
Crédito, AFP via Getty Images
- Author, Edison Veiga
- Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
- Published Há 1 hora
- Tempo de leitura: 13 min
Um ano após assumir o comando da Igreja Católica, o papa Leão 14 divulgou na manhã desta segunda (25/05) o documento Magnifica Humanitas — ou, "Magnífica Humanidade", na tradução do latim para o português —, a primeira encíclica de seu pontificado. O texto é sobre como salvaguardar "a pessoa humana na era da inteligência artificial".
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Na tradição católica, encíclicas são os textos mais importantes a constituir o magistério de um papa. É uma carta dirigida aos bispos e aos fiéis, em que o líder da Igreja expõe o corpo doutrinário do catolicismo. Leão 14, portanto, não só consolida sua visão sobre o tema — que tem aparecido de forma recorrente desde que ele foi eleito sumo pontífice — como demonstra que as preocupações com o impacto da tecnologia na dignidade humana devem ser a tônica de seu papado. É praticamente um cartão de visitas.
"É um documento sobre a defesa da dignidade humana no contexto da sociedade da inteligência artificial", resume o vaticanista Filipe Domingues, professor na Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, e diretor do Lay Centre, também em Roma. "A Igreja, quando fala sobre esses temas, traz para o centro o princípio mais básico que é o personalista, ou seja, da pessoa humana. O ser humano no centro e finalidade de todos os processos."
O texto que inaugura o magistério de Leão 14 tem 105 páginas e apresenta-se como um apelo do religioso pela proteção da humanidade, pela promoção da verdade, pela dignidade do trabalho, pela justiça social e pela paz – em tempos de uma revolução tecnológica precipitada pela inteligência artificial. Leia também: Classe executiva, steak de carne, fotos e sorvete: a ida de Flávio Bolsonaro
É nesse sentido que Leão reflete sobre a inteligência artificial: o papa entende a tecnologia como um instrumento, mas não um ente criativo; e, principalmente, vê a ferramenta como algo que precisa estar a serviço da humanidade, e não o contrário.
"A humanidade — em toda a sua grandeza e em todas as suas feridas — jamais deve ser substituída ou superada", afirma Leão. O papa frisa que o amor e as relações humanas são essenciais às pessoas.
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Logo na abertura, o papa diz que a humanidade "enfrenta hoje uma escolha decisiva". A dicotomia seria, na visão de Leão, construir uma nova Torre de Babel ou "edificar a cidade na qual Deus e a humanidade habitam juntos".
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A seu modo e em um contexto próprio, Leão recupera uma imagem que era muito cara ao seu antecessor, Francisco (1936-2025): o alerta sobre a necessidade de construirmos pontes em vez de muros.
Mas o principal diálogo trazido pela Magnifica Humanitas é com a Rerum Novarum do Leão antecessor — Leão 13 (1810-1903) publicou há exatos 135 anos aquela que é considerad a primeira encíclica social da Igreja. Leia também: O que a disputa inesperada entre PCC e CV em São Paulo revela sobre a facção
Magnifica Humanitas parte do princípio de que a tecnologia não é "uma força antagonista à humanidade", tampouco "intrinsecamente má". A questão trazida — e aí está o problema, na visão do papa — é que ela "nunca é neutra", já que "assume as características daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam".
O papa clama, diante disso, que a tecnologia seja construída sempre "para o bem comum" e com a preocupação de que as pessoas permaneçam "humanas".
Mas o papa não se limita à seara digital. Ao traçar um histórico diacrônico da doutrina social da Igreja, ele defende a dignidade humana como um princípio fundamental e os direitos humanos como fundamentos invioláveis — neste ponto, Leão enquadra o aborto provocado, o assassinato de inocentes e a eutanásia como escolhas que o catolicismo considera "gravemente erradas".
Leão cobra mais reconhecimento aos direitos das minorias e pede "decisões concretas" sobretudo para que haja igualdade de gênero com maior participação de mulheres nas leis, no trabalho, na educação e na política.
Leão afirma que "a revolução digital está mudando a natureza dos conflitos" e que a decisão sobre a vida e a morte é cada vez mais impessoal. "A inteligência artificial não remove a desumanidade intrínseca do conflito; ao contrário, pode apenas acelerar os conflitos e torná-los mais impessoais, reduzindo o limiar para o recurso à violência, transformando a defesa em previsão de ameaças e reduzindo as vítimas a dados", escreve.

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