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'O Mago do Kremlin' mostra por que Putin é tão temido na Europa

Em seus melhores momentos, Olivier Assayas oferece sempre uma visão surpreendente do mundo

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'O Mago do Kremlin' mostra por que Putin é tão temido na Europa

Em seus melhores momentos, Olivier Assayas oferece sempre uma visão surpreendente do mundo. Já foi assim com a decadência europeia, o terrorismo de Carlos, o Chacal, os espiões cubanos nos EUA. Agora é a vez de Putin (Jude Law), que de cara podemos imaginar ser o tal mago do título do filme.

Não é. O mago é Vadim Baranov (Paul Dano), conselheiro do presidente russo e principal cabeça a pensar sua ascensão à condição de moderno czar da Rússia. Baranov é um personagem fictício do romance de Giuliano da Empoli, adaptado pelo filme, e que é baseado possivelmente na figura de outro poderoso, Vladislav Surkov.

Baranov, diretor de teatro vanguardista nos tempos da desmontagem da URSS, aqui narra sua trajetória para o autor estadunidense Rowland (Jeffrey Weight). Baranov logo pula do teatro para a televisão, e chega à política depois que se aproxima do oligarca Berezovski, que enriqueceu durante o governo Yeltsin. Naqueles anos, Berezovski comprou bens públicos preciosos meio que a preço de banana (como outros que se tornaram bilionários no período, os chamados oligarcas).

Berezovski, que controla a TV russa, a horas tantas decide que Yeltsin já não serve a seu projetos de poder. Junto com Baranov articula a subida de um substituto ao poder: Putin, em pessoa, o chefe da espionagem, a quem o oligarca considera um futuro fantoche. Não era, como se sabe. Leia também: Theatro Municipal de São Paulo recebe espetáculo grátis de MPB com orquestra

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O que acontece em seguida é a descrição da tomada do poder por Vladimir Putin, apoiado por Baranov, que se torna seu conselheiro desde o momento que acena ao chefe da espionagem a ideia de que o país precisa de um poder vertical. Vertical, quer dizer, um cara que chega lá, bota ordem na casa, manda em tudo. Putin adora a ideia.

Daqui por diante estamos diante do surpreendente proposto por Assayas. Em vez de julgar o presidente russo, de ver nele um inimigo, como faz toda a Europa, " O Mago" dedica-se mais a mostrar o que é Putin.

Um governante implacável, com métodos nunca delicados e capaz de tudo para afastar seus rivais do poder. Goste-se ou não de Putin, é assim que tem funcionado a Rússia, dos tempos do império, ao longo da URSS e, pelo jeito, também agora na era pós-soviética. De certo modo, Putin continua a ser um enigma, mesmo após o filme:

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será um cara de extrema-direita, como alguns dizem? Será um neocomunista? Um nacionalista? Mais de entretenimento

O certo é que Putin não é retratado no filme como alguém manipulável. Enfrenta os oligarcas com o mesmo espírito de enxadrista que o czar Ivan, o Terrível, usava para liquidar os senhores feudais que se opunham ao poder absoluto. Um termina exilado antes de se suicidar, outro é preso, outros morrerão em circunstâncias tão misteriosas quanto suspeitas.

Com a mesma agilidade, Putin retoma as companhias (de petróleo, gás, essas pequenas coisas) e as coloca nas mãos de uns caras que controla inteiramente. E Baranov, o mago, nessa história? O filme não deixa muito claro por que decide, em dado momento, se retirar do governo. Leia também: Ficção e documentário trocam de papéis: o detalhe que mais repercutiu

Nem por que decide contar sua história a um autor americano que o procura. As explicações para isso não são muito convincentes. Ele acha que tanto o avô como o pai tiveram a vida tragada pela Rússia.

Seria isso uma característica tão russa quanto a convivência pacífica (quando não entusiasta) com um poder "vertical"? O filme de Assayas traz à imagem o belo roteiro escritor por ele mesmo e Emmanuel Carrère (que por sinal é filho de uma importante sovietóloga francesa). "

O Mago" interessa tanto pelo que mostra de Putin, de Baranov, de oligarcas, como pela arte da contenção, de não preencher todos os espaços, de deixar esse vazio onde o espectador poderá formar sua própria imagem dos personagens, Putin à frente, claro. Pode-se amá-lo como salvador da pátria, odiá-lo como tirano etc. Mas talvez o que ele mais queira seja ser temido.

Temê-lo é justamente o que a Europa parece fazer em tempo integral. Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.

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