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'Taxa da bala' ganha destaque após novo desdobramento em por vagner ricardo

por Vagner Ricardo Ao longo de décadas de omissão e tolerância institucional, o crime organizado deixou de ser um problema periférico para se consolidar como um agente

'Taxa da bala' ganha destaque após novo desdobramento em por vagner ricardo ao

por Vagner Ricardo Ao longo de décadas de omissão e tolerância institucional, o crime organizado deixou de ser um problema periférico para se consolidar como um agente econômico paralelo— com “habeas corpus” de fato para expandir sua atuação no País, infiltrar-se na economia formal e disputar espaço em mercados regulados. O resultado é um impacto sistêmico: setores inteiros passaram a operar sob influência direta ou indireta de facções, que hoje impõem um custo econômico estimado em até 11% do PIB brasileiro— algo entre R$ 1,3 trilhão e R$ 1,5 trilhão.

Um “imposto invisível” que corrói competitividade, afasta investimentos, desorganiza cadeias produtivas e compromete o desenvolvimento de territórios inteiros. A chamada “mancha criminal” se espalha em múltiplas dimensões: eleva custos operacionais, reduz investimentos em áreas críticas, pressiona o mercado imobiliário em regiões violentas, altera rotas logísticas e aprofunda a informalidade.

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O efeito combinado é a perda de produtividade e o travamento da circulação econômica em áreas estratégicas do País. Especialistas alertam que não há uma “bala de prata”, uma solução simples ou imediata para conter a expansão das facções e suas engrenagens financeiras. Ainda assim, reforçam que a inação não é uma alternativa.

O crime é comparado a uma doença que não foi tratada no início, e hoje coloca o País diante de uma estrutura profundamente enraizada. “Quando se tem dinheiro, é possível criar estrutura de recursos humanos, corromper agentes públicos e expandir domínio territorial. O Brasil ignorou durante décadas a necessidade de atacar o fluxo financeiro das facções.

Compreendeu o fenômeno, mas não agiu. E não agiu por omissão ou conivência”, assinala Paulo Storani, antropólogo e ex-capitão do Bope. Na mesma linha, a antropóloga e cientista política Jacqueline Muniz destaca que o desafio não está em eliminar completamente o crime organizado— algo irrealista —, mas em reduzir sua capacidade de acumulação, limitar sua captura institucional e impedir que se converta em uma forma de governança sobre territórios e populações. Leia também: Jovem Advogada Solta em Goiás Após Prisão R$ 7 Milhões; Polícia Contesta Erro de Identificação

Para ela, o fenômeno deve ser compreendido como uma engrenagem político-econômica complexa, que articula mercados legais e ilegais, agentes públicos e privados e economias formais e informais— e ainda tem mecanismos próprios de regulação e coerção. É justamente essa capacidade de operar em diferentes regimes de legalidade que explica sua resiliência. “

A sobrevivência das facções depende de três condições simultâneas: diversificação de commodities ilegais, enraizamento territorial-comunitário e relações estáveis com segmentos do Estado. Sem esses elementos não há escala, continuidade nem capacidade de adaptação”, afirma ela. Para Storani, isso significa que o País atingiu um estágio avançado de consolidação da criminalidade organizada, cuja reversão exigirá décadas de políticas públicas permanentes, integração institucional e enfrentamento financeiro das facções.

Nesse novo estágio, especialistas apontam que o fenômeno já não pode ser tratado apenas como tema de segurança pública, mas como um sistema econômico híbrido, que interage com mercados formais, distorce cadeias produtivas e pressiona a capacidade regulatória do Estado. Apesar dos avanços em legislação e das sucessivas operações policiais, autoridades e analistas reconhecem que a sofisticação dos esquemas de lavagem de dinheiro e a engenharia financeira das organizações criminosas evoluíram em ritmo superior ao da resposta institucional. O resultado é um descompasso crescente entre a complexidade do crime e a capacidade de fiscalização, investigação e punição.

CARBONO OCULTO Um dos exemplos mais recentes dessa transformação é a Operação Carbono Oculto, conduzida em conjunto pela Polícia Federal, Receita Federal e Ministérios Públicos, que revelou um esquema bilionário associado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A investigação identificou uma estrutura que envolvia mais de mil postos de combustíveis, empresas de fachada e operadores financeiros, além da utilização de fundos de investimento, instituições de pagamento e estruturas sofisticadas do mercado financeiro para lavagem de dinheiro oriundo do tráfico e de outras atividades ilícitas.

O caso evidencia um ponto central do debate atual: a transição das facções de organizações essencialmente territoriais para agentes econômicos altamente adaptáveis, capazes de transitar entre o mundo informal e o sistema financeiro regulado. Para o economista Carlos Thadeu de Freitas, “parte dessa expansão está relacionada a fragilidades regulatórias e institucionais no sistema financeiro brasileiro”. Segundo ele, a rápida disseminação das fintechs ocorreu em um ambiente de baixa coordenação entre o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários, o que teria aberto brechas para operações com menor rastreabilidade da origem dos recursos. Mais de noticia

“Alguém tem que exigir a origem do recurso”, afirmou, ao defender maior integração entre os órgãos reguladores e reforço nos mecanismos de controle. O economista também destaca que o problema não se limita à regulação, mas envolve capacidade operacional. O déficit de servidores especializados em áreas como fiscalização financeira, análise de risco e inteligência regulatória teria reduzido a capacidade de monitoramento do sistema como um todo, especialmente em um ambiente de digitalização acelerada e aumento da complexidade das transações.

EFEITOS DA EXPANSÃO Na avaliação de entidades do setor segurador, os efeitos dessa expansão já são sentidos diretamente na economia formal. Segundo a CNseg, o avanço do crime organizado eleva custos operacionais, aumenta a frequência de indenizações e pressiona o preço das coberturas, especialmente em áreas mais expostas à criminalidade.

O impacto não se limita ao setor de seguros: a escalada de fraudes, roubos e crimes digitais amplia a demanda por soluções tecnológicas, ao mesmo tempo em que restringe o acesso à proteção em determinadas regiões, aprofundando desigualdades econômicas e territoriais. Dados da CPI do Crime Organizado do Senado reforçam o diagnóstico de fragilidade institucional. O levantamento aponta déficits significativos de pessoal na Polícia Federal, na Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), na Receita Federal e no Banco Central, comprometendo a capacidade de investigação, inteligência e regulação. Leia também: Temor de Deus ganha destaque após novo desdobramento em o medo constitui

O documento também destaca que a chamada “descapitalização dos órgãos de controle e inteligência” cria um efeito paradoxal: ao enfraquecer o Estado, amplia-se o espaço de atuação das organizações criminosas. Nesse cenário, o sistema prisional continua desempenhando papel central na reorganização das facções. De acordo com a CPI, existem hoje cerca de 90 facções criminosas ativas no País, com diferentes níveis de atuação regional, nacional e transnacional.

O PCC e o Comando Vermelho estão presentes em 24 estados e no Distrito Federal e já operam em múltiplas frentes econômicas e logísticas, com impactos diretos sobre o comércio ilegal, a segurança urbana e a governança de territórios vulneráveis. A expansão dessas organizações também alcança o plano internacional, com implicações crescentes sobre regras de compliance e relações comerciais. Em determinados contextos, operações envolvendo grupos brasileiros passaram a ser observadas sob o prisma de riscos transnacionais, ampliando a complexidade regulatória para empresas expostas a cadeias globais de valor.

Para o antropólogo Storani, a evolução dessas organizações é resultado de um processo histórico que começa no sistema prisional. Segundo ele, o PCC surgiu inicialmente como uma estrutura de proteção entre detentos, mas evoluiu para um modelo de organização altamente estruturado. “

O PCC virou uma espécie de franquia criminosa. A lógica é simples: o criminoso contribui financeiramente e, quando for preso, terá proteção, advogado e assistência para a família”, afirmou. Storani explica que o Comando Vermelho, por sua vez, ganhou força a partir da expansão do mercado de cocaína nas décadas de 1980 e 1990, quando a queda de preços ampliou o consumo e criou uma demanda reprimida significativa.

A partir desse processo, as facções passaram a se estruturar de forma mais complexa e diversificada. Com o tempo, segundo ele, o domínio territorial deixou de se limitar ao tráfico de drogas e passou a incorporar um modelo de exploração econômica mais amplo, inspirado em dinâmicas observadas em milícias urbanas. “

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