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Preservação deve deixar de ser coadjuvante no cinema brasileiro

Naief Haddad Rio de Janeiro Quando começou a filmar "A Hora da Estrela", em 1984, a cineasta Suzana Amaral já tinha uma história e tanto

Preservação deve deixar de ser coadjuvante no cinema brasileiro
Naief Haddad
Rio de Janeiro

Quando começou a filmar "A Hora da Estrela", em 1984, a cineasta Suzana Amaral já tinha uma história e tanto.

Com pouco mais de 50 anos, ela havia dado à luz nove vezes, cursado cinema na Universidade de São Paulo, feito especialização na Universidade de Nova York e realizado documentários para a TV Cultura, entre muitas outras coisas.

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Em meio aos planos para rodar seu primeiro longa-metragem, baseado no romance de Clarice Lispector, Amaral assistiu a uma peça chamada "Beiço de Estrada". Apresentado por um grupo de Cajazeiras, cidade do sertão da Paraíba, o espetáculo passava por São Paulo para uma curta temporada.

A cineasta viu a peça uma, duas, três vezes. Ficou fascinada com o elenco e, já àquela altura, sondou a jovem atriz Marcélia Cartaxo para interpretar Macabéa, a protagonista de "A Hora da Estrela", filme que volta agora aos cinemas, em cópia restaurada.

"Na época, eram comuns os questionamentos em relação aos atores que vinham do teatro para fazer cinema porque tinham gestos largos, eram exagerados. A Suzana ficou impressionada com meu trabalho contido no palco", lembra Cartaxo. Leia também: Xuxa fará mais um show da turnê 'O Último Voo da Nave' em São Paulo

A cineasta Suzana Amaral observa película de filme em seu apartamento em São Paulo em 2009, quando lançou "Hotel Atlântico", seu terceiro longa-metragem de ficção -

Naquele momento, no entanto, não havia orçamento suficiente para produzir o filme. A atriz voltou para a Paraíba e, nos oito meses seguintes, recebeu oito cartas de Amaral em que a diretora falava sobre a personagem de Lispector.

Amaral, que morreu em 2020, acumulava as mais variadas experiências na vida e na arte; Cartaxo, por outro lado, era uma atriz de 20 e poucos anos, com escassa vivência fora de Cajazeiras. Esse contraste agradava à diretora paulistana, que buscava justamente a imaturidade de alguém que nunca tinha feito cinema.

Elas conversaram muito nos meses de pré-produção, mas as orientações foram mínimas quando as filmagens começaram. "A Suzana não queria que eu soubesse como me comportar diante das câmeras. Eu tinha dúvidas, e ninguém me dizia para olhar para um lado ou para outro. Ela pediu que eu atuasse como fazia no teatro", conta a atriz. "Só aprendi a lidar com a câmera anos depois".

Deu certo o método de atuação, ou justamente a aversão a métodos consagrados. A datilógrafa nordestina Macabéa –"a única coisa que queria era viver. Não sabia para quê, não se indagava"- ganhou as feições e os movimentos de Cartaxo.

O primeiro longa-metragem de Suzana Amaral conquistou dez prêmios no Festival de Brasília de 1985, entre os quais de melhor filme e atriz. Em fevereiro do ano seguinte, o Festival de Berlim deu a Cartaxo o Urso de Prata de melhor atriz. Mais de entretenimento

"‘A Hora da Estrela’ foi um acontecimento gigantesco na minha vida. Definiu minha carreira, meus sonhos", diz a atriz. Mas o cinema e a TV nem de longe sentiram o mesmo impacto: nos anos seguintes, Cartaxo recebeu uma sequência de convites para viver empregadas domésticas com participações muito secundárias.

Nada contra interpretar domésticas, ela ressalta. O problema é ser chamada só para esse tipo de papel, com personagens praticamente sem história.

Uma nova reviravolta na carreira dela se deu com "Madame Satã", filme de 2002 dirigido por Karim Aïnouz. Fez o papel da prostituta Laurita e, mais uma vez, acumulou uma penca de prêmios. Leia também: Ancine vê irregularidade em filme sobre Bolsonaro, com multa de até R$ 100 mil

Desde então, tem sido convidada para papéis mais elaborados no cinema. Na TV, atuou na primeira temporada da série "Cangaço Novo", da Amazon Prime Video, e voltará para a segunda leva de episódios.

Como Cartaxo, "A Hora da Estrela" passou um tempo longo quase esquecido, praticamente restrito a discussões acadêmicas.

Agora, porém, o filme ganha um sopro de vida, para citar outro romance de Lispector. Depois de um processo de restauração digital, que se estendeu de dezembro de 2023 a maio deste ano, "A Hora da Estrela" voltou a ocupar os cinemas nesta quinta.

O longa de Amaral integra o projeto Sessão Vitrine Petrobras, que tem se notabilizado por levar às salas destaques da produção brasileira recente. Nesta edição do projeto, além desses novos longas, dois filmes de décadas passadas, ambos dirigidos por mulheres, foram recuperados para exibição nos cinemas.

"Durval Discos", filme de 2002 de Anna Muylaert, foi digitalizado e relançado em novembro passado. "A Hora da Estrela" passou por uma restauração digital, um processo que, grosso modo, envolve mais pesquisas e cuidados nos ajustes.

Débora Butruce, coordenadora técnica da restauração digital de "A Hora da Estrela", faz análise do filme em laboratório no Rio de Janeiro - Divulgação

A Hora da Estrela

  • Quando Em cartaz nos cinemas
  • Classificação 12 anos
  • Elenco Marcélia Cartaxo, José Dumont, Fernanda Montenegro
  • Produção Brasil, 1985
  • Direção Suzana Amaral

Veja as principais etapas da restauração digital de "A Hora da Estrela"

Rolos de filme da Cinemateca Brasileira emprestados para a restauração digital de "A Hora da Estrela" - Divulgação

Veja cena de 'A Hora da Estrela' antes e depois da correção de cor

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