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Porque os populistas odeiam jornalistas?

Mafalda Anjos Entre estas duas carteiras de jornalista vão 28 anos e há um mundo de diferenças

Porque os populistas odeiam jornalistas?
Mafalda Anjos

Entre estas duas carteiras de jornalista vão 28 anos e há um mundo de diferenças. Quando comecei a trabalhar, em 1998, os jornalistas eram vistos como os guardiões da democracia e da verdade e desfrutavam de uma grande credibilidade junto do público.

Hoje, muito mudou. A imprensa está debaixo de fogo de todos os lados, e a sua imagem sofreu uma grande erosão, causada por erros próprios, certamente, mas sobretudo pelo efeito da digitalização e das redes sociais, pela polarização política e pelos ataques dos populistas, que veem os jornalistas como "inimigos do povo".

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Há dias, a organização Repórteres Sem Fronteiras anunciou que a liberdade de imprensa global está em deterioração acentuada - no nível mais baixo dos últimos 25 anos. Portugal está em 10º lugar, o Brasil subiu na classificação para 52º, os Estados Unidos estão na posição 64º. Leia também: Malafaia diz ser alvo de perseguição de Moraes, do STF, em culto ao lado de Flávio Bolsonaro no Rio

O Presidente dos Estados Unidos popularizou a expressão fake news, apelida a imprensa de referência de "desonesta, corrupta ou falida" e faz acusações pessoais permanentes a repórteres.

Homem de perfil com cabelo claro penteado para trás, vestindo terno azul escuro, camisa branca e gravata amarela, com broche da bandeira dos EUA na lapela, em ambiente externo com veículos desfocados ao fundo.
Presidente Donald Trump fala com jornalistas antes de embarcar no Air Force One no Aeroporto Internacional de Palm Beach, em 2 de maio de 2026, em Palm Beach, Flórida. Roberto Schmidt/Getty Images/AFP - ROBERTO SCHMIDT/Getty Images via AFP

Na semana passada, o governo de Javier Milei revogou o acesso de todos os jornalistas credenciados à Casa Rosada, uma medida inédita na democracia argentina, que põe em causa o acesso à informação. No Brasil, o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro também segue o padrão do pai de hostilidade à imprensa, acusando-a de "mentiras" e "viés ideológico". Em Portugal, a ultra-direita difundiu a expressão "jornalixo".

Este ataque concertado e global faz parte, obviamente, de uma estratégia política deliberada. Com a internet, os políticos perceberam que podem atalhar caminho, ultrapassar estes guardiões e falar diretamente com os eleitores, sem ter de passar pelo filtro jornalístico. Mais de politica

É que o papel dos órgãos de imprensa é, por definição, incômodo para os poderosos, todos eles: são os jornalistas que escrutinam a vida pública, que colocam as perguntas difíceis e que apontam as incongruências e falsidades.

Reparem: é claro que os jornalistas também cometem erros, mas procuram obedecer a um código deontológico que os compromete com princípios éticos e com os fatos. Desacreditar e descredibilizar a imprensa é uma das primeiras formas de minar por dentro as democracias. Leia também: Panorama Político da Semana: Desafios Demográficos e Relações Externas

Mas, como um familiar de um paciente com Alzheimer continua a cuidar dele mesmo sabendo que este não é reconhecido, cabe aos jornalistas continuar a fazer o seu trabalho, apesar do reconhecimento que recebem por ele ser, nesta altura, desproporcionalmente menor do que a importância que têm para a defesa do bem comum.

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