Aviões são mais seguros que hospitais. O que isso diz sobre erros médicos? Hoje é mais seguro voar de avião do que fazer uma cirurgia.
Por isso, protocolos em hospitais devem ser tão rigorosos quanto os da aviação Sabe como um piloto prepara um voo? Muito antes da decolagem, ele faz o briefing (um guia com objetivos, recursos e instruções) da operação. Para isso, ele analisa as condições meteorológicas da rota e dos aeroportos, a quantidade de passageiros e carga, o combustível exato, o peso da aeronave e o comprimento das pistas.
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Na cabine, o piloto realiza a verificação inicial dos instrumentos e checa se estão adequados para realizar o voo. Em seguida, faz o que a aviação chama de walkaround, que é uma volta completa e criteriosa ao redor da aeronave. Ele inspeciona, com os próprios olhos, cada detalhe: a fuselagem, as asas, a cauda, o trem de pouso, os freios, os motores e até a fixação de pequenos pinos e antenas.
Do primeiro ao último passo, tudo é guiado por checklists. Na aviação, absolutamente nada ocorre fora do padrão e sem checagem. Pense, agora, em um cirurgião se preparando para operar.
Existe um extraordinário paralelismo entre a cabine de comando do avião e a sala de cirurgia! Antes mesmo de calçar as luvas, o médico faz o seu próprio briefing: revisa o caso, o histórico do paciente, os exames pré-operatórios e o plano de tratamento. Leia também: Ozivy ganha destaque após novo desdobramento em ozivy: primeira versão nacional
Assim como o piloto não deve confiar apenas em sua experiência para acionar os motores, a equipe médica também não deve depender apenas da memória para garantir a segurança de um procedimento. É exatamente por isso que existe o checklist de cirurgia segura proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Antes de qualquer incisão, a equipe precisa confirmar em voz alta a identidade do paciente, o local exato da cirurgia e os materiais disponíveis.
A cirurgia só tem início quando a checagem é finalizada. Mas sabemos que, “na vida como ela é”, nem sempre isso acontece, principalmente em hospitais em que a cultura de segurança é colocada de lado. Dentro da aviação comercial, a cultura e a doutrina de segurança são elementos bem estabelecidos e consolidados.
Afinal, nesse setor a segurança é algo essencial e crítico: a companhia aérea tem o dever inegociável de entregar os passageiros e as cargas no destino exatamente da mesma forma que embarcaram. Não deveria ser diferente de quem entra em um hospital, mas com a expectativa das pessoas ainda mais elevada: de estar melhor do que quando entrou. Uma coisa é certa: a medicina ainda tem muito a aprender com a forma como a aviação encara seus próprios erros e se aprimora.
Curiosamente, essa cultura estruturada chegou muito mais tarde aos hospitais. Enquanto a indústria aeronáutica já consolidava seus protocolos rigorosos e aprendia com as próprias falhas ao longo de décadas, a medicina continuava apostando quase todas as fichas na excelência individual de seus profissionais. Errar para aprender
O grande choque de realidade veio em 1999, com a publicação de um relatório histórico do Instituto de Medicina dos Estados Unidos, apropriadamente intitulado “Errar é Humano”. O documento escancarou uma estatística assustadora: dezenas de milhares de pacientes morriam todos os anos vítimas de eventos adversos totalmente evitáveis. Ficou claro, de uma vez por todas, que a assistência à saúde também era uma atividade de alto risco. Mais de saude
Desde então, diversos estudos vêm confirmando que uma parcela expressiva das mortes hospitalares está relacionada a falhas de processo e à quebra nas barreiras de segurança do cuidado. No fim das contas, a saúde descobriu, com atraso, aquilo que a aviação já domina há muito tempo: sistemas complexos não dependem de heróis, mas de cultura de segurança, padronização, transparência e aprendizado contínuo.
Quando ocorre um acidente aéreo, algo com resultados catastróficos, a investigação aeronáutica tem um único objetivo: gerar aprendizado para que aquela tragédia nunca mais aconteça. O evento é exaustivamente analisado por todos os aspectos e ângulos possíveis e as conclusões são tornadas públicas para que toda a comunidade aeronáutica aprenda com aquela falha. Na medicina, infelizmente, essa transparência nem sempre é clara.
Erros muitas vezes são encobertos ou tratados de forma punitiva e o medo de duros processos médicos acaba alimentando o silêncio. Precisamos encarar a realidade de que erros acontecem, simplesmente porque somos humanos. Aviação e medicina não são diferentes neste aspecto. Leia também: Doença celíaca ganha destaque após novo desdobramento em doença celíaca
A diferença é que a aviação aprendeu e aprende mais rapidamente com os erros. E isso tem consequência claras: hoje é mais seguro entrar em um avião do que em um hospital.
+ O que aviões ensinam para médicos Os eventos adversos na saúde, especialmente os mais graves, precisam ser analisados sem julgamentos prévios, transformando-se em aprendizado aberto e obrigatório para todos, assim como a comunidade aeronáutica faz.
Isso não quer dizer que essa cultura elimine a responsabilização ou feche os olhos para atitudes inconsequentes. O segredo está em adotar uma linha divisória muito clara: a diferença entre erro e violação. O erro, como vimos, é inerente à natureza humana.
Ele exige análise, revisão de processos e a implantação de planos de ação para a melhoria contínua, abandonando a ideia de “caça a culpados”. + Já a violação é uma história completamente diferente.
É o desrespeito consciente e deliberado às normas e aos procedimentos de segurança estabelecidos. Para o erro, o foco é sempre corrigir o sistema e aprender. Mas quando há violação clara das regras, a responsabilização é justa, necessária e inescapável.
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