Presidente de Cuba acusa EUA de 'genocídio político' no aniversário da revolução
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Crédito, Getty Images
- Author, Eve Livingston
- Role, BBC Future
- Published Há 3 horas
- Tempo de leitura: 11 min
A cena no tribunal era incomum. Em, não havia júri, testemunhas nem réus no Tribunal do Xerife de Glasgow, na Escócia. Diante do juiz, vestido com trajes oficiais, estavam 85 integrantes de gangues rivais da zona leste da cidade, a maior do país.
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Durante décadas, a região conviveu com gangues juvenis que disputavam território, além de crime organizado e brigas envolvendo tráfico de drogas e comércio ilegal de armas. Ataques com faca aconteciam quase todos os dias.
Apesar das rivalidades, os integrantes das gangues ficaram em silêncio enquanto ouviam uma série de depoimentos. Uma mãe contou que o rosto do filho, de 13 anos, ficou irreconhecível depois de um ataque com faca ligado a uma gangue. Um jogador americano de basquete falou sobre a morte do irmão, baleado. Médicos e cirurgiões descreveram cortes profundos e deformações permanentes.
A mensagem era clara: a violência precisava acabar. Leia também: Burnout já existia na Idade Média — o que a sabedoria medieval tem a nos ensinar
"Se eu fosse o chefe [da polícia de Strathclyde], provavelmente não teria permitido que fizéssemos aquilo", lembra Karyn McCluskey, cofundadora e ex-diretora da Unidade Escocesa de Redução da Violência (SVRU, na sigla em inglês), criada pela polícia em 2005 e ampliada pelo governo escocês no ano seguinte para atuar em todo o país. Foi a unidade que organizou aquela iniciativa incomum.
"Ele deve ter pensado que éramos loucos", diz McCluskey. "Naquele dia, havia cavalos da polícia em frente ao tribunal e barcos patrulhando o [rio] Clyde, porque a operação envolvia muitos riscos. Mas havia espaço para tentar uma abordagem diferente."
A aposta deu resultado. Ao fim da sessão, os integrantes das gangues receberam um número de telefone para o qual poderiam ligar caso quisessem deixar a violência para trás. Depois de dez encontros semelhantes, que reuniram 473 jovens, quase 400 entraram em contato.
A iniciativa realizada no tribunal foi a primeira das chamadas "sessões de autorreferência", uma das medidas adotadas pela Escócia para enfrentar a onda de violência que atingia o país, especialmente Glasgow.
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Entre 2003 e 2005, Glasgow teve a maior taxa de homicídios da Europa. A Organização das Nações Unidas (ONU) considerou a Escócia como o país mais violento do mundo desenvolvido, e a probabilidade de um escocês sofrer uma agressão era quase três vezes maior do que a de um americano. Os jornais publicavam com frequência relatos de assassinatos brutais e confrontos sangrentos entre gangues.
Mas na década seguinte a taxa de homicídios caiu 56% em Glasgow e 38% no restante da Escócia. Entre 2006 e 2015, os crimes violentos diminuíram quase um terço no país. Hoje, o número de homicídios está no menor nível em mais de 20 anos. Os casos de agressão grave e tentativa de homicídio também caíram. Leia também: A prisão do condenado pelo assassinato de Víctor Jara, 53 anos após a morte
Hoje, a Escócia está no meio da lista dos países europeus em taxa de homicídios, com índices per capita menores do que os da Suécia, da França e de Inglaterra e País de Gales.
A resposta, em resumo, está na maneira como a Escócia passou a lidar com a violência. O problema deixou de ser tratado apenas pela polícia e pela Justiça e também passou a ser visto como uma questão de saúde pública.
"[No início dos anos 2000], a Escócia tinha a imagem do homem durão e alcoólatra e uma reputação ligada às gangues e aos crimes com faca que vinha de gerações, desde as gangues armadas com navalhas do século 18", diz Will Linden, diretor-adjunto da SVRU e um de seus primeiros integrantes.
Em 2003, Linden trabalhava como analista da polícia de Strathclyde, sob a chefia de Karyn McCluskey, então responsável pela análise de inteligência da corporação. Naquele ano, o departamento recebeu a tarefa de preparar um relatório sobre como reduzir os homicídios.
"Não eram crimes premeditados nem ligados ao crime organizado. Normalmente, eram duas pessoas envolvidas em uma briga, até que uma delas sacava uma faca e esfaqueava a outra. Foi aí que entendemos que não seria possível criar uma estratégia para reduzir os homicídios sem olhar para a violência como um todo, e não apenas para a atuação da polícia."



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