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O que 'A Odisseia' tem a dizer sobre a era dos trapaceiros como Trump e Musk

Admito que estou um pouco atrasado para dar minha opinião sobre " A Odisseia"

O que 'A Odisseia' tem a dizer sobre a era dos trapaceiros como Trump e Musk

Admito que estou um pouco atrasado para dar minha opinião sobre " A Odisseia". Culpa de ter filhos pequenos.

Não vou muito ao cinema. Mas que proeza realizou seu diretor, Christopher Nolan. Elon Musk não entendeu o que era esse filme.

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Mas esse filme entende o que Musk é. Entende quem estamos nos tornando e quem nos tornamos —e aponta uma saída. Os ardis são centrais em "

A Odisseia". No mito, Odisseu é um trapaceiro. Ele é descrito, já no primeiro verso da história, como o homem de muitos caminhos, de muitos ardis ou de muitas voltas.

É, dependendo do tradutor, um homem engenhoso, astuto, complexo. É um homem de apetites e contradições, alguém que não deseja nada além de voltar para casa, mas continua escolhendo permanecer longe; um homem que anseia pela esposa, mas não consegue parar de se deitar com deusas. Odisseu nunca é uma coisa só; é sempre muitas. Leia também: Heloísa Jorge é médica da Maré: o detalhe que mais repercutiu

Mas Nolan não estava procurando um trapaceiro. Seu Odisseu é outra coisa. Esse, pode-se dizer, foi o primeiro ardil de Nolan.

Quero fazer uma pausa aqui para falar um pouco sobre os trapaceiros, porque passei os últimos anos discretamente obcecado por esse arquétipo. O trapaceiro é Loki na mitologia nórdica, Eshu nas histórias iorubás, Coiote ou Corvo nos contos indígenas americanos, Maui na Polinésia e Hermes e Odisseu entre os gregos antigos. A função do trapaceiro, escreve Lewis Hyde em seu maravilhoso livro "Trickster Makes This World", é "revelar e desestabilizar justamente aquilo de que uma cultura depende".

O trapaceiro dança por entre costumes e tabus, diz o que não pode ser dito, faz o que não deve ser feito. Injeta desordem na ordem, torna visível o que normalmente permanece oculto. Provoca o dano que torna possível o crescimento.

Mas um final feliz jamais está garantido. O trapaceiro pode ser regenerador ou ruinoso. Coiote traz o fogo; Corvo traz o sol; Loki traz o Ragnarok.

O argumento de Hyde é que os trapaceiros são necessários e perigosos ao mesmo tempo. Eles representam uma tensão com a qual toda sociedade precisa lidar. Uma cultura incapaz de reagir à ruptura com criatividade não consegue sobreviver à mudança. Mais de entretenimento

Uma cultura incapaz de proteger seus valores fundamentais será consumida pela corrupção. Ordem demais leva à paralisia; caos demais convida ao colapso.

Vivemos em uma era de caos. Temos vivido em uma era de trapaceiros. Musk, o presidente Donald Trump, Tucker Carlson, Andrew Tate, Nick Fuentes —a gramática da direita moderna é ardilosa.

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Não estou dizendo que esses homens sejam apenas trapaceiros. Eles não são os criadores de cultura nos quais Hyde prefere se concentrar. Mas estou dizendo que as personalidades dominantes de nossa era acumularam poder atropelando costumes e tabus, dizendo o que não pode ser dito, fazendo o que não deve ser feito.

Hyde disse que os americanos adoram um trapaceiro "porque ele encarna coisas que são de fato verdadeiras sobre os Estados Unidos, mas não podem ser declaradas abertamente". Isso talvez fosse verdade em 1998, quando Hyde publicou seu livro. E consigo entender o argumento de que as instituições e os costumes americanos se enrijeceram nos anos seguintes —de que nossa sociedade havia se tornado excessivamente presa a regras e burocratizada, de que coisas demais haviam se tornado indizíveis, de que havia abertura de menos para a transgressão e a invenção.

Mas hoje resta muito pouco que já não possa ser dito. As ideias e os princípios morais sobre os quais se construiu o que há de melhor em nossa cultura foram desestabilizados e profanados. A questão agora é saber se essa ruptura pode ser enfrentada com criatividade e renovação.

Essa é a questão central da "Odisseia" de Nolan. Aparentemente, essa "Odisseia" gira em torno da lei de Zeus: trate o mendigo e o estrangeiro como você gostaria de ser tratado. Mas, como uma multidão de estudiosos dos clássicos apontou, essa não é a lei de Zeus, que é mais restrita: ela exige hospitalidade para com o hóspede ou o estrangeiro, reconhecendo que qualquer pessoa poderia ser um deus disfarçado.

Não se trata de uma ética da compaixão nem sequer da reciprocidade. E aqui encontramos o ardil central de Nolan: ele introduziu às escondidas o núcleo da ética judaico-cristã em "

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