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Vitória de Lula pode ser tão estratégica para Trump quanto a de Flávio Bolsonaro, diz professor Guilherme Casarões

Crédito, Reuters / EPA/Shutterstock / Agência Senado Article Information Author, Mariana Schreiber Role, Da BBC News Brasil em Brasília Há 3 horas Tempo de leitura: 18

Vitória de Lula pode ser tão estratégica para Trump quanto a de Flávio Bolsonaro, diz professor Guilherme Casarões
Colagem de fotos com imagens de Lula, Trump e Flávio

Crédito, Reuters / EPA/Shutterstock / Agência Senado

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    • Author, Mariana Schreiber
    • Role, Da BBC News Brasil em Brasília
  • Há 3 horas
  • Tempo de leitura: 18 min

O recente desentendimento entre Brasil e Estados Unidos em torno da prisão e soltura do ex-deputado Alexandre Ramagem em Orlando evidencia o acesso que o bolsonarismo mantém ao governo de Donald Trump, mesmo após a boa "química" entre o líder americano e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nota o especialista em relações internacionais Guilherme Casarões, professor da Florida International University (EUA), em entrevista à BBC News Brasil.

Isso não significa, ressalta, que o episódio vá escalar para uma crise diplomática, nem que Trump dará apoio expresso ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na eleição de outubro, quando o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) deve enfrentar o petista.

"A sensação que eu tenho é de que o governo americano vai preferir jogar parado, porque, no fim das contas, ainda que fosse muito interessante para o governo Trump ter um aliado carnal, submisso aos Estados Unidos, eu não sei se é exatamente isso que o Trump está procurando nesse momento", afirma Casarões, em referência à aliança da família Bolsonaro com o americano.

Para o professor, o republicano também pode ter interesse na continuidade de um presidente como Lula, que, na sua visão, seria mais capaz de dialogar com outros países da América Latina.

Para Casarões, o Brasil não é uma prioridade para Trump no momento em que os Estados Unidos estão em conflito com o Irã e o encarecimento dos combustíveis pesa no bolso dos americanos. Leia também: Homens armados fazem ataques coordenados na capital do Mali, diz Exército

Apesar disso, ele diz que a relação com a Casa Branca traz potenciais riscos para Lula na eleição de outubro. A maior vulnerabilidade do presidente brasileiro, destaca, está na área da segurança pública, com a possível declaração de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas pelo governo Trump.

Hoje, nota Casarões, o Itamaraty trabalha ativamente para estabelecer cooperações com os EUA no combate ao crime organizado, na tentativa de evitar essa classificação, que o governo Lula entende como uma forma de interferir na soberania nacional.

O risco, diz, é a campanha da Flávio usar essa resistência para acusar a gestão petista de uma suposta fraqueza ou cumplicidade contra essas facções.

"Mesmo que a relação com os Estados Unidos não esteja diretamente implicada no debate eleitoral, ela vai chegar por vias tortas, e isso pode ter um efeito na percepção do eleitor mais ao centro, que ainda não se decidiu por Lula ou Flávio Bolsonaro".

"Então, acho que vai ser algo muito calculado daqui para frente, para que a reação seja uma defesa da soberania nacional, por óbvio, mas que não atrapalhe a relação bilateral como um todo, num momento em que, para o Lula, manter uma boa imagem junto aos Estados Unidos é crucial também". Mais de mundo

Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil – O que significa a decisão do governo americano de expulsar o policial federal que atuou na prisão do Ramagem?

Guilherme Casarões – Não é incomum que oficiais de outros países sejam retirados do território nacional a pedido de um governo. Isso pode acontecer quando há alguma questão diplomática envolvida, algum receio de que esses agentes estrangeiros possam estar atuando de maneira ilegal. No caso de Brasil-Estados Unidos, eu não me recordo de nenhum tipo de precedente, mas não é um absurdo jurídico, não é uma ruptura diplomática ou algum tipo de agravamento diplomático.

Me parece que a decisão do governo americano foi muito reativa e tem a ver com o trabalho feito por brasileiros que vivem nos Estados Unidos, como o jornalista Paulo Figueiredo, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que têm acesso direto a membros da Casa Branca e que conseguiram, a partir desse acesso, colocar uma outra versão da história do ex-deputado Alexandre Ramagem, defendê-lo da acusação de que ele, por estar nos Estados Unidos ilegalmente, por ter um mandado de prisão no Brasil, deveria ser extraditado. Parece que corrigiram ali a situação dele, que, aparentemente, tem um pedido de asilo pendente.

Isso tudo mostra que a Casa Branca ainda está muito permeável a essa pressão colocada pelo bolsonarismo. A gente achou que isso tinha, de alguma maneira, se esvaído depois do encontro entre o presidente Lula e o presidente Trump [em setembro], a química que foi mutuamente declarada com relação aos dois presidentes, e, aparentemente, não, ainda existe esse acesso que coloca uma pressão grande sobre a Casa Branca para que ela reaja a situações entendidas como incômodos para o bolsonarismo.

Isso não quer dizer, necessariamente, que o governo Trump vai escalar essa situação. Acho que o momento político nos Estados Unidos é um momento muito difícil, porque envolve questões internas, externas, a guerra do Irã, os impactos disso sobre a economia, sobre principalmente a inflação dos combustíveis nos Estados Unidos. Então, dificilmente o Brasil vai se tornar uma prioridade do governo americano.

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