Crise climática, guerras, genocídios, aumento vertiginoso do ódio contra mulheres, potencial colapso da cadeia energética global, diminuição do poder de compra, pandemia de ansiedade e depressão entre jovens. Nada disso parece tornar legítimo o desejo de uma mulher de se abster do papel de responsável pela perpetuação da raça humana. Não: para o governo russo, mulheres que não desejam ter filhos só podem estar com algum problema mental.
A solução, portanto, é simples: vamos tratar a cabeça dessa mulherada histérica. É isso que diz uma nova diretriz divulgada pelo Ministério da Saúde da Rússia, com o objetivo de combater a grave crise demográfica que o país enfrenta há décadas. Segundo a diretriz, a partir de agora, médicos russos deverão perguntar a suas pacientes quantos filhos elas desejam ter.
Se a resposta for zero, elas deverão ser encaminhadas para uma consulta psicológica, "a fim de que seja formada uma atitude positiva em relação à maternidade". Medidas de aumento da natalidade não são novidade na Rússia. Desde que assumiu o poder há 25 anos, Vladimir Putin colocou o assunto como uma das prioridades de seu governo e aprovou medidas de endurecimento das leis de aborto, proibição do que chamou de "propaganda anti-filhos Leia também: Musical que adapta o filme 'Flashdance' estreia em São Paulo; veja agenda de teatro

" e aumento de benefícios econômicos para famílias numerosas. Mesmo assim, a taxa de natalidade da Rússia continua no patamar mais baixo em 200 anos, em torno de 1,4 filho por mulher, bem longe dos 2,1 que especialistas recomendam para manter a população estável. O declínio da taxa de natalidade não é um fenômeno particular da Rússia —pelo contrário.
Mais de ⅔ dos países do mundo apresentam taxas inferiores à recomendada para manutenção populacional. Entre os países com as menores taxas de natalidade estão aqueles mais desenvolvidos, cuja população — especialmente as mulheres— é mais escolarizada e tem mais acesso à informação. Por que será?

Olhando para o caso específico da Rússia, a resposta parece estar menos na psicologia das mulheres e mais na estrutura política e social que as rodeia. No âmbito profissional, trata-se de um país em que mulheres ainda ganham menos, ao passo que, em casa, ainda são responsáveis pela maior parte dos afazeres domésticos. Trata-se de um país em que direitos individuais são restritos, enquanto deveres cívicos podem cobrar um ágio macabro. Mais de entretenimento
Afinal, não esqueçamos: a Rússia, cujo serviço militar é obrigatório, vem travando, ao longo dos últimos quatro anos, uma guerra que já matou quase 200 mil de seus próprios cidadãos. A verdade é que, em quase todo lugar, ter filhos demanda demais de uma mulher. Digo isso do alto do meu lugar de fala como mãe de duas crianças. Leia também: ESPN promete 22 horas de cobertura diária da Libertadores e da Copa Sul-Americana
Uma mãe muito privilegiada, diga-se de passagem. Mesmo assim, sei bem o custo alto que a maternidade pode cobrar da nossa carreira, dos nossos relacionamentos (românticos ou não), da nossa saúde financeira, física e mental. Por outro lado, estudos apontam que mulheres sem filhos tendem a ser mais saudáveis e satisfeitas.
Um pesquisador da London School of Economics chegou a afirmar que mulheres solteiras e sem filhos seriam o grupo mais feliz da população. Eu amo ser mãe e não trocaria essa experiência por nada. Mas confesso que entendo genuinamente as mulheres que decidem não ter filhos.
Para ser bem sincera, ao ler a nova diretriz do governo russo, fico na dúvida se a consulta psicológica não seria mais recomendada para aquelas mulheres que olham ao redor e, diante do mundo que se apresenta, decidem procriar mesmo assim. Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.