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Ler matéria →A Guerra do Paraguai, o maior e mais sangrento conflito armado da história da América Latina, voltou ao centro de uma disputa diplomática entre Brasil e Paraguai nesta semana. A crise foi desencadeada após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmar, na última sexta-feira (24), que "um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil". A fala ocorreu durante um evento no interior de São Paulo, em que o presidente fala sobre a importância de investimentos na indústria de defesa brasileira.
" A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina.
Leia no AINotícia: Paraguai convoca embaixador no Brasil após fala de Lula sobre Guerra do Paraguai
E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos", disse Lula. A declaração foi interpretada por autoridades paraguaias como uma simplificação das causas do conflito e provocou reações imediatas no país vizinho. Nesta quinta-feira (30), o governo do presidente Santiago Peña convocou o embaixador brasileiro em Assunção, José Antônio Marcondes de Carvalho, para prestar esclarecimentos sobre o episódio.
O Congresso paraguaio também aprovou manifestações de repúdio às declarações do presidente brasileiro. A repercussão reacendeu um debate histórico que, mais de 160 anos após o fim da guerra, continua sensível no Paraguai e cercado de interpretações divergentes sobre as origens e a condução do conflito— muitas delas em desacordo com a versão que, por décadas, foi ensinada nas escolas. Guerra de versões
Guerra do Paraguai que dizimou cerca de 70% da população paraguaia.— Foto: Domínio Público Leia também: Agir lança 77 pré-candidatos estaduais em MG e apoia Simões para 2026
A Guerra do Paraguai durou de dezembro de 1864 a março de 1870. De um lado estava a pequena República do Paraguai, com cerca de 400 mil habitantes. De outro, a Tríplice Aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai— juntos, somavam pouco mais de 11 milhões de habitantes.
O resultado foi arrasador. Calcula-se que a população paraguaia tenha se reduzido para menos de 190 mil pessoas. "90% dos homens morreram", afirma o historiador Francisco Doratioto, professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB).
" Do sexo masculino, sobraram apenas idosos e crianças. "
Mas ao longo de pelo menos duas décadas, a maior parte dos estudantes brasileiros aprendeu uma história errada sobre o conflito. A versão mais contada pelos professores de História era aquela popularizada pelos ideólogos de esquerda que faziam oposição ao regime militar que comandou o Brasil durante a ditadura, de 1964 a 1985. Com foco em uma aversão ao imperialismo estrangeiro e qualquer interferência das grandes potências nos destinos sul-americanos, vendia-se a narrativa de que o conflito do século 19 havia sido causado, financiado e indiretamente capitaneado pela Grã-Bretanha.
Nessa história, o Paraguai ascendia como um país que caminhava para ser considerado desenvolvido, com industrialização, justiça social e uma produção de riquezas sem igual, de forma independente, configurando assim uma exceção naquele contexto de novos países americanos que estavam conseguindo autonomia frente aos colonizadores a preço de uma dependência econômica de nações ricas. Vendo-se ameaçados por aquele paisinho que se tornaria um concorrente de sua influência, sobretudo no Brasil e na Argentina, os ingleses despejaram dinheiro e reforços bélicos. O resultado: um massacre que teria condenado ao Paraguai à pobreza e ao subdesenvolvimento. Mais de noticia
Fim do sonho sul-americano. Doratioto, contudo, questiona essa versão. "
Onde está qualquer documento que prove que foi a Inglaterra? Não existe um documento oficial, não existe nada que mostre que o governo inglês tinha interesse em fazer uma guerra na região", disse em entrevista concedida à BBC News Brasil em dezembro de 2024. A visão contemporânea que se tem do conflito, deflagrado oficialmente com a declaração de guerra do Paraguai ao Brasil em, véspera da invasão das forças do país vizinho à então província do Mato Grosso, é aquela que foi construída por historiadores como o próprio Doratioto depois de minuciosa pesquisa em documentos históricos paraguaios, brasileiros, argentinos, uruguaios e ingleses.
Em 2002, o historiador lançou seu mais conhecido livro: Maldita Guerra: Nova História da Guerra do Paraguai, consolidando-se como autoridade no tema. Outros estudiosos que foram reconhecidos pela reescrita da história dessa guerra foram os historiadores Ricardo Salles (1950-2021) e, de forma pioneira, Moniz Bandeira (1935-2017). Segundo Doratioto, a versão outrora ensinada no Brasil acabou se tornando a mais conhecida e difundida no país, sobretudo por conta da ditadura militar. Leia também: Vendaval no Rio: 500 mil imóveis sem luz e investigações sobre mortes
E seu registro mais popular foi o livro Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai, publicado em 1979, de autoria do jornalista Júlio José Chiavenato. " Ele não é historiador e comete erros de metodologia que qualquer aluno de graduação [se o fizesse] não seria aprovado na matéria", aponta Doratioto.
" Mas tem o grande mérito de reviver o tema que estava abandonado pelos historiadores e por militares que vinham com uma visão ufanista e oficial da guerra. "- Governo paraguaio se reúne com embaixador brasileiro, manifesta 'repúdio' a fala de Lula e pede devolução de canhões de guerra- Embaixador brasileiro diz ao Paraguai que Lula não teve intenção de faltar com respeito e que fala foi retirada de contexto- Governo Trump admite erro em reforma milionária de espelho d'água após tinta descascar Foto antiga mostra o Exército brasileiro na Guerra do Paraguai.
— Foto: Domínio público Nessa obra, nota-se que o autor tenta passar sua indignação pelas crueldades cometidas pela guerra.
" Ele vai pelos corações e ganha pela emoção", analisa Doratioto. " Na época, ao ler aquilo, eu achei correto.
" Tanto que o historiador foi um dentre a imensa maioria de sua geração que contava essa versão nas salas de aula, quando professor de colégios em São Paulo. "
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