
Crédito, Coleção de Matt Hagan, reprodução da revista Military Images, 2018
- Author, Luiz Antônio Araujo
- Role, De Porto Alegre para a BBC News Brasil
- Published Há 1 hora
- Tempo de leitura: 9 min
Um dos últimos episódios de tráfico transatlântico ilegal de escravizados registrados nos arquivos do Império do Brasil envolve um imigrante americano que viveu no interior de São Paulo.
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O episódio teria acontecido após o fim da escravidão nos EUA e quando ela ainda era permitida no Brasil, mas já após a proibição do tráfico para o país.
Ao investigar a identidade do traficante, o historiador Célio Antonio Alcantara Silva se deparou com um célebre sobrenome: William Hezekiah Forrest, major do exército confederado ao final da Guerra de Secessão e, antes de 1865, traficante de escravos.
Chamado de Bill nos Estados Unidos e Guilherme no Brasil, Forrest era irmão do lendário general confederado Nathan Bedford Forrest (1821-1877), também comerciante de cativos antes da guerra e primeiro líder da organização supremacista branca Ku Klux Klan (KKK), fundada em 1865 nos EUA. Leia também: 'Copa não é convite para explorar nossos moradores': o que procuradora de NY
Em artigo publicado na revista Bulletin of Latin American Research, em 2024, o professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT) mencionou pela primeira vez a passagem de Bill Forrest pelo Brasil.
Os Estados Unidos Confederados da América foram uma coligação de 11 Estados que se separaram da União por não aceitar o avanço da causa abolicionista representado pela eleição do presidente Abraham Lincoln (1809-1865).
O resultado foi a Guerra de Secessão (1861-1865), o mais sangrento conflito da história americana, que deixou como saldo, além do fim da escravidão, mais de 600 mil mortos (cerca de 2% da população do país) e 400 mil mutilados.
A imigração confederada para o Brasil foi efetivamente organizada em torno de líderes de alto escalão da Confederação, como o ex-senador e coronel confederado William Huntchinson Norris, do Alabama.

Crédito, Livro “Forrest”, de James Harvey Mathes, 1902/Reprodução Mais de mundo
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A incursão brasileira de Forrest insere-se, de acordo com Silva, no contexto histórico do que o pesquisador chama de "crise da escravidão no Hemisfério Ocidental". Leia também: O livro que deu origem a filme com Wagner Moura e conta a história que levou ao
"O Brasil serviu como atrativo para esses indivíduos [confederados] por apresentar escravidão legal e melhores condições de reprodução do sistema de plantagem (plantation) em virtude da disponibilidade de terras em comparação com o outro único ponto das Américas que permitia trabalho cativo, a então colônia espanhola de Cuba", afirma o historiador, de Palmas (TO), por videoconferência, à BBC News Brasil.
Assim como outros irmãos do general Forrest, Bill serviu sob as ordens do irmão mais velho no Exército Confederado.
Na vida real, sua trajetória teve pouco em comum com as peripécias cômicas do tipo interpretado pelo ator Tom Hanks.
O general, chamado de Mago da Sela por seus talentos de cavaleiro e chefe militar, foi um dos mais notórios integrantes da Ku Klux Klan. Na organização, era cultuado como "Grande Mago" (Grand Wizard) em razão do apelido dos anos de guerra.
Celebrando o antigo ideal de um Sul branco e escravista, o grupo permanece até hoje envolvido em crimes de ódio contra afrodescendentes, judeus e outras minorias.

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