
Crédito, AFP via Getty Images
- Author, João Caminoto
- Role, De Paris para a BBC News Brasil
- 21 abril 2026
- Tempo de leitura: 9 min
A jornalista argentina Elisabetta Piqué tem uma intimidade incomum com os bastidores do poder no Vaticano que torna muito especial o seu olhar sobre o pontificado de Leão 14. O papa Francisco, inclusive, batizou os seus filhos e celebrou o seu casamento.
O mundo perdeu Francisco há um ano, em 21 de abril de 2025, aos 88 anos. Ele foi o primeiro papa sul-americano e jesuíta da história da Igreja Católica.
Correspondente em Roma do jornal argentino La Nación há mais de vinte anos e uma das mais respeitadas vaticanistas do mundo, Piqué acaba de lançar, em coautoria com o marido, o jornalista irlandês Gerard O'Connell, correspondente da revista America Magazine no Vaticano, o livro The Election of Pope Leon XIV - The Last Surprise of Pope Francis ("A eleição do papa Leão XIV - a última surpresa do papa Francisco", em tradução literal).
A obra — lançada na Europa em inglês, francês e espanhol, mas ainda sem previsão de lançamento no Brasil — reconstitui, com detalhes inéditos, os dias que separaram a morte de Francisco da eleição de Robert Francis Prevost, o primeiro papa americano da história, em 8 de maio do ano passado.
O livro revela que Prevost sabia que era candidato, mas foi para o conclave convicto de que um americano jamais seria eleito. Leia também: Quem foi São Jorge, padroeiro do Rio de Janeiro e da Inglaterra
Também aponta que o papa Francisco deixou sinais de que não queria um cardeal da ala mais conservadora como sucessor e que a candidatura de Prevost foi construída nos bastidores com inteligência cirúrgica.
O próprio Francisco, embora nunca pudesse escolher o seu sucessor, criou todas as condições para que aquela eleição fosse possível, segundo Piqué. Em um livro recente citado pela vaticanista, Francisco chegou a dizer: "Prevost é um homem santo".
Mas o pontificado de Leão 14, prestes a completar seu primeiro ano, já não cabe mais apenas nos bastidores do conclave. Nas últimas semanas, o papa, visto como mais sereno e silencioso do que seu antecessor, deu uma demonstração de que serenidade não significa passividade.
Em momento em que o governo de Donald Trump intensificava sua retórica sobre guerras justas e deportações em massa, Leão 14 respondeu com um tom que surpreendeu analistas: declarou que a guerra em curso não é justa, defendeu os migrantes venezuelanos — causa que conhece de perto desde os tempos em que era bispo no Peru — e recusou-se a entrar em confronto direto com Washington, e também a calar-se.
"Não vou parar de fazer o que é meu dever como chefe da Igreja Católica", disse. Foi Trump quem o criticou primeiro. O papa não procurou o embate — mas não se esquivou. Mais de mundo
Para Piqué, esta postura não é uma novidade nem uma ruptura, mas a continuação de uma tradição vaticana de soft power para influenciar as decisões e comportamentos de outros atores do tabuleiro político global.
O que é novo é o contexto — e o fato de o papa ser americano. Nascido em Chicago, Leão 14 conhece a dinâmica política dos Estados Unidos como nenhum de seus predecessores. E isso, nota a vaticanista, transformou o que antes era visto como um obstáculo à sua eleição em uma das suas maiores forças. Leia também: Tomar chuva faz bem? Veja quatro benefícios apontados pela ciência
Piqué falou à BBC News Brasil sobre o que o pontificado de Leão 14 já revela — e o que ainda está por revelar.

Crédito, Arquivo pessoal/Divulgação
BBC News Brasil - Quase um ano após o conclave, as expectativas em torno do papa Leão 14 estão sendo atendidas?
Elisabetta Piqué - Completamente, sim. E acho que, além de todas as diferenças — claro, não podemos ter uma fotocópia do papa Francisco, não é um clone. Ele tem o seu estilo, tem a sua própria mente — ele está seguindo o papa Francisco. E o que vimos nos últimos dias confirma isso.
BBC News Brasil - A senhora se refere às declarações endereçadas a Donald Trump?

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