O ministro Flávio Dino teve um estalo. Enquanto a sociedade brasileira, apreensiva diante da degradação do STF, reivindica mudança de conduta e propõe código de ética como início de um longo caminho, Dino desviou do tema e defendeu um "novo ciclo de mudanças constitucionais". Dos ministros mais inteligentes na história recente do tribunal, não foi gesto sóbrio.
Seus adjetivos enviaram mensagem pouco simpática à reivindicação pública por ética judicial. Disse que reforma deve ser "verdadeira", resolver "problemas concretos"; ter "consistência técnica", inspirada pelo "interesse público"; que "efetivamente melhore" o sistema de Justiça com medidas "sérias e profundas".
Leia no AINotícia: STF recebe denúncia contra Silas Malafaia a comandante do Exército
Rejeitou "mudanças superficiais", "slogans fáceis", ou o "caráter retaliatório". Pediu reforma por meio do "diálogo", "pois só o AI-5 da ditadura conseguiu impor, de fora para dentro, mudanças no Judiciário". Para saber o que ele pensa da luta por um código de ética, objeto oculto do texto, basta inverter os sinais. Leia também: Podcast analisa rejeição de Messias no Senado e os recados para Lula e o STF
Permitiu-se até o paralelo com a imposição do AI-5. Dino apresentou números novos sobre velhos problemas, como os 75 milhões de processos pendentes, 5 milhões iniciados em 2026. E encerrou com uma lista de 15 ideias: repensar competências e requisitos para acesso a tribunais superiores, precatórios, instâncias especializadas, tipos penais, sessões virtuais, inteligência artificial etc.
Não era, a rigor, proposta de reforma. A chuva de ideias de algibeira não teve a "consistência técnica" e a "profundidade" que pediu da sociedade. Mas foi boa a lista, tão boa quanto incontroversa nesse grau de generalidade.
Reformas que o Brasil tenta fazer desde a Constituição de 1988, com sucesso limitado. No lugar de medida realista e pragmática, para pelo menos começar a enfrentar um problema específico, ato que o próprio STF poderia aprovar sem maior trabalho, Dino optou por enumerar problemas que atormentam a ele e a todos nós, cuja mudança depende sobretudo do Congresso. Não foi a intenção do ministro, mas pareceu uma obra do ilusionismo diversionista de quem prefere que tudo permaneça como está.
Para afogar o checklist ético, sacou uma wishlist constitucional; no lugar de microrregulação ao alcance das mãos, no ritmo incremental possível, um alfabeto de macrointenções; em vez do remédio amargo da autocrítica, um entorpecente da utopia legislativa. Mais de politica
Enquanto um código de ética tenta atenuar uma goteira na sala, a wishlist quer o fim da chuva. Um código de ética é ponto de partida, não de chegada. Não resolve tudo, mas contribui para algo urgente. Leia também: Derrota de Messias no plenário do Senado sucedeu aprovação mais apertada da história na CCJ; veja placares
Estabelece um mapa, não garante o destino. Por um STF mais forte e menos suspeito; mais confiável e menos promíscuo; mais digno de respeito e menos sujeito ao escárnio; mais capaz de ser obedecido, menos aberto a mesas de negociação. Por um STF com mais autoridade para contrariar interesses das big techs, do gangsterismo, das forças de ruptura e dos bolsonarinhos em polvorosa.
Com autoridade para defender liberdades de vulneráveis, com senso de urgência e atenção ao sofrimento. Um tribunal menos infantil e birrento no diálogo público, mais maduro para a autocrítica. Um tribunal que entenda que bajulador não é amigo, apenas um parasita que paga viagens e charutos em troca de influência e honorários.
Comentários
Leia também no AINotícia
- Messias diz ser contra o aborto e que só pediu prisões no 8 de Janeiro por dever do cargoPolitica · 4h atrás
- PT vê indefinição em três estados para eleição de 2026Politica · 4h atrás
- Sabatina de Messias na CCJ tem temas sensíveis e próximos passos no SenadoPolitica · 7h atrás
- Genial/Quaest ganha destaque após novo desdobramento em o ex-prefeito de salvador acm neto (união brasil), com 41% das intenções de voto, e o governador jerônimo rodrigues (pt), com 38%, aparecemPolitica · 8h atrás
