← Entretenimento
Entretenimento

Ficção e documentário trocam de papéis: o detalhe que mais repercutiu

O longa de ficção " O Mago do Kremlin" e o documentário " Um Zé Ninguém contra Putin" chegam ao Brasil alternando seus papéis enquanto contam

Template editorial: ent-feature
Ficção e documentário trocam de papéis: o detalhe que mais repercutiu

O longa de ficção " O Mago do Kremlin" e o documentário " Um Zé

Ninguém contra Putin" chegam ao Brasil alternando seus papéis enquanto contam histórias complementares acerca da Rússia moderna, como num díptico. Enquanto " O Mago" traz uma versão bem acurada, formalista e documental da ascensão de Vladimir Putin ao posto de czar do século 21, "

Um Zé Ninguém " flerta com a comédia política ao mostrar o cotidiano de uma escola nos cafundós da Sibéria.

São obras irregulares e donas de destinos díspares. Enquanto a ficção foi ignorada pela temporada de premiações, o documentário levou o Oscar da categoria neste ano. Ambas as apreciações soam exageradas.

Imagem do artigo

Começando pelo "Mago", veículo para uma impressionante atuação de Jude Law como Putin. A forma com que ele fuzila interlocutores com o olhar enquanto lhes oferece a cadeira para sentar, com os lábios imóveis, é precisa. Isso dito, ele não é o protagonista do longa de duas horas e 26 minutos, o que cabe ao versátil Paul Dano, de "Sangue Negro". Leia também: Jude Law é Vladimir Putin em filme que faz da política um teatro de marionetes

Ele vive Vadim Baranov, uma versão fictícia de Vladislav Surkov, o homem a quem é creditada a criação da persona fria e poderosa de Putin. Dano se mostra ausente, um instrumento dos tempos em que vive, do ocaso da União Soviética até a agitação que levou à tomada da Ucrânia em 2014, o escopo temporal do filme. Mas o mutismo emocional ofusca o brilhantismo atribuído ao personagem.

A reconstrução histórica do diretor francês Olivier Assayas é excelente, e Baranov vive em um mundo no qual se cruzam personagens reais, como o oligarca Boris Berezovski, e ficcionais, inspirados na realidade. O tom gélido favorece a ordem na barafunda de personagens e temas, mas eles estariam bem numa série de dez episódios para a TV, dada a ambição. Ela decorre da matéria-prima de alta qualidade na qual o roteiro é baseado, o best-seller homônimo do suíço-italiano Giuliano da Empoli.

Como no livro, a Rússia é exposta enquanto as engrenagens do poder autocrático que se espalha pelo mundo do século 21 são esmiuçadas. Assayas emula Da Empoli, mas trai o espírito de ambiguidade do livro com um discutível desfecho mais cinematográfico. Como seria previsível, tentando mostrar Putin e seu entorno como produtos racionais, o filme atraiu críticas que transcendem suas qualidades e defeitos.

Imagem do artigo

É um erro —é a humanidade deles que os torna assustadores. Ela é explicitada no documentário do russo Pavel Talankin e do americano David Borenstein, " Um Zé Ninguém Contra Putin", lançado diretamente no streaming Filmelier+. Mais de entretenimento

O longa atende às vontades de quem só vê vilões e mocinhos no mundo, mas vai além. O Zé Ninguém de seu título é o próprio Talankin, que trabalha como cinegrafista de uma escola em Karabach, conhecida como a cidade mais poluída da Rússia devido à exploração e fundição de cobre desde 1822. Ao longo de dois anos a partir de 2022, Talankin registrou as mudanças decorrentes da Guerra da Ucrânia.

De repente, canções patrióticas e palestras ideologicamente carregadas sobre o conflito viraram obrigatórias. O diretor tinha de gravar tudo e submeter a um orwelliano sistema de controle do governo. O naturalismo ganha ares farsescos, e de repente o documentário parece ficção. Leia também: Theatro Municipal de São Paulo recebe espetáculo grátis de MPB com orquestra

As falas de um professor leal ao sistema são tão caricatas que parecem ensaiadas, e Talankin empresta sua figura ingênua à criação de um personagem em si. Há estranhamento aí. A conversão de Talankin de espectador para o Zé

Ninguém antissistema é pouco verossímil, embora isso talvez seja explicado pela necessidade de proteger os elos que o levaram a contrabandear seu trabalho para o exterior. O fraco resultado técnico acaba compensado pelo horror invadindo aquela comunidade, que fica na região com o terceiro maior número de mortes de soldados na Ucrânia. O Kremlin busca contratar mais militares em regiões longe da vida abastada de Moscou e São Petersburgo.

De forma questionável, ele expõe os jovens. Uma exceção é o registro apenas em áudio de uma mãe no enterro do filho. Como Werner Herzog em "

O Homem Urso", ele deixa o som solapar o espectador. Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

Leia também