Ao lado de alguns empresários russos, os grandes oligarcas do mundo são Mark Zuckerberg, dono da Meta, e o Vale do Silício, região americana conhecida por concentrar as grandes empresas de tecnologia. É o que afirma, provocante, Vadim Baranov, personagem de Paul Dano em " O Mago do Kremlin".
No filme, ele é o ex-braço direito de Vladimir Putin e conta sua ascensão a um acadêmico. O novo longa do francês Olivier Assayas adapta o romance homônimo do cientista político Giuliano da Empoli.
Ainda que Vadim seja um personagem ficcional —assim como os bastidores do Kremlin por ele descritos— o livro é fiel ao contexto histórico pós-queda da União Soviética e aos eventos que antecederam a anexação da Crimeia, em 2014, incluindo a escalada de Putin ao poder, ancorada em uma narrativa apelativa ao povo russo. Vadim é inspirado em Vladislav Surkov, ex-assessor de Putin na vida real, considerado o grande ideólogo e articulador da política russa contemporânea e responsável por ter popularizado a imagem do presidente. Surkov trabalhou com publicidade antes de entrar para a política, histórico exagerado no filme.
Vadim é um produtor de televisão convocado por um oligarca midiático para tornar Putin atraente o suficiente para vencer as eleições. Aos olhos dos dois, o futuro presidente era um mero ex-agente da KGB, antigo serviço secreto da União Soviética, que seria usado para assegurar o controle do governo pelos megaempresários. Mal sabiam eles que o escolhido não estava disposto a ser um fantoche. Leia também: 'O Mago do Kremlin' mostra por que Putin é tão temido na Europa

Calculista, autoritário e movido por um forte nacionalismo, Putin não aceita ser controlado por ninguém. Quando o líder planeja aprofundar o conflito com a Ucrânia, por exemplo, Vadim cria estratégias para garantir o seu sucesso —como se aproximar de grupos subversivos russos e prometer regalias para, assim, evitar qualquer revolta. Quem encarna Putin, pouco carismático aos olhos do mundo, é o galã hollywoodiano Jude Law.
" Se eu pudesse, teria feito esse filme na Rússia e com atores russos. Mas isso é impensável.
Não temos acesso ao país e os atores nunca mais trabalhariam depois disso", diz o diretor Olivier Assayas, por videochamada, referindo-se à censura artística e perseguição de vozes dissidentes no país. Atores americanos conferem um tom mais universal e muito bem-vindo à história, diz. "

O que conduziu a política russa naquele momento também conduz Donald Trump e políticos semelhantes. Ela é definida pelos mesmos valores e estratégias. " " Mais de entretenimento
O Mago do Kremlin" mostra como, surfando na cultura patriarcal da sociedade russa, cansada da instabilidade após a queda da União Soviética, Putin se estabeleceu como um homem forte, de pulso firme, que restabeleceria a ordem a qualquer custo. Enquanto narra essa ascensão, Vadim não poupa comentários ácidos ao Ocidente. Ele critica, por exemplo, como a Europa aceita a interferência dos Estados Unidos em outros países, mas condena ações parecidas por parte da Rússia. Leia também: Michael J. Fox, de 'De Volta para o Futuro', ironiza boato de que teria morrido
Em outro momento, zomba das revoluções coloridas de países do Leste Europeu nos anos 2000, que pediam por democracia após a União Soviética, dizendo que foram fomentadas pelos americanos ávidos por aumentar sua influência na região. Não é de agora que Assayas é conhecido por produções mais intelectuais e voltadas a dissecar relações de poder. Em 2019, fez "Wasp Network –Prisioneiros da Guerra Fria", com Penelope Cruz e Wagner Moura, sobre espiões cubanos que tentam frear o terrorismo no país caribenho e, antes disso, lançou em 2010 a minissérie "Carlos", que conta a história do guerrilheiro venezuelano Ilich Ramírez Sánchez.
Foi pelas suas mãos também que a atriz americana Kristen Stewart protagonizou seu primeiro filme independente de mais repercussão após a saga "Crepúsculo", " Acima das Nuvens", no qual contracenou com Juliette Binoche. Depois de passar pelo Festival de Veneza no ano passado, "
O Mago do Kremlin" estreia no Brasil no momento em que a Guerra da Ucrânia, que já dura mais de quatro anos, chega ao seu nível mais violento depois que os olhos do mundo se voltaram para a Guerra no Irã. " Não acredito que filmes possam mudar o mundo", afirma Assayas, sobre a possível influência de seu trabalho no debate público.
Ele diz se empolgar mais com a ideia de investigar as origens do que chama de perversidade da política moderna, impulsionada pelas redes sociais. Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.