Ausente da Agrishow em seu terceiro mandato, o presidente Lula (PT) e seu governo foram alvo diário de pré-candidatos da direita que compareceram à principal feira do agronegócio no país e que já planejam novas agendas conjuntas em eventos do gênero. O presidente foi representado na abertura do evento, em Ribeirão Preto (a 313 km de São Paulo), pelo seu vice, Geraldo Alckmin (PSB), acompanhado de ministros, mas nem mesmo o anúncio de uma linha de crédito extra de R$ 10 bilhões para a compra de máquinas agrícolas com juros abaixo de 10% –a taxa básica de juros está em 14,5% ao ano– foi suficiente para reduzir o distanciamento existente entre o petista e o agronegócio. Ao contrário.
O fato de a linha de financiamento para o setor não estar disponível para os negócios nos cinco dias da feira foi combustível para mais críticas ao governo. Além de a Faesp (Federação da Agricultura e da Pecuária do Estado de São Paulo) ter classificado o anúncio como o "dia do não anúncio", Lula foi atacado diariamente por seus possíveis adversários na disputa eleitoral, começando pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e passando pelos ex-governadores Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, e Ronaldo Caiado (PSD), de Goiás. Aldo Rebelo (DC) e Augusto Cury (Avante), também pré-candidatos, estiveram no evento.
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A Agrishow (Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação) terminou na sexta (1º) com redução de 25% nas intenções de negócios –R$ 11,4 bilhões, ante os R$ 15,2 bilhões (valor atualizado pela inflação) da edição de 2025. O agro, especialmente produtores de grãos no Centro-Oeste, demonstra descontentamento com a persistência da Selic elevada –apesar das duas quedas recentes–, e com a baixa cotação das commodities, e a oposição a Lula critica especialmente os juros, argumentando que o governo não reduz os gastos públicos. Também houve críticas ao STF (Supremo Tribunal Federal) durante a feira. Leia também: Documentos do Exército revelados após décadas pressionam Estado por mais apuração sobre ditadura
A soja é comercializada por cerca de R$ 130 a saca de 60 kg, conforme o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, muito abaixo dos R$ 184 do início do governo Lula 3 e dos mais de R$ 200 que alcançou em 2022, na gestão Jair Bolsonaro (PL). Dirigentes de associações do agro, executivos de fabricantes de máquinas e empresários ouvidos pela Folha na Agrishow disseram que o petista pode conseguir diminuir a atual rejeição ao setor se apresentar um Plano Safra robusto, embora afirmem não crer que isso vá ocorrer. Reflexo das dificuldades, apontam, são as quedas nos negócios gerados nas principais feiras do segmento.
Antes do declínio nos negócios em Ribeirão, outra grande feira do setor, a Tecnoshow, em Rio Verde (GO), viu os negócios recuarem 30% neste ano, após ter gerado R$ 10 bilhões na edição do ano passado. Desde que houve um imbróglio em 2023 entre o governo Lula e a organização da feira em Ribeirão Preto pela possibilidade de participação do ex-presidente Bolsonaro na cerimônia de abertura naquele ano, o ato inicial oficial passou a ocorrer aos domingos, e não mais às segundas-feiras. Isso causou também a separação neste ano dos espectros políticos no evento: na abertura, estavam representantes do governo federal e, nos dias seguintes, visitas de políticos da direita com cargos ou pré-candidatos.
" Vamos estar juntos em Presidente Prudente, na Feicorte, e por aí vai. Vamos ter uma série de agendas em conjunto para a gente mostrar que o Brasil tem jeito, tem um grande projeto e que esse projeto é com Flávio Bolsonaro", disse o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), em entrevista coletiva ao lado do senador, no primeiro dia da feira aberta ao público.
A Feicorte (Feira Internacional da Cadeia Produtiva da Carne) reúne raças expostas como nelore, brahman, brangus, canchim, caracu, sindi, santa gertrudis e wagyu e, no ano passado, virou um ato de desagravo ao ex-presidente. Os dois, assim como Zema e Caiado, percorreram ruas da feira para cumprimentar e conversar com agricultores, o que não ocorreu na visita de Alckmin, em dia de bilheteria fechada e com acesso restrito a autoridades, entidades do setor e imprensa. A Agrishow recebeu 197 mil visitantes em cinco dias de evento. Mais de politica
Usando uma camiseta preta com a frase "Chega de Intocáveis", Zema disse em Ribeirão defender um STF " sem rabo preso" e que o tribunal busca evitar investigações.
Já Caiado, na quarta (29), afirmou ser um real defensor do agronegócio, desde quando o setor não tinha a projeção atual. "Eu sou agro raiz, não sou sabor agro, como alguns são. O que eu disse eu vou fazer. Leia também: Tarcísio lança programa de segurança para o Rodoanel
Tenho 40 anos de vida pública, não estou aqui de paraquedas. Quando não era pop nem tech a agropecuária, o Caiado defendia esse setor. Então aqui é minha casa, não estou vindo apenas como convidado, estou vindo aqui como parte de uma luta em prol da agropecuária brasileira", afirmou.
Aldo, que esteve na feira no mesmo dia, também criticou o STF pela possibilidade que a instituição tem de "parar" o país. Cury, por sua vez, participou de um evento no estande da Faesp e disse que "o agro mora" em seu coração. "Sou agricultor há mais de três décadas e frequento a Agrishow também há décadas.
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