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Ler matéria →O pacto que uniu Brasil e outros países sul-americanos contra 'subversivos'

Crédito, Governo do Brasil/ Domínio Público
- Author, Edison Veiga
- Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
- Published Há 2 horas
- Tempo de leitura: 9 min
Em 1897, um militante do partido de oposição assassinou o presidente do Uruguai Juan Idiarte Borda (1844-1897). No mesmo ano, o presidente brasileiro Prudente de Morais (1841-1902) foi vítima de um atentado. Ele sobreviveu ao episódio.
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O clima político na região começava a ficar mais tumultuado com a chegada daquilo que se convencionou chamar de "novas ideias"— uma ideologia de esquerda, principalmente ligadas ao anarquismo, que muitos dos imigrantes italianos, espanhóis e portugueses que se instalaram na América Latina naquele época trouxeram consigo.
Em 1905, um anarquista catalão tentou matar o então presidente argentino, Manuel Quintana (1835-1906). No ano seguinte, seu sucessor, José Figueroa Alcorta (1860-1931) também sobreviveria a uma emboscada anarquista.
Para o historiador e jornalista Rômulo Dias, professor de política internacional no Espaço Zeitgeist e autor do podcast ZGCast, a vinda maciça dos imigrantes, munidos de ideologias diversas, acabou sendo o ingrediente que faltava para a instabilidade política na região. Leia também: Morre Victor Willis, o policial do Village People e a voz por trás de hits
"Na Argentina a coisa fica mais pesada. As ideias anarquistas se traduzem em tentativas concretas de assassinatos", pontua.
Parafraseando a definição do chanceler alemão Otto von Bismarck (1815-1898) para a complexa situação da região europeia dos balcãs— onde eclodiria em 1914 a 1ª Guerra Mundial —, a conjuntura política antevia um barril de pólvora sendo estocado nos porões da América do Sul.
Para os que ocupavam o poder, era preciso fazer algo. Instabilidade, afinal, é a maior inimiga da manutenção do status quo. A solução veio por meio de um acordo regional de cooperação. Em, Brasil, Argentina e Uruguai assinaram o Pacto Policial Contra o Anarquismo.
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O tratado, contudo, era consequência de discussões que haviam avançado muito no ano anterior entre os três governos sul-americanos. Em outubro de 1905, Buenos Aires sediou a chamada Conferência Interpolicial, na qual autoridades das nações do continente discutiram convênios de ajuda mútua e intercâmbio de tecnologias como trabalhos de datiloscopia e maneiras mais eficientes de registrar, em documentos de identidade, suas populações.
Segundo Dias, a conferência buscou "cientifizar" as polícias e conectá-las. O principal objetivo era combater os crimes políticos.
O encontro é considerado pioneiro no sentido de uma cooperação regional. Leia também: Milhares de mortos, milhões precisando de ajuda: os números que mostram
"A convocação dessa conferência vem neste contexto, pós-tentativa de assassinato do presidente argentino, na tentativa de unir as forças policiais e pensar como combater esses criminosos transnacionais, como blindar esses países do Cone Sul do impacto político e social das novas ideias que começam a circular com mais força", contextualiza Dias.
Pesquisador no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), o cientista político e jurista Enrique Natalino pontua que, no início do século 20, esses países sul-americanos tinham um contexto em comum: ao mesmo tempo em que fortaleciam institucionalmente seus Estados, buscando uma estabilização política, buscavam reprimir insurgências populares que pudessem ameaçar a dita ordem social.
"Havia na sociedade uma certa inquietação", analisa ele. "E a elite política se preocupava quanto a possíveis ameaças."
"O acordo de cooperação policial deve ser visto, em primeiro lugar como o primeiro marco de cooperação transnacional dentro do Cone Sul, que posteriormente vai avançar em 1915 para o Tratado ABC [pacto de inteligência política e arbitramento assinado entre Argentina, Brasil e Chile], de apoio recíproco na América do Sul", pontua Natalino.

Crédito, Domínio Público
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