Autores de sucessos consagrados em trilhas sonoras, festivais e estações de rádio na década de 1970, tais como "Desacato" e " Você Abusou", Antonio Carlos e Jocafi se juntam aos músicos e produtores Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad para apresentar a um público novo faixas inéditas em um álbum que celebra a inventividade da dupla soteropolitana. Em colaboração com o selo Jazz Is Dead, o disco revela nove composições criativas que remetem à origem baiana da dupla, em linguagem musical analógica de afro-soul.
As músicas foram gravadas em 2022 durante um período de dez dias na Califórnia, quando também fizeram sua estreia ao vivo nos Estados Unidos. Diferente do processo de produção habitual de Antonio Carlos e Jocafi, que compõem melodia e letras de sua discografia, o novo álbum traz direção instrumental dos produtores. Nos últimos anos, Adrian e Ali lançaram projetos ao lado de figuras como Marcos Valle e Carlos Dafé, tendo como ponto de partida sonoridades funk, soul e jazz.
Antonio Carlos e Jocafi nunca largaram o violão. Pelo contrário. " Nós nascemos para a música —mesmo quando ela não dava dinheiro", diz Jocafi, aos 81, o mais velho da dupla.
O momento atual, segundo eles, deve muito a um dos responsáveis por esse "renascimento": Russo Passapusso, do BaianaSystem. " Ele foi fundamental para a nossa volta por cima, para mostrar um lado nosso que quase não tinha sido ouvido.
Nosso trabalho ficou meio escondido", afirma Antonio Carlos, aos 80 anos. Próxima de Russo Passapusso desde 2019, a dupla de Salvador colaborou em cinco faixas do BaianaSystem –incluindo o hit "Miçanga"– e se uniu ao artista de Feira de Santana para o álbum " Alto da Maravilha", de 2022.
Desde então, circularam por festivais e grandes palcos pelo Brasil, e ganharam indicação ao Grammy Latino pela participação no álbum " O Futuro Não Demora

", do Baiana. O novo disco também teve um toque do grupo; foi construído a partir da conexão da dupla de produtores americanos do selo com Roberto Barreto, integrante fundador do BaianaSystem. Sobre a máxima de ter feito parte da "reinvenção" da carreira da dupla, Russo Passapusso opina. Leia também: Disputa por 'Guernica', de Picasso, opõe País Basco e Madri em debate político
" Não acho que reinventamos a carreira deles! Penso que é mais sobre a sorte que temos de viver no mesmo tempo de Antonio Carlos e Jocafi e suas obras-primas", diz.
" Eles não são o passado, eles são justamente o futuro que não esqueceremos nunca. Isso é o legado deles, mas está acontecendo agora.
" No novo álbum, a herança "mais oculta" de batuques das religiões de matriz africana é despertada entre " Canarinho da Alemanha" –cantiga tradicional da Capoeira Angola–, "
Tá com Medo Por Quê" e "Rala-Bucho", faixas com destaque nas percussões. "

Sinto que com o Russo, pude voltar para esse campo que eu e Jocafi conhecíamos. Jocafi conhece muito de samba de roda, e me influenciou nessa área, e eu sabia muito da música negra religiosa", diz Antonio Carlos. Além das mais percussivas, canções doces do repertório como "Menina do Tororó" se juntam à irreverência de " Mais de entretenimento
Quixódo " e à leveza de "Bacaxá" .
Três temas de maior foco instrumental completam o álbum, dois deles com a participação de Loren Oden, que já colaborou no último trabalho de Céu, "Novela", e soma com vocais nos projetos do Jazz Is Dead com Marcos Valle e João Donato. As gravações em banda também contaram com os brasileiros Gibi dos Santos e Marcelo Bucater.
" Esse disco representa o passado que é visitado hoje com todo carinho pelos jovens", diz Jocafi, fazendo a ponte entre a sonoridade da década de 1960 e a atual. " Leia também: Public Image Ltd volta ao país resgatando clássico que não toca desde 1989
E recorda a importância que tem aquele primeiro trabalho que a gente fez –que a crítica não acordou porque estava ligada em só um samba", afirma. " Mas até se tivessem ouvido tudo, diriam o que sempre disseram: ‘
A gente não entende isso que eles estão fazendo’. Essa música ali, já era o funk", afirma Jocafi. A chance de dar seguimento ao legado de suas influências da musicalidade baiana para os jovens, no entanto, traz a percepção de que o momento não parece se traduzir entre os mais velhos.
Recordando a passagem da dupla em 2024 pelo Altas Horas, da TV Globo, Antonio conta: " Perguntaram para mim: ‘
Onde é que vocês andam? ’ Pô, todo dia eu tô nas plataformas!"
Com mais de cinco décadas de carreira, atravessando altos e baixos, a dupla segue dedicada à música — agora impulsionada por novas gerações que redescobrem artistas fundamentais para a cultura do país. Esse movimento ajuda a consolidar a permanência de uma sonoridade que, nos anos 1970, ainda não havia conquistado plenamente o Brasil, mas que se revelou maior do que seu próprio tempo. "
A sensação de ver vocês, meus netos, cantando nossas músicas… isso não tem preço. Tenho o maior orgulho de poder terminar minha vida com o apoio de vocês", diz Antonio Carlos. Comentários
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