← Economia
Economia

Quem vai cuidar de você? Brasil envelhece sem se preparar para conta

Ana Paula Branco São Paulo Até outro dia, envelhecer foi tratado como uma etapa da vida resolvida dentro da família

Quem vai cuidar de você? Brasil envelhece sem se preparar para conta da
Ana Paula Branco
São Paulo

Até outro dia, envelhecer foi tratado como uma etapa da vida resolvida dentro da família. Filhos cuidavam dos pais, irmãos dividiam tarefas e, quando a dependência aparecia, alguém —quase sempre uma mulher— reorganizava a própria rotina para assumir o cuidado. Esse modelo começa a perder sustentação.

A geração que hoje está na faixa dos 45 anos ou mais vai chegar à velhice em um Brasil com mais idosos, menos filhos e uma estrutura familiar menor. Viver mais deixou de ser apenas uma conquista da medicina e passou a colocar uma nova pergunta no centro do planejamento financeiro: quem vai pagar e quem vai cuidar quando a independência para os afazeres do dia a dia diminuir?

Leia no AINotícia: Economia e Política: Decisões do STF, Crises Financeiras e Cenário Internacional

A conta do cuidado é uma despesa que ainda quase não aparece nos planos de aposentadoria, mas pode consumir uma parcela significativa da renda acumulada ao longo da vida.

Mão de idoso com manchas e rugas segurando delicadamente a mão menor de uma criança. Fundo desfocado com textura escura.
Cuidador auxilia idoso a levantar - Divulgação Cuidare Brasil

Até 2050, o número de idosos que vão precisar de cuidados de longa duração deve saltar de 5,1 milhões para 17 milhões, segundo projeções do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Mantido o modelo atual, cerca de 1 milhão poderá ficar sem assistência, enquanto aproximadamente 2,3 milhões dependerão de cuidadores remunerados.

Para Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-Brasil), o país vive uma transformação demográfica sem precedentes. "O único grupo da população que continua crescendo desde os anos 2000 é o de pessoas com mais de 60 anos, sobretudo acima de 80", afirma. Leia também: Reprovação a privatização de metrô e trem cresce em São Paulo, diz Datafolha

"O Brasil está envelhecendo antes de ter enriquecido", diz Kalache.

O impacto já aparece no orçamento das famílias. Quando um idoso perde a capacidade de realizar sozinho atividades como tomar banho, se alimentar, administrar medicamentos ou circular pela casa, surge uma estrutura de gastos que pode durar anos.

Diferentemente de uma internação hospitalar, o cuidado de longa duração não tem data prevista para acabar e pode envolver cuidador, fisioterapia, fonoaudiologia, medicamentos, suplementos, fraldas, adaptações na residência, além do acompanhamento médico contínuo.

Em São Paulo, uma instituição de longa permanência para idosos (ILPI) custa a partir de cerca de R$ 4.000 por mês e pode superar R$ 18 mil nas unidades de alto padrão. Para quem prefere manter o idoso em casa, o custo também pesa. Em média, cuidadores autônomos em jornadas de 12 horas cobram entre R$ 250 e R$ 350 por plantão. Mensalistas podem receber de R$ 2.800 a R$ 4.500, dependendo da carga horária e da complexidade do atendimento.

"Viver muito custa. E o país não vai dar conta", diz Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Ipea especializada em envelhecimento. Mais de economia

Segundo ela, o problema é sistêmico e não se diferencia muito de outros países, exceto pelo envelhecimento brasileiro ter ritmo muito mais acelerado. A França, por exemplo, levou 145 anos para dobrar a proporção de idosos na população (de 10% para 20%), um processo que envolveu cerca de oito gerações. O Brasil está realizando essa mesma transição em apenas 20 anos (entre 2011 e 2030).

"O Brasil avançou na garantia de renda para quem não pode trabalhar, mas deixou para a família a responsabilidade pelo cuidado", afirma a pesquisadora.

Hoje, cerca de 3,2 milhões de idosos são cuidados por parentes, enquanto aproximadamente 150 mil vivem em instituições de longa permanência. O poder público subsidia vagas para cerca de 80 mil pessoas. Leia também: Calendário econômico da semana: inflação e Livro Bege nos EUA são foco

A demanda por cuidadores já aparece em dados oficiais. Segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), o número de cuidadores cresceu cerca de 15% entre 2019 e 2023, chegando a aproximadamente 840 mil profissionais.

Os dados demográficos mostram que embora tenhamos ganho anos de expectativa de vida na última década, ainda não conseguimos reduzir os anos vividos com incapacidade. Se não acelerarmos, seremos engolidos pelo 'tsunami prateado'.

Para reduzir o impacto financeiro e adiar a dependência, especialistas defendem que o planejamento comece décadas antes da velhice. "Quando se fala em planejamento financeiro, o foco costuma ser a renda da aposentadoria. O custo dos cuidados quase nunca entra na conta", afirma Carlos Castro, planejador financeiro CFP pela Planejar.

Segundo ele, muitas famílias só percebem a dimensão do problema quando a dependência chega. É nesse momento que descobrem que precisarão financiar profissionais e serviços que, em geral, não fazem parte da cobertura dos planos de saúde.

O envelhecimento da carteira de beneficiários também preocupa o setor. O número de usuários de planos de saúde com mais de 60 anos cresceu 22,7% entre 2019 e 2025, segundo a Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde). A expectativa é de aumento da procura por acompanhamento contínuo, reabilitação e serviços de apoio ao idoso. Mas cuidadores particulares e instituições de longa permanência continuam sendo, em regra, uma responsabilidade das famílias.


Tópicos relacionados

  • economia
  • Envelhecimento
  • Folha Longevidade
  • Idoso
  • mulher
  • saúde
  • Envie sua notícia
  • Erramos?
  • Ombudsman
Reprovação a privatização de metrô e trem cresce em São Paulo, diz Datafolha
Economia

Reprovação a privatização de metrô e trem cresce em São Paulo, diz Datafolha

Ler matéria →

Leia também