← Entretenimento
Entretenimento

O cinema não deveria ser uma ferramenta política, diz o cineasta László Nemes

A paternidade é um tema de grande importância na obra do húngaro László Nemes

O cinema não deveria ser uma ferramenta política, diz o cineasta László Nemes

A paternidade é um tema de grande importância na obra do húngaro László Nemes. Em seu filme mais famoso, " O Filho de Saul", de 2015, um judeu encontra o cadáver do seu rebento, morto pelos nazistas, e faz o possível para enterrá-lo dignamente.

E em seu novo trabalho, " O Órfão", que acaba de chegar ao catálogo da Mubi, é uma criança que fica obcecada por descobrir o paradeiro do pai, que sumiu durante o Holocausto. Mas o filme, exibido no festival de Veneza do ano passado, tem um aspecto bem mais pessoal —e que envolve paternidade para além dos fatos da trama.

Leia no AINotícia: Entretenimento: Panorama da Semana com Shrek, Toy Story e Copa

É que a história se inspira na infância do próprio pai do diretor, o também cineasta e dramaturgo András Jeles, que passou por uma situação muito semelhante à do protagonista. " Na verdade, foi a mãe dele quem me contou a maior parte do que está no filme.

Meu pai até ajudou no roteiro, mas quem transmitia a história para mim, antigamente, era a minha avó", disse Nemes, em Veneza. Alguns detalhes, porém, nem mesmo ela chegou a relatar, então o cineasta tomou certas liberdades, mas manteve o essencial de sua história familiar. "

Com o filme, estou tentando compreender meu próprio ser, minha origem. " A trama começa pouco após o fim da Segunda Guerra, quando o pequeno Andor reencontra sua mãe, judia que precisou se esconder em um vilarejo húngaro para escapar do Holocausto, enquanto o menino ficou em um orfanato. Leia também: Marquise do parque Ibirapuera ganha restaurante com cardápio de Jefferson Rueda

Dez anos mais tarde, mãe e filho levam uma vida mais estabelecida, embora sem luxos, em Budapeste. Mas Andor sofre com a falta de informações sobre o pai, que aparentemente teria morrido na guerra. A situação se agrava quando reaparece o homem que escondeu a mãe de Andor durante o nazismo.

Ele agora se envolve amorosamente com ela e quer assumir oficialmente a paternidade do garoto. Que, no entanto, recusa-o como pai. Nemes diz haver um aspecto shakespeariano ali.

" Acho que as grandes tramas humanas se baseiam em uma história arquetípica. ‘Hamlet’ é assim: tem o fantasma do pai, o rei usurpador e o príncipe sozinho.

É uma narrativa edipiana. Acho que as histórias arquetípicas têm sua própria lógica e são, de certa forma, míticas", diz o cineasta, mencionando que quanto mais se debruçava sobre a história de seu pai, mais detectava nela traços hamletianos. A trama de "

O Órfão" se passa imediatamente após a Revolução Húngara de 1956, quando um levante popular tentou livrar o país da influência extrema soviética. Que foi prontamente massacrado, inclusive com aumento de militares russos na região. Visto em 2026, quando a Rússia quer manter influência à força na Ucrânia, o ressurgimento desse episódio pode soar como uma referência ao autoritarismo de Vladimir Putin, mas o cineasta nega. Mais de entretenimento

"É natural surgirem essas comparações, mas não é algo que foi buscado", diz. " O cinema não é uma ferramenta política.

Não deveria ser. Talvez no subtexto, mas não no texto", dispara o cineasta, de certo modo antecipando a polêmica fala do diretor alemão Wim Wenders no último Festival de Berlim, quando disse que artistas "têm que ficar fora da política". Nemes também vai na contramão de vários colegas em sua postura sobre os conflitos de Israel, dizendo em entrevistas que há antissemitismo espalhado pelo mundo ocidental.

E, esteticamente, discorda de quem acha que o cinema deve evitar mostrar excesso de sofrimento humano, preferindo representações mais positivas sobre quem vivencia tragédias. "Mas o sofrimento é real e aconteceu a muitas pessoas", diz Nemes. " Leia também: resumo novelas quem ama cuida: o detalhe que mais repercutiu

Onde está a esperança em um filme como ‘Chinatown’ [de Roman Polanski, de 1974]? Você precisa ter esperança em ‘Chinatown’? "

" Acho que o cinema tem o dever de contar histórias humanas que sejam arquetípicas. Não é político.

É uma repetição das mesmas histórias, várias vezes. Fazer algo diferente disso não cumpre seu propósito principal." O húngaro diz acreditar que, nos últimos 20 anos, houve uma capitulação da arte em nome de certas demandas, "para agradar ao público e à mídia, para ganhar prêmios".

" De certa forma, os cineastas traíram um pouco a arte. Há uma pressão industrial, há uma autocensura, há essa digitalização que tem efeitos absolutamente terríveis, inclusive no processo criativo.

" Aliás, a liberdade para criar parece inegociável para o diretor, que, desde o êxito de "O Filho de Saul", tem flertado com Hollywood, mas tentativas de controlá-lo artisticamente teriam impedido projetos. Mas Nemes já alça voos internacionais —no mês passado, lançou no Festival de Cannes "Moulin", produzido na França, sobre um herói antifascista do país.

Marquise do parque Ibirapuera ganha restaurante com cardápio de Jefferson Rueda
Entretenimento

Marquise do parque Ibirapuera ganha restaurante com cardápio de Jefferson Rueda

Ler matéria →

Leia também