenciadora conhecida pela vida de luxo e pelos contratos de milionários com bets.

" Elas apostam para pagar o bolo do aniversário, para ir comer num japonês, para pedir um delivery, para comprar material escolar. É como se fosse a terceira renda", acrescenta. Leia também: Receita paga último lote do Imposto de Renda amanhã; veja se você tem direito

Para a pesquisadora, essa é a chave que explica por que a aposta se disseminou com tanta força entre as mães: ela promete um atalho para uma vida que deixa de ser apenas sobrevivência e passa a ser mais digna. " Tem a ver com o cuidado também.

As bets atuam nesse lugar: 'eu vou jogar para cuidar melhor de mim, da minha família. ' Só que, no fim, não é isso que acontece. "

Na leitura de Della Costa, o fenômeno das apostas entre mulheres não pode ser entendido sem olhar para o momento em que as plataformas se popularizaram no Brasil. O jogo de azar online foi legalizado no Brasil em 2018, ganhou tração na pandemia de Covid e capturou mais de R$ 10 bilhões das famílias brasileiras pela primeira vez em 2021, segundo a consultoria H2 Gambling Capital. Essa camada de mulheres, pondera a pesquisadora, perdeu renda, emprego e estabilidade num momento em que as apostas online passaram a oferecer a promessa de dinheiro rápido.

" As bets chegaram muito nesse momento, quando a pandemia começou, e ofereceram esse lugar muito fácil de ganho rápido de recurso, como um complemento de renda", diz. Entre 2019 e 2025, quando o mercado de apostas corria sem regras de nem de prevenção ao vício, o marketing ocupava sobretudo as redes sociais, dada a aversão da mídia tradicional ao risco reputacional.

Ainda sem fiscalização do governo, influenciadores anunciavam caça-níqueis como fonte de renda extra, junto de falsas "estratégias vencedoras". No fim da pandemia, a catarinense Bianca Araújo, 38, conheceu as apostas online por intermédio do ex-marido e das redes sociais, um cenário prevalente segundo o relatório da Clarice. O jogo levou Bianca a perder o casamento, as economias e a moradia entre 2021 e 2023. Mais de economia

" O tamanho do prejuízo foi mais de R$ 500 mil em dinheiro. Eu peguei empréstimo tanto no meu CNPJ como no meu CPF.

A gente tinha uma caminhonete, uma Ford Ranger, e a vendeu por R$ 210 mil. Em uma semana, a gente gastou R$ 150 mil. É uma doença mesmo, uma loucura", recorda Araújo.

Araújo diz que começou com palpites esportivos vencedores e avaliou que poderia ter uma fonte de renda. Ela lembra que passou o ano de 2021 entre ganhos e perdas, enquanto mantinha um negócio em paralelo de venda de cursos. Em 2022, o saldo da conta da esteticista começou a cair. Leia também: Juro médio do rotativo do cartão de crédito cai a 436,2% ao ano em julho

"Chegou um momento no fim de 2022 que eu e meu ex-marido decidimos vender os móveis porque eu não tinha dinheiro nem para voltar para a casa da família. " Depois de uma recaída em meados de 2023, decidiu parar após faltar dinheiro para o aluguel e mantém-se abstêmia há três anos.

" Eu tive muitas crises de pânico, sentia dor no meu corpo. Acelerava meu coração de preocupação", lembra.

Para o psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, responsável pelo ambulatório de tratamento de dependências de comportamentos do Proad (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes), da Unifesp, o crescimento das apostas entre mulheres acompanha uma mudança no papel social feminino. Segundo ele, o jogo, historicamente mais associado aos homens e à ideia de provedor, passa a ser procurado também por mulheres que enfrentam a pressão de conseguir dinheiro para sustentar a casa ou atender às necessidades dos filhos. "

À medida que as mulheres também entram nesse perfil de ser a pessoa que tem que prover alguma coisa, conseguir algum dinheiro, elas também vão correr atrás do jogo com essa função", afirma. Vieira Júnior ressalta, porém, que é preciso diferenciar o aumento do número de pessoas que jogam daquelas que desenvolvem um comportamento problemático ou uma dependência. "

O uso está crescendo, o uso problemático também está crescendo, mas nem todo uso é um problema", diz. Para ele, entre os jogadores problemáticos estão tanto os que acreditam que conseguirão ganhar dinheiro fácil quanto aqueles que, diante de dificuldades financeiras, apostam como uma espécie de última alternativa. A dependência, por sua vez, seria uma parcela ainda menor e envolve perda de controle, prejuízos e um progressivo empobrecimento da vida da pessoa.

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