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Ler matéria →'Literatura é também uma forma de vingança', diz Milton Hatoum sobre trilogia ambientada na ditadura

Crédito, Marcos Alves
- Author, Monica Vasconcelos
- Role, Da BBC News Brasil em Londres
- Published Há 2 horas
- Tempo de leitura: 15 min
"Literatura é também vingança. É uma forma de vingança, porque você exorciza seus fantasmas, pavores, traumas, quando escreve."
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A frase é do escritor amazonense Milton Hatoum, em referência a sua trilogia O Lugar Mais Sombrio, que teve o terceiro volume, Dança de Enganos, publicado em outubro de 2025.
A declaração foi dada pelo escritor em sua visita ao Reino Unido para participar do festival de literatura de Hay-on-Wye, no País de Gales, e fazer uma palestra na Biblioteca Britânica, em Londres, na Inglaterra.
Nascido em Manaus há 73 anos, de ascendência libanesa, Hatoum é ganhador de três prêmios Jabuti (pelos romances Relato de um Certo Oriente, Dois Irmãos e Cinzas do Norte) e tomou posse como membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) no último mês de abril. Leia também: Por que Áustria transformou local de nascimento de Hitler em delegacia
Seus livros são construídos em torno de dramas familiares que o escritor insere em um contexto histórico e político mais amplo. Os romances também abordam questões urbanas e ecológicas.
A ditadura militar, tema presente em Dois Irmãos e Cinzas do Norte, assume posição central em O Lugar Mais Sombrio.
Na Biblioteca Britânica, após uma palestra em que falou sobre sua história e sua literatura, o escritor contou que foi preso duas vezes durante a ditadura, a primeira aos 16 anos, e que teve amigos assassinados nesse período.
"Porque é um pesadelo. A minha geração viveu dos 12 aos 30 anos sob uma ditadura. É toda uma juventude e uma parte da vida adulta."
"A ditadura continua sendo um fantasma para nós", diz o escritor, ao citar a tentativa de golpe pela qual Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão, após decisão da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal. Mais de mundo
Na conversa com a BBC Brasil, Hatoum lembrou de suas passagens pela prisão, episódios que, segundo ele, aconteceram quando era estudante e participava de manifestações pacíficas contra a ditadura.
"Em 1968, eu participei de uma passeata na avenida W3 em Brasília e fui detido. Eu passei um dia e uma noite em uma cela na delegacia e ouvia os gritos dos estudantes universitários mais velhos que estavam sendo torturados."

Crédito, Companhia das Letras/Divulgação Leia também: Os milionários que querem pagar mais impostos no Reino Unido
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O escritor disse que as duas detenções inspiraram passagens da trilogia. Ele não falou explicitamente sobre violências sofridas durante a segunda detenção, que ocorreu em 1977, dizendo apenas que "a segunda detenção inspirou uma passagem mais longa no segundo romance da trilogia, o Pontos de Fuga.
Hatoum disse que, quando decidiu escrever a trilogia, não tinha ideia de que Bolsonaro, um presidente que elogiava torturadores da ditadura, seria eleito. "Foi um momento em que a literatura encontrou seu destino no próprio contexto político. Coincidiu com uma volta ao autoritarismo."
Na conversa com a BBC Brasil, o escritor falou ainda sobre a cena literária brasileira, citando nomes de autores que tem lido. Entre os nomes, estão a escritora cearense Socorro Acioli e a mineira Ana Maria Marques, "uma poeta de valor".


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