Corredor morre após maratona SP City: o que pode causar morte súbita
Ler matéria →“ Podemos curar mais pessoas com câncer”, garante o oncologista mais procurado do país O médico Paulo Hoff faz um balanço dos maiores avanços e desafios contra o câncer e reflete sobre o preocupante aumento de casos na população mais jovem Ele é um homem dividido.
Aos 57 anos, o médico Paulo Hoff se divide entre a rede pública e a privada, entre o consultório, a sala de aula e a cadeira de gestor, ainda encontrando espaço na agenda para responder aos pacientes pelo celular e participar de pesquisas. Também se divide ao expor o cenário do câncer hoje: se por um lado existem vitórias a celebrar, por outro vislumbram-se obstáculos diante de uma doença (ou melhor, um conjunto de doenças) que mata cerca de 10 milhões de pessoas por ano no mundo.
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Professor da Faculdade de Medicina da USP, membro do conselho diretor do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e presidente da Oncologia D’Or, Hoff acumula experiências e conhecimentos suficientes para estabelecer um diagnóstico do estágio em que a humanidade se encontra na luta contra os tumores— e ocupar o posto de oncologista mais procurado do país. Ele nos recebeu pouco antes de embarcar para um dos principais eventos internacionais de sua especialidade médica. Confira a entrevista do especialistas para a VEJA SAÚDE:
Um estudo recente publicado na revista Nature aponta um crescimento de 79% nos casos de câncer em adultos jovens em relação a 30 anos atrás. O que está por trás disso? A incidência de câncer vem aumentando em praticamente todas as faixas etárias, mas esse crescimento tem chamado mais atenção em pessoas com menos de 50 anos.
Ainda assim, é crucial lembrar que o câncer continua sendo mais comum após os 60 anos e segue fortemente associado ao envelhecimento. O que mudou é que ser jovem parece ter um efeito menos protetor do que no passado. Ainda não sabemos exatamente por que isso está acontecendo, mas provavelmente não há uma causa única. Leia também: Fintechs caem em 'armadilha' dos EUA: Nubank está imune?
Trata-se de um conjunto de mudanças: dieta menos saudável, maior consumo de alimentos ultraprocessados, sedentarismo, obesidade e alterações na microbiota intestinal. + As pesquisas revelam um crescimento na incidência de ao menos 14 tipos de câncer na população mais jovem.
Há doenças mais preocupantes nesse contexto? Alguns desses tumores já são muito frequentes na população geral. O câncer de mama, depois do câncer de pele, é o mais comum entre as mulheres.
O câncer de intestino também está entre os mais incidentes, tanto em mulheres quanto em homens. Por isso, qualquer mudança epidemiológica envolvendo mama e intestino chama muita atenção, porque estamos falando de tumores que já têm alta incidência. Mas essa tendência de maior risco em pessoas jovens não se limita a esses dois tipos.
Ela vem sendo observada em vários outros tumores, o que reforça a ideia de uma mudança mais ampla no perfil dos pacientes. + Podemos dizer que nosso padrão alimentar está mais cancerígeno? O surgimento dos alimentos ultraprocessados trouxe desafios, embora tenha tido um papel relevante ao baratear o acesso a calorias em escala global.
Portanto, não se trata de algo exclusivamente negativo. Quando dizemos que uma situação está associada ao aumento do risco de câncer, é fundamental dimensionar esse impacto. Por exemplo: o tabagismo aumenta em múltiplas vezes o risco de câncer de pulmão. Mais de saude
Já no caso dos ultraprocessados, existe um aumento real de risco, mas esse efeito é significativamente menor do que o observado com o cigarro. Do ponto de vista prático, a principal medida é estimular uma alimentação mais saudável, rica em frutas, verduras e alimentos frescos. E investir em estratégias para reduzir o consumo e os riscos ligados aos ultraprocessados, uma vez que fazem parte expressiva da dieta dos brasileiros. +
O tabagismo voltou a crescer após anos de queda no número de fumantes no Brasil. Isso deve piorar o cenário? Chegamos a uma taxa de cerca de 12% de fumantes adultos, menor do que a observada em muitos países da Europa e nos Estados Unidos.
Nos últimos anos, porém, passamos a ver um aumento no uso de cigarros eletrônicos, especialmente entre jovens. Isso preocupa por vários motivos. Primeiro porque esses dispositivos já estão associados a problemas pulmonares agudos e crônicos. Leia também: Trump quer deslegitimar urnas; Brasil nega visto a 2 agentes dos EUA
Segundo porque ainda é cedo para saber todo o impacto de longo prazo, inclusive em relação ao câncer. Mas, mesmo que ainda não tenhamos décadas de acompanhamento para medir esse risco com precisão, o vape é uma forma de consumo de nicotina e pode ser uma porta de entrada para o tabagismo. E o tabaco, como se sabe, tem relação muito bem estabelecida com o câncer, especialmente o de pulmão.
Por isso, é fundamental desestimular o uso de vapes entre jovens. Eles não devem ser tratados como algo inofensivo ou glamouroso. Podemos dizer que já temos vacinas que previnem o câncer e, ainda assim, a adesão a elas ainda patina.
Por que é crítico virar o jogo? Durante a pandemia de covid-19, vimos uma queda relevante nas taxas de vacinação, o que é preocupante. Vacinas são, ao lado do saneamento básico, um dos maiores avanços da saúde pública.
Foram cruciais para elevar a expectativa de vida no mundo, que saiu de menos de 40 anos, no início do século 20, para perto de 80 anos hoje. E, sim, já temos vacinas que ajudam a prevenir o câncer, como a de HPV. Falamos de um vírus relacionado a tumores de colo de útero, pênis, canal anal, boca e garganta…
O ideal não é tratar o câncer. É evitar que ele apareça. E, nesse sentido, a vacinação é uma ferramenta extremamente poderosa e utilizada aquém do que deveria.
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