Saúde: Panorama de Notícias sobre Tratamentos Inovadores e Inclusão
Ler matéria →“Ninguém está puro”: o sucesso e os perigos das canetas emagrecedoras do Paraguai O mercado de “canetas” falsificadas ou sem autorização já é maior do que o oficial. Investigamos o que elas prometem, o que carregam de fato e se há riscos “Ninguém está puro”, declara Amanda, que trocou uma caneta de semaglutida original por ampolas de tirzepatida vindas do Paraguai.
“Eu tinha medo no início, por não saber o que estava injetando no meu corpo, mas vi que uma amiga usou e não morreu, então fui nessa”, conta a moradora de Bragança Paulista.
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A analista de marketing de 30 anos, que prefere não se identificar, afirmou que faz exames periódicos e acompanhamento com uma médica ciente do que ela usa. E enfatiza que conhece quem vende esses produtos e sua procedência. O relato reflete uma mudança preocupante no comportamento dos consumidores.
Ao mesmo tempo que cresce o culto à magreza e ao corpo musculoso, também parece se normalizar o consumo de produtos vindos do mercado ilegal. Remédios falsificados, anabolizantes clandestinos, suplementos sem comprovação: para muita gente, pouco importa de onde vêm, desde que entreguem o resultado prometido. Uma pesquisa do Conselho Federal de Farmácia (CFF) junto ao Datafolha ilustra esse cenário: apenas 5% dos consumidores consideram o registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como critério de escolha ao comprar produtos para emagrecer e 54% priorizam a promessa de resultados rápidos.
“A ciência, as instituições e as entidades científicas também estão sendo questionadas, como se aprovar esse ou aquele remédio ou produto tivesse viés político, o que não é verdade”, analisa o cardiologista Diandro Motta, assessor científico da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp). + É nesse ambiente de desconfiança e imediatismo que floresce o mercado irregular das “canetas emagrecedoras” sem registro e autorização para serem vendidas no Brasil— boa parte delas oriunda do Paraguai. Leia também: Saúde: Fibras, energéticos, emagrecedores e câncer em debate
Apenas entre janeiro e maio de 2026, a Receita Federal apreendeu mais de 56 milhões de unidades de ampolas contrabandeadas. Em 2024, foram 2 700. Ou seja, um aumento de 20 mil vezes em dois anos.
E não há previsão de desaquecimento. Para ter uma ideia, no mesmo período deste ano, cerca de 2,5 milhões de caixas de análogos de GLP-1 originais foram vendidas no Brasil. Ou seja, o volume de medicamentos ilegais apreendidos é 22 vezes maior do que o número de canetas originais comercializadas.
E o cenário é ainda mais grave, pois estima-se que a Receita Federal capture apenas 5% do que é contrabandeado. Não é para menos: as doses chegam escondidas em pneus, motores de carro, caixas de doce de leite, fundos falsos de malas, cabeça de bonecas etc. E não dá para negar que o epicentro desse movimento está mesmo entre os nossos vizinhos.
O chamado “Mounjaro do Paraguai” já está na boca do povo: 81% das unidades foram apreendidas no Paraná, estado que faz fronteira com o país— a maioria das doses vem de Ciudad del Este, o polo comercial paraguaio. Se antes ela era o destino de quem cruzava a fronteira em busca de réplicas baratas de eletrônicos e perfumes, hoje atrai brasileiros interessados em remédios. O movimento é alimentado por uma rede de influenciadores— e até médicos— que ensinam na internet onde e como comprar esses produtos.
+ Foi assim que os estabelecimentos que revendem as substâncias na cidade viraram “celebridades” digitais, como a drogaria Santa Rita, que é comumente mencionada em posts e acumula mais de 70 mil seguidores no TikTok. Uma vez aqui, a revenda não encontra obstáculos, e o que seria um medicamento a ser consumido sob receita médica se dissemina por todo lugar. Mais de saude
“O produto está sendo vendido em salão de estética e em grupos de WhatsApp do condomínio. Além disso, vários agenciadores oferecem parcerias a médicos”, revela Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem). Falta transparência na indústria paraguaia
Mas as engrenagens dessa máquina começam a girar bem antes das vendas. A cadeia se inicia com a indústria do Paraguai— os principais nomes são os laboratórios Éticos, Quinfa e Indufar, responsáveis, respectivamente, pelas tirzepatidas com nome comercial Lipoless, Tirzec e TG. Muita gente usa a tradição dessas empresas no país vizinho, todas tendo cerca de 50 anos de mercado, para validar suas fórmulas.
Esse argumento, porém, não faz sentido. A Éticos nasceu voltada para medicamentos oftalmológicos e expandiu para áreas como neurologia, psiquiatria, antibióticos e hormônios sintéticos femininos. A Quinfa, por sua vez, começou fabricando medicamentos para gripe, enquanto a Indufar concentrava sua atuação em produtos como colágeno, vitaminas e paracetamol. Leia também: Fisiculturismo ganha destaque após novo desdobramento em fisiculturismo
Nenhuma delas construiu sua trajetória desenvolvendo tratamentos para obesidade ou diabetes, muito menos medicamentos à base de hormônios peptídicos— como a semaglutida, a tirzepatida e a insulina. Produzir essas moléculas não é como fabricar um comprimido qualquer. “
Os hormônios proteicos têm uma estrutura muito frágil, que se degrada com facilidade. As empresas que criaram os análogos de GLP-1 têm um conhecimento de décadas sobre como processá-los”, explica José Donato Júnior, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP). Por isso, esses medicamentos são fabricados com tecnologias altamente sofisticadas.
A semaglutida, por exemplo, é produzida por meio de DNA recombinante, enquanto a tirzepatida é obtida por síntese química de peptídeos em fase sólida. São processos complexos, que precisam de células vivas ou equipamentos de ponta, resultado de décadas de desenvolvimento e investimentos bilionários em infraestrutura. A etapa mais crítica é a purificação, quando o peptídeo é separado de todas as sobras químicas até atingir um grau de pureza superior a 99%.
Isso é bem difícil: estudos realizados nos Estados Unidos mostraram que formulações de farmácias de manipulação apresentavam pureza de apenas 14%, um nível que compromete segurança e eficácia do tratamento. “
Existe toda uma tecnologia envolvida que vai além de só produzir o remédio”, diz Donato. Dinavisa é menos rígida que a Anvisa As empresas paraguaias, até onde se sabe, não têm know-how para fabricar essas medicações.
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