Saúde: Panorama de Novidades e Alertas para o Público
Ler matéria →Susana Werner diz usar ‘caneta’ ainda experimental para perder peso; entenda riscos Atriz afirmou usar retatrutida e um composto de peptídeos para emagrecer, mas produtos não têm aprovação das agências reguladoras sanitárias A empresária e atriz Susana Werner, 48, divulgou nas redes sociais que está iniciando, nos Estados Unidos, um processo de emagrecimento com o uso de canetas anti-obesidade.
Em um vídeo publicado nesta quarta-feira, 17, ela aparece fazendo a aplicação de uma substância sob a pele e, na legenda, escreveu que se tratava de retatrutida, um medicamento ainda experimental e sem registro ou aprovação comercial em todo o mundo. Na publicação, ela disse que deu início à uma “transformação após 10 anos comendo porcarias” e que, além da retatrutida, teria aplicado um químico chamado “klow”, apresentado nas redes sociais como “blend de peptídeos”. Amplamente divulgados nas redes nos últimos meses, os peptídeos são aminoácidos que formam proteínas e têm sido apresentados como substâncias capazes de atender à diversas necessidades do corpo: recuperação muscular, estímulo de colágeno, melhora da composição corporal e mais.
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Aliás, as próprias canetas emagrecedoras também têm peptídeos em sua formulação. No entanto, a grande maioria dos anunciados online não são bem estudados e a aplicação de versões sintéticas pode, inclusive, oferecer riscos à saúde. Além disso, definitivamente, eles não oferecem os “milagres” sugeridos pela internet, segundo especialistas.
Entenda o que são as substâncias apresentadas pela atriz e por que podem ser perigosas. Ver essa foto no Instagram O que é a retatrutida?
A retatrutida é uma molécula experimental que faz parte da nova geração dos medicamentos injetáveis que imitam a ação de hormônios com funções voltadas à saciedade e controle da glicose, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras“. Essa classe engloba medicações como a semaglutida, princípio ativo do Ozempic, e a tirzepatida, do Mounjaro, e têm revolucionado o tratamento para obesidade e diabetes. Em estudos, a retatrutida já demonstrou ser capaz de promover uma perda de até 28,5% do peso corporal. Leia também: Daveigh Chase ganha destaque após novo desdobramento em daveigh chase: entenda
Para comparar: o Mounjaro pode chegar a, no máximo, cerca de 22,5%. O segredo é que, enquanto outras medicações do tipo atuam em um (caso do Ozempic) ou dois hormônios (como o Mounjaro), a retatrutida é um triplo agonista, ou seja, age reproduzindo a ação de três deles: o GLP-1, o GIP e o glucagon. Essa combinação reduz ainda mais a fome, melhora o controle da glicose e eleva o gasto calórico.
Diante desse potencial e, consequentemente, alta expectativa, o medicamento, que ainda está em fase de estudos, já é alvo de falsificações. Só no ano passado, uma operação da Receita Federal apreendeu dezenas de unidades de um produto que dizia conter retatrutida, enquanto, em maio, uma empresa paraguaia chegou a fazer um evento para anunciar a sua futura cópia da substância, que já tem nome e até embalagem prontos. A Anvisa também já protagonizou ações contra a venda de falsas retatrutidas nas redes sociais.
“ Por ser ainda experimental, sua produção e comercialização é irregular, ilegal e não tem dados de 100% de segurança“, explicou à VEJA SAÚDE o médico Marcio Mancini, chefe do Grupo de Obesidade do Hospital da Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP). A substância, que pertence à farmacêutica norte-americana Eli Lilly, ainda não saiu dos laboratórios, é protegida por patente e não foi aprovada por nenhuma agência reguladora no mundo, nem mesmo nos Estados Unidos (onde Susana aparece fazendo a aplicação).
O medicamento está na fase 3 dos estudos, a última necessária antes de uma possível aprovação pelas agências de vigilância sanitária, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no Brasil, a Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, ou mesmo a Dirección Nacional de Vigilancia Sanitaria (Dinavisa), do Paraguai. Os principais resultados da fase 3 foram divulgados em março e é esperado que sejam realizados mais sete ensaios clínicos dentro desta etapa. Somente ao fim das análises será possível confirmar completamente a eficácia e segurança do medicamento.
Segundo a Lilly, mais resultados devem ser divulgados ao longo de 2027. A empresa alerta que a substância ainda não foi analisada ou aprovada por nenhuma agência reguladora e que ninguém deve considerar o uso de qualquer substância que alegue ser retatrutida fora de um ensaio clínico patrocinado pela farmacêutica. “Ninguém pode vendê-lo legalmente para uso humano, portanto, qualquer atividade promocional ou de marketing relativa a um composto experimental não aprovado— mesmo que apresentada como preparação para um lançamento futuro— não está de acordo com os padrões de responsabilidade da indústria“, destacou, em nota. Mais de saude
E o ‘klow’? O tal “Klow”– ora chamado de “Glow”– é apresentado como uma mistura injetável composta pelo peptídeo GHK-Cu, o antioxidante glutationa e vitamina C.
Em algumas publicações, “Klow” e “Glow” são colocados como fármacos diferentes, sendo o primeiro composto por KPV, um tripeptídeo formado por três aminoácidos (Lisina, Prolina e Valina). A mistura, segundo quem a vende, teria objetivo de melhorar a pele, reduzir inflamação, combater envelhecimento e até melhorar a saúde intestinal. Essas composições, porém, não têm aprovação da FDA, agência reguladora dos EUA, nem da Anvisa, no Brasil.
Além disso, não existem estudos clínicos randomizados— o padrão-ouro da pesquisa para aprovação de medicamentos —, que tenham avaliado a segurança e eficácia dessa formulação injetável combinada. Aliás, o GHK-Cu injetável não possui aprovação da FDA para uso em humanos, embora a substância esteja sendo pesquisada em estudos clínicos. “ Leia também: Saúde: Panorama da Semana com Novidades e Alertas Médicos
Medicamentos injetáveis manipulados contendo GHK-Cu podem apresentar risco de imunogenicidade devido ao potencial de agregação e impurezas relacionadas a peptídeos”, diz a agência, em alerta publicado em abril. Já em relação ao KPV, a agência diz carecer de informações importantes sobre quaisquer problemas de segurança relacionados, incluindo se ele causaria danos se administrado em humanos. Por isso, o produto também está incluído na lista da FDA de substâncias que não devem ser utilizadas em farmácias de manipulação.
A glutationa, por sua vez, está disponível como solução inalatória aprovada pela FDA para profilaxia da pneumonia causada pelo fungo Pneumocystis jirovecii, mas não para uso cosmético. Brechas legais, porém, permitem que farmácias de manipulação consigam produzir esse tipo de produto, que hoje é comercializado tanto nos Estados Unidos como no Brasil. Ainda, como destacado pelo médico do esporte Rafael Rivas Pasco, via Brazil Health, apesar do entusiasmo relacionado às pesquisas com esse tipo de molécula, peptídeos não são suplementos comuns.
“ São terapias avançadas que exigem critério, protocolos bem definidos e acompanhamento especializado. A dose errada, o peptídeo inadequado ou o uso sem supervisão podem gerar riscos, perda de eficácia ou interações indesejadas”, apontou.
Além disso, o médico reforça que nem todos os peptídeos estudados estão aprovados para uso clínico amplo. “ Alguns ainda estão em fase de pesquisa; outros dependem de formulações específicas e monitoramento rigoroso.
A individualização é indispensável: o mesmo protocolo não serve para todos“, destacou. A reportagem entrou em contato com a assessoria de Susana Werner e com a Anvisa e aguarda retorno. O conteúdo será atualizado assim que houver posicionamentos.
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