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Ler matéria →3 razões para tantos prédios desabarem nos terremotos da Venezuela- Author, Cecilia Barría- Role, BBC News Mundo- Published- Tempo de leitura: 7 min Famílias inteiras ficaram soterradas sob escombros. A devastação provocada pelos dois terremotos, de magnitude 7,2 e 7,5, que atingiram a Venezuela em 24/6 foi tão grande que muitos passaram a se perguntar por que tantos prédios desabaram, deixando milhares de mortos e feridos. O deslocamento da placa tectônica Sul-Americana em relação à placa do Caribe provocou uma enorme liberação de energia nas profundezas da Terra que foi mais intensa em frente ao litoral norte da Venezuela, na região que passou a ser chamada de "marco zero" da tragédia: o estado de La Guaira.
Embora os epicentros dos dois terremotos tenham sido registrados no estado de Yaracuy, o primeiro perto de San Felipe e o segundo nas proximidades de Yumare, a ruptura na crosta terrestre foi tão extensa que as ondas sísmicas se propagaram até o litoral de La Guaira, onde passa a falha de San Sebastián, localizada no ponto de atrito entre as duas placas tectônicas. Quantos prédios desabaram em La Guaira e por quê? A resposta ainda está sendo estudada, mas os cientistas já têm algumas pistas.
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" Pode haver mais de 50 razões para um prédio desabar", afirma Feliciano de Santis, presidente da Sociedade Venezuelana de Geólogos, em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC. Entre elas estão o impacto das ondas sísmicas dos dois terremotos, um terremoto duplo registrado no país apenas uma vez antes, em 1812, e a proximidade de La Guaira da área onde houve uma enorme liberação de energia sísmica.
Também contribuíram o tipo de solo, a ressonância nos prédios e irregularidades nas construções, afirma De Santis. O governo, que declarou La Guaira zona de desastre, informou nesta semana que mais de 800 prédios sofreram danos em todo o país, a maioria deles em La Guaira. Já estimativas independentes, como a do Instituto de Pesquisa de Sistemas Ambientais (ESRI), apontam cerca de 900 construções danificadas.
A Nasa (agência espacial americana), por sua vez, fez uma estimativa preliminar indicando que cerca de 59 mil edificações em toda a Venezuela podem ter sofrido algum tipo de dano. Mas a projeção é apenas indicativa e não inclui verificações em campo. O que pode ter provocado o desabamento de tantas construções no litoral norte da Venezuela? Leia também: Por que São Paulo é a 2ª cidade do mundo que mais ouve Taylor Swift no Spotify
1. O impacto direto das ondas sísmicas em La Guaira O litoral do estado de La Guaira recebeu o impacto direto das ondas sísmicas por estar localizado exatamente em frente à falha de San Sebastián, onde se encontram as placas tectônicas do Caribe e Sul-Americana, que se deslocam lentamente em direções opostas.
A falha se estende pelo fundo do mar, de oeste a leste, quase paralelamente ao litoral. Foi justamente nessa região, muito próxima da costa, que a ruptura do sistema de falhas provocada pelo terremoto duplo causou os maiores danos. "O terremoto duplo reuniu todas as características para provocar uma grande tragédia em qualquer parte do mundo", afirma Rafael Abreu, geofísico do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês), em entrevista à BBC News Mundo.
Segundo Abreu, o terremoto teve alta magnitude, longa duração, pouca profundidade e uma ruptura, ou deslizamento horizontal, com características que tornaram o terremoto ainda mais destrutivo. José María de Viana, engenheiro civil e professor da Universidade Católica Andrés Bello, na Venezuela, explica que o maior impacto do segundo terremoto ocorreu em frente ao litoral de La Guaira, segundo estudos técnicos do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia da Itália e do USGS. "
Isso nos ajuda a entender por que a devastação foi tão excepcional ali", afirma. " O impacto foi direto e certeiro.
" Segundo Viana, o estudo italiano concluiu que o deslizamento da falha atingiu um deslocamento máximo de 3,6 metros no leito marinho, imediatamente ao norte da cidade de Catia La Mar, em La Guaira, uma das localidades mais afetadas pela tragédia. Em outras áreas, o deslocamento da falha foi de apenas alguns centímetros, explica Sergio Barrientos, diretor do Centro Sismológico Nacional da Universidade do Chile. Mais de mundo
" A falha não se desloca da mesma forma em toda a sua extensão", afirma, se referindo ao fenômeno que explica por que os efeitos do terremoto variam de uma região para outra. Nas áreas onde a ruptura é maior, diz Barrientos, "as ondas sísmicas são mais intensas e têm maior amplitude, mesmo que o epicentro tenha sido em outro lugar".
2. Características do solo Além do poder destrutivo do terremoto duplo, os prédios desabaram por causa do tipo de solo ou por falhas na construção?
Essa é a principal pergunta feita por muitos especialistas e, como costuma acontecer, não há uma única resposta. " Nem todos os solos de La Guaira são iguais", afirma Michael Schmitz, professor de geofísica da Universidade Simón Bolívar e da Universidade Central da Venezuela. Leia também: 'VAR está indo longe demais': gol anulado da Croácia reacende debate na Copa
Segundo Schmitz, há áreas específicas do estado, como a cidade de Caraballeda, onde existe uma bacia sedimentar com cerca de 400 metros de profundidade e onde o solo mais macio contribuiu para os desabamentos. Em outras áreas, como Catia La Mar, cidade turística que hoje lembra uma zona de guerra, o solo é predominantemente formado por rochas de dureza intermediária. Há regiões de La Guaira assentadas sobre leques aluviais que acumularam camadas pouco espessas de sedimentos mais macios, afirma Viana.
Segundo ele, esses solos sedimentares "funcionaram como um filtro que amplificou de forma brutal o movimento do terreno". Ruth Quereguán, pesquisadora da Escola de Geologia, Minas e Geofísica da Universidade Central da Venezuela, percorreu Catia La Mar e a região no entorno do Aeroporto Internacional de Maiquetía, em La Guaira. "
Vi tanta ou mais devastação do que nos deslizamentos", afirma Quereguán, referindo-se à tragédia provocada pelos deslizamentos de terra na serra de El Ávila, em dezembro de 1999. Esses deslizamentos atingiram diretamente La Guaira, que na época se chamava estado de Vargas.
Quase três décadas depois, a mesma região voltou a ser palco de um terremoto duplo. Segundo a pesquisadora, "são dois fenômenos que se sobrepõem". Em La Guaira há muitos terrenos parcialmente consolidados em consequência dos deslizamentos, ou seja, áreas formadas por sedimentos de resistência intermediária.
Segundo Quereguán, esses solos sedimentares podem ter contribuído para o colapso dos prédios. " Muitas respostas só virão quando tivermos mais dados disponíveis.
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