Você pode não gostar da banda Raimundos. A curta duração da carreira da banda formada por Digão, Fred, Rodolfo e Canisso, que ficou espremida entre a geração dos anos 1980 e o fim das grandes gravadoras nos anos 2000, ajuda a contar uma história relativamente comum no mundo do rock. Drogas, mulheres, mais drogas, ego avantajado, drogas de novo, falta de terapia e esgotamento físico e mental na roda viva da indústria da música —a história dos Raimundos parece a de muitas outras bandas. Leia também: U2 lança o EP surpresa 'Easter Lily', com título em homenagem a Patti Smith
Detalhes do Caso

Mas é muito provável que irá se encantar com "Andar na Pedra: A História dos Raimundos", que estreou neste mês no Globoplay. E se para o fã de Raimundos o fato de o vocalista Rodolfo ter se tornado evangélico foi o fim do mundo, para o hábil diretor esse foi um delicioso plot twist. Em diversas colunas aqui nesta Folha fiz análises não muito abonadoras sobre séries musicais produzidas pelo Globoplay.

Entra aí a capacidade de um grande diretor como Ferro, já bastante experiente em produções visuais musicais. Suas letras machistas, escrachadas e debochadas, tematizavam puteiros e drogas, mulheres em TPM e nordestinos estereotipados —eram tudo que o politicamente correto de hoje rejeita. Talvez você sequer saiba que os rapazes de Brasília fizeram uma das mais interessantes fusões musicais da década de 1990 ao misturar forró e hardcore.
Sejamos diretos, "Andar na Pedra: A História dos Raimundos" é fortíssimo concorrente a melhor produção audiovisual sobre música já feita no Brasil. Nenhuma dessas ponderações tira o brilho de "Andar na Pedra". A história da série é um conto sobre amizade e ódio, amor e ranço, picuinhas e grandiosidades, mesquinharias e revelações. Leia também: Trump pode perder para um camelo na disputa para entrar no reino dos céus Mais de entretenimento
Não é o que acontece com a série dirigida corajosamente por Daniel Ferro. Por tudo isso a série talvez merecesse um título melhor. E as famílias de Digão, Fred e Canisso mereciam aparecer mais (ou simplesmente aparecer) com o mesmo peso da família de Rodolfo.