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Laila Garin encarna Édith Piaf e suas contradições em novo musical biográfico

Uma estação de trem é o avesso do museu —ali ninguém se fixa, os encontros são breves e o apito das partidas abafa as despedidas

Laila Garin encarna Édith Piaf e suas contradições em novo musical biográfico

Uma estação de trem é o avesso do museu —ali ninguém se fixa, os encontros são breves e o apito das partidas abafa as despedidas. É nesse território de transitoriedade e memória que se estabelece a narrativa de " Piaf– Eu não me arrependo ", superprodução da Aventura em cartaz no Teatro Bradesco. O espetáculo deixa de lado a cronologia comportada para olhar para uma Édith Piaf que viveu em permanente estado de desembarque —acumulando tragédias, acidentes e paixões sem nunca pedir desculpas pelo caos que ela deixava para trás.

Décadas após a morte da cantora, Laila Garin evita a imitação mecânica do mito para buscar a força de sua presença em cena. O encontro entre a atriz baiana —filha de pai francês e mãe brasileira— e a artista francesa passa longe do mero resumo biográfico. Sob a direção de Sergio Módena e amparada por uma dramaturgia inédita de Newton Moreno e Alessandro Toller, a montagem investiga o impacto de uma trajetória artística e pessoal guiada pela recusa ao meio-termo.

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A vida de Édith Giovanna Gassion (1915-1963) acumula episódios que a historiografia cultural prefere romantizar. Criada entre o chão frio das calçadas de Pigalle, o cotidiano opaco de um bordel gerido por sua avó paterna na Normandia e a poeira das caravanas circenses de seu pai, a menina descoberta por Louis Leplée em 1935 encontrou no canto o seu único instrumento de afirmação. Foi Leplée quem a tirou das ruas e a levou para o cabaré Le Gerny’s, na Champs-Elysées, batizando-a como "La Môme Piaf" —o pequeno pardal.

Mais tarde, Piaf enfrentou perdas marcantes que moldaram sua sensibilidade artística, como a morte trágica do pugilista Marcel Cerdan, campeão mundial dos pesos-médios e o grande amor de sua vida, vítima de um acidente aéreo em 1949 nas Ilhas Açores quando viajava para encontrá-la em Nova York. Abalada emocionalmente pela perda de Cerdan e sofrendo de dores crônicas causadas por artrite reumatoide, a cantora recorreu ao abuso de álcool e ao uso contínuo de morfina. Contudo, a nova encenação faz questão de resgatar um aspecto menos explorado da artista, a sua dimensão política e sua autonomia em tempos de opressão.

Durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial, Piaf abrigou clandestinos em bordéis e colaborou com a fuga de prisioneiros de guerra para os quais se apresentava em acampamentos alemães, distribuindo documentos falsos e fotos para evasão. " A Piaf é uma figura muito política", analisa o diretor Sergio Módena. Leia também: Festival de Cinema de Brasília, o mais antigo do país, é cancelado por falta

No texto da Pam Gems [dramaturga britânica cuja versão de 1978 foi montada no Brasil por Bibi Ferreira em 1982] isso é pouco citado e no cinema nem se fala. Mas boa parte do nosso espetáculo é dedicada a isso. São relatos de pessoas que viveram com ela.

Piaf escondeu gente em casa e ajudou prisioneiros a fugir. " " A dramaturgia não está interessada em fazer apenas uma narrativa informativa ou um biográfico factual sobre o que aconteceu em cada ano", complementa o encenador.

Módena partiu dessa premissa para rejeitar uma estrutura cênica que fosse comportada ou estritamente linear. Em vez de uma sequência didática de fatos, o diretor estabeleceu como espaço de cena uma monumental estação de trem, metáfora para um território de passagens, encontros e memórias que reaparecem em cena. Ali, a trajetória de Piaf é orquestrada em um trânsito constante entre o drama, a comédia, a tragédia, a pantomima e o melodrama, sem concessões à fórmula fácil.

A orquestra, sob a direção musical de Claudia Elizeu, abandona o isolamento do fosso tradicional e ganha o palco composta exclusivamente por mulheres. Nesse ambiente de constante tensão poética, Laila Garin assume a condução do espetáculo em um protagonismo absoluto. Garin projetou-se nacionalmente em 2013 ao encarnar Elis Regina em "Elis, A Musical".

O trabalho lhe rendeu os prêmios Shell e APCA, consolidando sua reputação em montagens exigentes como "Gota d’Água A Seco", pela qual venceu os prêmios Cesgranrio, Bibi Ferreira e Reverência, e " Mais de entretenimento

A Hora da Estrela ou O Canto de Macabéa", além de trabalhos no audiovisual em séries como "3%" e "Dom". Para interpretar a cantora francesa, o trabalho de preparação exigiu meses de dedicação rigorosa ao lado da fonoaudióloga Silvia Pinho e da professora de canto Amélia Gomes para reconfigurar a embocadura e alcançar a ressonância nasal característica do timbre francês. A atriz detalha que o volume de texto e a responsabilidade de conduzir a narrativa em primeira pessoa impuseram um ritmo intenso de ensaios —com jornadas diárias de até nove horas em um período de dois meses e meio.

Para Laila, o apuro técnico do canto e da fala serve como extensão direta da presença física em cena. " No caso de Piaf, acho que a voz é o que mais existiu ali.

É através da voz que ela diz o quanto não quer morrer e o quanto ama desesperadamente a vida. " O percurso coloca Garin inevitavelmente diante do rastro deixado por Bibi Ferreira (1922-2019), intérprete histórica de papéis célebres como Joana em "Gota d’Água" e da própria Piaf no cenário nacional. Leia também: A Casa do Dragão | Episódio final aumenta em mais de 1000% as menções da série

A atriz baiana, contudo, encara a referência sem sobressaltos ou comparações paralisantes. " Eu não tenho medo, me inspiro", afirma Garin sobre a referência de Bibi.

Se há uma década o público descobria a extensão do trabalho da atriz ao vê-la no papel de Elis Regina, a montagem atual tem como ponto de partida uma relação de maturidade e cumplicidade já estabelecida com a plateia. Para a direção, a escolha da protagonista foi um passo intuitivo no desenvolvimento do projeto produzido pela Aventura, de Aniela Jordan, Luiz Calainho e Giulia Jordan. "

A Laila estava talhada para fazer esse papel", pontua Módena. " Eu costumo dizer para ela:

não fui eu quem te escolheu, foi a própria personagem. O que essa mulher faz nos ensaios todos os dias é algo impressionante. Para acompanhar essa força, me atentei em escolher um elenco que tivesse total domínio da palavra e do texto dramático, porque este é um espetáculo focado na densidade da cena", afirma o diretor.

Módena ressalta ainda o papel de Luiza Viana, alternante de Garin no papel principal: "É uma tarefa extremamente desafiadora, porque a protagonista praticamente não sai do palco. E a Luiza arrebenta fazendo também, garantindo o vigor do espetáculo em uma jornada tão exaustiva.

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