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- Author, Luiz Antônio Araujo
- Role, De Porto Alegre para a BBC News Brasil
- Published Há 2 horas
- Tempo de leitura: 6 min
"Não é preciso recordar os graves erros do passado, deixando no sul do Brasil massas compactas de estrangeiros, entregues a si mesmos, durante gerações, com tendências diferentes das da nacionalidade brasileira, criando escolas que lhes não dávamos e mantendo o mesmo espírito de seus países de origem, através de seu idioma, da religião, das sociedades, dos jornais, dos livros, dos filmes e do rádio."
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Assim o então diretor do Departamento Nacional de Povoamento, Dulphe Pinheiro Machado, introduz o relato de uma viagem de inspeção feita no início de 1940 ao sul do país.
O documento foi localizado pela BBC News Brasil no Fundo do Conselho de Segurança Nacional do Estado Novo (1937-1945), no Arquivo Nacional.
O destinatário original do relatório era o ministro do Trabalho, Indústria e Comércio, Waldemar Falcão. Leia também: O quanto da nossa personalidade é definida no momento em que nascemos?
No dia 19 de julho daquele ano, porém, cópias do documento foram distribuídas pelo secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional, general-de-divisão Francisco José Pinto, às pastas da Justiça, Educação e Viação e Obras Públicas e ao Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).
O relatório catapultou a carreira de Pinheiro Machado, um engenheiro paulista de 45 anos, no regime varguista.
Na época em que o texto foi produzido, o Brasil estava próximo de completar três anos da ditadura do Estado Novo, instaurada por meio de um autogolpe do presidente Getúlio Vargas em .
A pretexto de prevenir uma insurreição comunista forjada, o regime estabelecera uma Constituição autoritária, fechara o Congresso e os partidos e submetera a vida pública a arbítrio e censura rigorosos.

Crédito, Arquivo Nacional Mais de mundo
Por meio de sucessivos decretos, em 1938, Vargas edificara a chamada política de nacionalização, inspirada em regimes autoritários de direita europeus como o nazismo alemão, o fascismo italiano e o nacionalismo polonês.
Com essas medidas, o Estado Novo pretendia promover a restrição severa do uso de línguas e culturas estrangeiras, o desincentivo à entrada de novos migrantes e a repressão a qualquer atividade que pudesse ser qualificada como "antinacional".
O relatório de Pinheiro Machado indica, porém, que, quase dois anos depois de entrar em vigor, a política de nacionalização ainda não produzira os efeitos desejados. Leia também: Ebola: o que saber sobre surto na República Democrática do Congo
'Unidade de raça, língua e pensamento nacional'
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A cruzada nacionalizadora coadunava-se com o pensamento do ditador.
"Um país não é apenas um conglomerado de indivíduos dentro de um trecho de território, mas, principalmente, a unidade de raça, a unidade de língua, a unidade do pensamento nacional", dizia Vargas, citado pelo então tenente do Exército Hugo Bethlem no livro Vale do Itajaí: jornadas de civismo (José Olympio, 1939).
O objetivo era, na linguagem do regime, eliminar "quistos" representados pela concentração de "alienígenas" no tecido social brasileiro.

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