← Mundo
Mundo

Por que a Guerra do Paraguai voltou ao centro de uma crise diplomática

Play audio, "Guerra do Paraguai, 160 anos: as descobertas que contradizem o que a escola ensinou sobre o conflito sangrento", Duration 16,08 16:08 Legenda do áudio

Por que a Guerra do Paraguai voltou ao centro de uma crise diplomática — e o
Play audio, "Guerra do Paraguai, 160 anos: as descobertas que contradizem o que a escola ensinou sobre o conflito sangrento", Duration 16,0816:08
Legenda do áudio, Francisco Solano López (1827-1870) foi o autor da declaração de guerra que tornaria o conflito entre os países sul-americanos inevitável
Article Information
    • Author, Edison Veiga
    • Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
  • Published Há 57 minutos
  • Tempo de leitura: 10 min

A Guerra do Paraguai, o maior e mais sangrento conflito armado da história da América Latina, voltou ao centro de uma disputa diplomática entre Brasil e Paraguai nesta semana.

A crise foi desencadeada após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmar, na última sexta-feira (24/7), que "um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil".

Leia no AINotícia: Japão: Shopping destruído danificado há 10 anos

A fala ocorreu durante um evento no interior de São Paulo, em que o presidente fala sobre a importância de investimentos na indústria de defesa brasileira.

"A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos", disse Lula.

Nesta quinta-feira (30/7), o governo do presidente Santiago Peña convocou o embaixador brasileiro em Assunção, José Antônio Marcondes de Carvalho, para prestar esclarecimentos sobre o episódio. Leia também: O boicote à Copa do Mundo anunciado pela Uefa contra plano da Fifa para 'vender

O Congresso paraguaio também aprovou manifestações de repúdio às declarações do presidente brasileiro.

A repercussão reacendeu um debate histórico que, mais de 160 anos após o fim da guerra, continua sensível no Paraguai e cercado de interpretações divergentes sobre as origens e a condução do conflito— muitas delas em desacordo com a versão que, por décadas, foi ensinada nas escolas.

Guerra de versões

A Guerra do Paraguai durou de dezembro de 1864 a março de 1870. De um lado estava a pequena República do Paraguai, com cerca de 400 mil habitantes. De outro, a Tríplice Aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai— juntos, somavam pouco mais de 11 milhões de habitantes. Mais de mundo

O resultado foi arrasador. Calcula-se que a população paraguaia tenha se reduzido para menos de 190 mil pessoas. "90% dos homens morreram", afirma o historiador Francisco Doratioto, professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB).

"Do sexo masculino, sobraram apenas idosos e crianças."

Mas ao longo de pelo menos duas décadas, a maior parte dos estudantes brasileiros aprendeu uma história errada sobre o conflito. Leia também: A relação entre o El Niño e a frente de rajada, fenômeno que causou ventos

A versão mais contada pelos professores de História era aquela popularizada pelos ideólogos de esquerda que faziam oposição ao regime militar que comandou o Brasil durante a ditadura, de 1964 a 1985.

Com foco em uma aversão ao imperialismo estrangeiro e qualquer interferência das grandes potências nos destinos sul-americanos, vendia-se a narrativa de que o conflito do século 19 havia sido causado, financiado e indiretamente capitaneado pela Grã-Bretanha.

Nessa história, o Paraguai ascendia como um país que caminhava para ser considerado desenvolvido, com industrialização, justiça social e uma produção de riquezas sem igual, de forma independente, configurando assim uma exceção naquele contexto de novos países americanos que estavam conseguindo autonomia frente aos colonizadores a preço de uma dependência econômica de nações ricas.

Vendo-se ameaçados por aquele paisinho que se tornaria um concorrente de sua influência, sobretudo no Brasil e na Argentina, os ingleses despejaram dinheiro e reforços bélicos. O resultado: um massacre que teria condenado ao Paraguai à pobreza e ao subdesenvolvimento. Fim do sonho sul-americano.

Doratioto, contudo, questiona essa versão. "Onde está qualquer documento que prove que foi a Inglaterra? Não existe um documento oficial, não existe nada que mostre que o governo inglês tinha interesse em fazer uma guerra na região", disse em entrevista concedida à BBC News Brasil em dezembro de 2024.

Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxaias (1803-1880), comandante das tropas brasileiras na Guerra do Paraguai e patrono do Exército brasileiro
Legenda da foto, Versão da história atribuiu ao Duque de Caxias, comandante das tropas brasileiras, atrocidades na guerra com o Paraguai
Ilustração mostra um acampamento de militares brasileiros durante a Guerra do Paraguai
Legenda da foto, Ilustração mostra um acampamento de militares brasileiros durante a Guerra do Paraguai
Foto antiga mostra o Exército brasileiro na Guerra do Paraguai
Legenda da foto, Foto antiga mostra o Exército brasileiro na Guerra do Paraguai

O investimento inglês

Violência militar

Cadáveres na Guerra do Paraguai
Legenda da foto, Brasil cometeu atrocidades na Guerra do Paraguai, mas elas também foram usadas para manchar a imagem do patrono do Exército, diz o historiador
O boicote à Copa do Mundo anunciado pela Uefa contra plano da Fifa para 'vender
Mundo

O boicote à Copa do Mundo anunciado pela Uefa contra plano da Fifa para 'vender

Ler matéria →

Leia também