Novo óculos promete parar miopia em crianças: 9 a cada 10 são beneficiadas, diz estudo Estudo diz que novas lentes são capazes de parar totalmente a progressão da miopia em algumas crianças e podem auxiliar, inclusive, menores de cinco anos
Em 2050, metade da humanidade não vai enxergar direito. Parece ficção científica, mas essa é uma das projeções mais otimistas dos especialistas para o avanço da miopia no planeta. A condição, normalmente diagnosticada entre os sete e 16 anos de idade, já atinge 7,6% dos brasileiros entre 3 e 18 anos, segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).
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Outros países, especialmente os asiáticos, têm dados ainda mais alarmantes. Na China, 87,7% de crianças são míopes hoje. E o que explica esse avanço?
Para pesquisadores, o boom está associado a hábitos como uso excessivo de telas e pouco tempo ao ar livre. Crianças e adolescentes estão no cerne da atenção da ciência sobre esse problema. Isso porque esse quadro costuma avançar na infância e adolescência, estabilizando no início da vida adulta.
Imagine, então, se um par de óculos pudesse desacelerar essa progressão ainda na infância e garantir uma visão mais nítida pelo restante da vida? É o que uma nova tecnologia promete fazer. Em um estudo clínico, conduzido em parceria com a Universidade Politécnica de Hong Kong, um novo design de lentes para óculos se mostrou capaz de interromper significativamente a progressão da miopia em 9 a cada 10 crianças ao longo do primeiro ano de uso. Leia também: Microplásticos e fertilidade ganha destaque após novo desdobramento em
Essas lentes têm nome próprio, “MiYOSMART iQ”, e foram criadas pela HOYA Vision Care, multinacional japonesa especializada em soluções ópticas de alta tecnologia. E o segredo está na tecnologia chamada D.I.M.S. – sigla em inglês para “Defocus Incorporated Multiple Segments”, ou algo como “Segmentos Múltiplos com Desfoco Incorporado”.
A pesquisa teve os dados previamente apresentados no último mês durante o congresso da Associação para Pesquisa em Visão e Oftalmologia (ARVO, na sigla em inglês), nos Estados Unidos. Como funciona a tecnologia Miopia é um defeito que faz uma pessoa enxergar bem de perto, mas ter dificuldade para ver objetos distantes. Ela ocorre quando o olho é um pouco mais alongado que o normal.
Com isso, a luz que entra não alcança a retina devidamente e a imagem chega turva ao cérebro. Para tentar ajustar isso, entram em cena os óculos de grau comuns, que até corrigem a visão, mas não resolvem o problema. É que esse tipo de lente, chamado de monofocal, “joga” o foco da imagem para o lugar certo dentro do olho, permitindo que a luz chegue corretamente à retina, mas, nas bordas, a luz continua chegando fora do ponto ideal.
Essa falta de foco na região periférica acaba enviando sinais que fazem com que os olhos cresçam ainda mais, o que é chamado de alongamento axial, um fator determinante para a piora da miopia. Na infância e adolescência, o olho ainda está crescendo e, portanto, o alongamento tende a piorar com o tempo se não for interrompido cedo. É aí que entram as lentes com a tecnologia D.I.M.S. (segmentos múltiplos com desfoco incorporado).
Além de corrigir a visão central, elas criam pequenas zonas que regulam o foco nas bordas e “neutralizam” esse sinal. Ao diminuir esse estímulo, elas conseguem desacelerar o crescimento do globo ocular. Essa tecnologia já existia desde 2018, criada pela HOYA, e demonstrava a capacidade de controlar em até 60% a progressão da miopia. Mais de saude
“ Então, se a miopia iria aumentar 10 graus, caía para quatro graus”, explica Celso Cunha, oftalmologista e consultor da empresa. A diferença é que, agora, foram incorporados novas técnicas que levaram ao avanço do produto.
Agora, os estudos dizem que as lentes conseguiram chegar a 90% e até mesmo a total contenção da miopia em alguns casos, além de ter passado a demonstrar eficácia mesmo em crianças pequenas, algo inédito na área. A pesquisa O estudo ainda não foi publicado, mas teve os seus dados apresentados em um dos maiores congressos de oftalmologia do mundo.
Para chegar aos resultados, os pesquisadores conduziram um estudo clínico randomizado com 196 crianças míopes de quatro a 12 anos, em Hong Kong, que foram acompanhadas por um ano – até agora, pois a pesquisa continuará acompanhando-as ao longo dos próximos anos. Segundo foi apresentado, passados 12 meses, os pequenos que utilizaram as lentes MiYOSMART iQ não tiveram progressão da miopia. Enquanto isso, o grupo controle, com lentes convencionais, apresentou piora do quadro. Leia também: previsão do tempo curitiba: o que muda após ponta grossa (pr) deve ter um dia
Para as crianças de sete a 12 anos, por exemplo, faixa mais tradicionalmente estudada, o MiYOSMART iQ alcançou níveis de 100% de eficácia no controle da miopia e reduziu em 94% o alongamento axial. “ Então, é a primeira vez que uma lente faz com que pare totalmente a progressão”, diz Cunha.
Segundo a HOYA, essa foi também a primeira vez que esse tipo de lente demonstrou funcionar em crianças com menos de cinco anos. “ Antes, a gente tinha muita dificuldade em controlar a miopia de crianças menores”, reitera Celso.
A empresa ainda não divulgou os dados exatos de melhora nos mais novos, mas indica que o crescimento axial do olho não só manteve-se baixo como, até mesmo, chegou a ser reduzido. O dado anima, já que, quanto mais cedo o tratamento é adotado, menor o impacto acumulado da progressão ao longo dos anos e, consequentemente, o risco de evolução para quadros mais graves. +
Parar progressão não é “cura” Os especialistas explicam que as D.I.M.Ss são algumas das melhores alternativas de tratamento hoje, mas não devem ser entendidas como o fim da miopia. A médica Ione Alexim, chefe do serviço de Oftalmologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz explica:
“o objetivo não é curar a miopia. É desacelerar a progressão e reduzir risco futuro de complicações associadas à alta miopia“, diz. Segundo o oftalmologista Claudio Lottenberg, presidente do Conselho do Einstein Hospital Israelita, elas também têm algumas ressalvas, como o fato de que não funcionam igual para todas as crianças e não eliminam necessidade de acompanhamento.
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