Ouro Preto: Inconfidência ganha status de museu nacional Instituição será a primeira com este reconhecimento no interior do Brasil; anúncio foi feito durante o feriado pelo prefeito Ângelo Oswaldo SIGADe Museu da Inconfidência a Museu Nacional da Inconfidência.
O 21 de abril, Dia de Tiradentes, trouxe, este ano, um anúncio valioso para a história do equipamento cultural e turístico localizado na Praça Tiradentes, no Centro de Ouro Preto, na Região Central de Minas. Vinculado ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram)/Ministério da Cultura (MinC), o célebre símbolo da ex-capital do estado deverá ser o primeiro museu nacional no interior do país. Atualmente, têm esse status apenas os museus Nacional de Belas Artes, Histórico Nacional e Nacional, no Rio, e Museu Nacional da República, em Brasília.
A expectativa é de que, nesta quarta-feira (22/4), o presidente Luís Inácio Lula da Silva envie ao Congresso um projeto de lei para reconhecimento da “relevância nacional do Museu da Inconfidência e consequente elevação de seu nível de reconhecimento institucional e designação como Museu Nacional da Inconfidência”. O diretor do Inconfidência, Alex Sandro Calheiros, diz que o museu, o Ibram e o MinC já fizeram amplo trabalho com levantamentos técnicos e argumentos enviados à Casa Civil, cabendo agora a Lula enviar ao Congresso. “O próximo passo será conversar com a bancada mineira, pois estamos certos de que se trata de um projeto que fortalece Minas e interessa a todos”, observou.
Leia Mais Nessa terça-feira (21/4), durante a tradicional cerimônia cívica em Ouro Preto, o prefeito local, Ângelo Oswaldo (PV), destacou outro fato importante referente à Inconfidência Mineira. Laudo da Polícia Federal (PF) confirmou a autoria de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792), mineiro da Região do Campo das Vertentes, nas anotações do livro, em francês, “Recueil des loix constitutives des colonies angloises, confédérées sous la dénomination d’États-Unis de l’Amérique septentrionale” – em português, “Coleção das leis constitutivas das colônias inglesas, confederadas sob a denominação de Estados Unidos da América setentrional”.
A obra, mais conhecida por “Livro de Tiradentes”, integra o acervo do Arquivo Histórico do Museu e está entre os testemunhos documentais mais emblemáticos da Inconfidência Mineira. Inaugurado em 11 de agosto de 1944, o museu é dedicado à preservação da memória da Inconfidência e oferece um painel significativo da sociedade e da cultura mineira no período do ciclo do ouro e dos diamantes no século 18. RELEVÂNCIA
Para o diretor do Museu da Inconfidência, Alex Sandro Calheiros, o reconhecimento como Museu Nacional é motivo de celebração. Afinal, explica, embora tenha sido criado para ser nacional, o Inconfidência nunca foi reconhecido como tal, embora seja federal. “Fica na mesma categoria, por exemplo, da Biblioteca Nacional. Leia também: Tragédia na BR-251 ganha destaque após novo desdobramento em tragédia na br-251: seis vítimas da mesma família são identificadas corpos das vítimas, incluindo três crianças, deixam o norte de minas
Trata-se de algo diferenciado, estratégico para o estado brasileiro – pela história, acervo barroco, incluindo obras de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814) e memória política, a exemplo da Inconfidência”, ressalta Calheiros. O reconhecimento poderá abrir caminhos e facilitar entendimento para reformas, requalificação e exposições. Anualmente, o Museu da Inconfidência recebe 350 mil visitantes, dos quais 100 mil estudantes.
Desde seu começo, o local “foi concebido e estruturado como instrumento central da construção simbólica da memória nacional, destinado à preservação, interpretação e difusão de um dos episódios fundadores da história política do Brasil”, lembra Calheiros. Amplamente documentado, o percurso histórico-institucional do Museu da Inconfidência evidencia não apenas a continuidade dessa vocação nacional, “mas também o progressivo adensamento de suas funções científicas, educativas, culturais e sociais”. Recentes ações institucionais de requalificação simbólica do Panteão dos Inconfidentes, um dos expoentes do museu, merecem destaque.
“ Notadamente a inclusão de Hipólita Jacinta Teixeira de Melo, reconhecida pelo estado brasileiro como Heroína da Pátria, em 3 de janeiro de 2025, bem como o reposicionamento da lápide de Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, iniciativas que evidenciam a maturidade institucional do Museu na atualização crítica das narrativas da memória nacional”. Ocupando a antiga Casa de Câmara e da Cadeia de Vila Rica (nome anterior de Ouro Preto), o Inconfidência tem um acervo com quase 6 mil objetos musealizados – incluindo obras de Aleijadinho e do pintor
Manoel da Costa Ataíde, o Mestre Ataíde (1762-1830) –, biblioteca com cerca de 20 mil itens e um arquivo dedicado ao período colonial mineiro. Estão presentes ainda documentos, livros, testamentos e objetos essenciais à compreensão da Inconfidência Mineira. RECONHECIMENTO
No dia em que os brasileiros reverenciam a memória de Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o Tiradentes, uma descoberta importante enriquece a história do herói da Inconfidência Mineira (1788-1789), que lutou contra a opressão econômica nos tempos coloniais. Alex Sandro Calheiros informou que, de acordo com laudo do Instituto Nacional de Criminalística da PF, são mesmo de autoria do mártir as anotações no “Livro de Tiradentes”. Conforme ele, a descoberta reforça o valor documental do exemplar sob guarda do Museu da Inconfidência e amplia a compreensão sobre a participação intelectual de Tiradentes na Inconfidência ou Conjuração Mineira, projetando novos desdobramentos para a pesquisa histórica e para a memória pública. Mais de noticia
“ O livro integra o acervo do Arquivo Histórico do Museu e está entre os testemunhos documentais mais emblemáticos da Inconfidência Mineira. ”
A conclusão pericial atribui novo alcance histórico ao volume, segundo a direção do museu. Com a confirmação da autoria das anotações, o exemplar deixa de ser apenas um objeto associado ao universo político do final do século 18 e passa a constituir evidência material direta da relação de Joaquim José da Silva Xavier com a leitura, a circulação e a apropriação de ideias políticas modernas. “Temos dois aspectos importantes nesta história: passamos do indício à prova material”, observou Calheiros, observando que será possível uma nova percepção sobre Tiradentes, a de que era apenas um entusiasta, sem participação intelectual no movimento, e que esse não teve participação popular. Leia também: Novo show com réplica de tubarão e mais artistas na empresa: os planos de MC Ryan SP antes da prisão
“ Uma camada importante se coloca agora sobre a história”, frisa o diretor. Publicado em Paris, em 1778, em francês e dedicado a Benjamin Franklin (1706-1790), o “Recueil” reúne documentos constitucionais fundamentais dos EUA, entre eles a Declaração de Independência, a primeira redação dos Artigos de Confederação e constituições de seis dos 13 primeiros estados norte-americanos.
Embora a folha de rosto indique a Filadélfia como local de publicação, a obra foi impressa em Paris, com apoio clandestino do governo francês, no contexto da Guerra de Independência estadunidense. Foi nesse ambiente de circulação atlântica de ideias que o exemplar chegou à América portuguesa. Inspirados pelo êxito da Revolução Americana, os inconfidentes encontraram nesses textos referências para imaginar novos arranjos políticos para o Brasil.
O volume posteriormente conhecido como “Livro de Tiradentes” foi trazido a Minas, em 1788, por ex-alunos brasileiros da Universidade de Coimbra, José Álvares Maciel e José Pereira Ribeiro. Nas mãos do herói Conforme divulgado pelo Museu da Inconfidência, Tiradentes, pouco antes de ser preso, em 10 de maio de 1789, no Rio, teria entregue o livro a Francisco Xavier Machado, porta-estandarte dos Dragões de Minas, com a missão de levá-lo de volta à capitania. Após a prisão do mártir da Inconfidência, a obra foi apreendida e se tornou peça central de investigação paralela à devassa instaurada pelas autoridades portuguesas.
Depois de permanecer por 124 anos na Biblioteca Pública de Santa Catarina, em Florianópolis, o volume retornou a Ouro Preto em 21 de abril de 1984. A restituição do livro, articulada pelo então governador mineiro Tancredo Neves (1910-1985) junto ao governo catarinense, representou um gesto de reparação histórica e de reafirmação do valor simbólico do patrimônio cultural brasileiro. Desde então, o exemplar integra o acervo do Arquivo Histórico do Museu da Inconfidência.
“Do ponto de vista historiográfico, o resultado da perícia amplia a compreensão sobre a atuação de Tiradentes no movimento. Os ‘Autos de Devassa’ já indicavam que ele portava o livro, o mostrava a outras pessoas e solicitava a tradução de trechos específicos. A confirmação de que também são suas as anotações manuscritas presentes no volume acrescenta uma evidência decisiva:
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