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Charles Miller: quem foi o 'pai do futebol brasileiro' com sangue escocês Legenda da foto, Time de futebol do Atlético São Paulo, 1904

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Charles Miller: quem foi o 'pai do futebol brasileiro' com sangue escocês
Time de futebol do Atlético São Paulo, 1904. Charles Miller está no meio da primeira fila com a bola.
Legenda da foto, Time de futebol do Atlético São Paulo, 1904. Charles Miller está no meio da primeira fila com a bola
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    • Author, Giulia Granchi
    • Role, Da BBC News Brasil em Londres
  • Published Há 4 horas
  • Tempo de leitura: 7 min

Nesta quarta-feira, o Brasil enfrenta a Escócia em Miami, pela Copa do Mundo de 2026. Mas o futebol brasileiro já tinha uma ligação com a Escócia mais de 130 anos antes desse jogo— bem no início da própria história do esporte no país. O nome por trás disso é Charles Miller, o homem conhecido até hoje como o "pai do futebol brasileiro".

O pai de Charles, John Miller, nasceu em 1844 na pequena localidade de Fairlie, na costa oeste da Escócia, um dos dez filhos de Andrew Miller e Elizabeth Brown. Ainda jovem, emigrou para o Brasil para trabalhar como funcionário da estrada de ferro São Paulo Railway. Em 1870, casou-se com Carlota Fox, brasileira de ascendência inglesa. Quatro anos depois, em 1874, nasceu Charles William Miller, em São Paulo.

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Charles passou a primeira década de vida no Brasil.

Aos dez anos, foi mandado para estudar na Inglaterra, na Banister Court School, em Southampton— uma escolha comum entre famílias britânicas radicadas no exterior na época. Foi ali que conheceu o futebol, então pouco mais que um passatempo escolar inglês, e se destacou rapidamente: chegou a jogar pelo St Mary's FC, equipe que mais tarde se tornaria o Southampton FC.

Foi também em Southampton que Miller cruzou caminho com o Corinthian Football Club, clube amador de Londres famoso por suas turnês internacionais. Em 1892, o Corinthian viajou à cidade para enfrentar uma seleção do condado de Hampshire, mas chegou com apenas dez jogadores. Um professor sugeriu que completassem o time com aquele aluno promissor— e Miller, jogando como ponta-esquerda, foi o destaque da partida. Leia também: francisco joseli parente camelo

Segundo a história contada pelo próprio Corinthian até hoje, o clube ficou tão impressionado que, ao saber que aquele seria o último jogo de Miller na Inglaterra antes de voltar ao Brasil, deu a ele de despedida duas bolas de futebol. Essa versão específica do presente não aparece, porém, nas biografias mais rigorosas sobre Miller, que mencionam apenas que ele levou bolas na bagagem, sem atribuir a origem delas ao clube inglês.

A volta ao Brasil e a fundação dos primeiros clubes

Em 1894, quando tinha por volta de seus 20 anos, Miller voltou a São Paulo depois de uma década na Inglaterra. Na bagagem, as duas bolas e um exemplar do regulamento oficial da associação de futebol de Hampshire.

Reza a lenda— repetida em praticamente todos os relatos sobre sua volta, embora sem fonte documental primária— que o próprio pai, ao vê-lo desembarcar no porto de Santos, perguntou o que era aquilo que ele trazia. "Meu diploma", teria respondido Charles. "Seu filho se formou em futebol."

O esporte era completamente desconhecido no Brasil da época. A população local preferia remo e corridas de cavalo, e via aquela bola redonda com certa desconfiança— alguns chegaram a confundi-la com os equipamentos usados em outras atividades físicas da moda. Os poucos curiosos eram majoritariamente outros britânicos expatriados, ligados às ferrovias e ao comércio.

Foi nesse cenário que Miller organizou o que teria sido a primeira partida oficial de futebol do Brasil, em: o time da São Paulo Railway, a empresa britânica onde trabalhava, contra a equipe da Companhia de Gás, também formada por britânicos radicados em São Paulo.

O jogo aconteceu na Várzea do Carmo, num terreno improvisado no bairro do Brás. Décadas depois, em entrevista à Gazeta Esportiva, Miller contaria que a primeira tarefa do dia foi enxotar os bois de uma companhia de viação que pastavam tranquilamente no campo. A partida terminou 4 a 2 para o time de Miller, que marcou dois dos quatro gols. Leia também: jogos da escocia na copa 2026

Foi nessa mesma época que Miller também criou o departamento de futebol dentro do São Paulo Athletic Club (SPAC)— clube esportivo já existente desde 1888, mas até então dedicado a outras modalidades —, que se tornaria a base institucional a partir da qual o futebol se organizaria na cidade.

Seis anos depois, em, Miller ajudou a fundar a Liga Paulista de Football— a primeira liga de futebol organizada do Brasil. Cinco clubes participaram da fundação: o próprio SPAC, o Internacional, o Mackenzie, o Germânia e o Paulistano.

Miller seguiu envolvido com o clube nos anos seguintes, inclusive como goleiro a partir de 1906.

Em 1910, dezoito anos depois daquela partida em Hampshire, foi Miller quem articulou a vinda do Corinthian Football Club para uma turnê pelo Brasil. Os ingleses jogaram seis partidas e venceram todas, com agregado de 38 a 6— incluindo a goleada final, por 8 a 2, contra o time paulista de Miller, que jogou a partida.

Cinco operários ferroviários presentes ao jogo ficaram tão impressionados com o estilo do Corinthian que decidiram fundar seu próprio clube. Foi Miller quem sugeriu o nome em homenagem ao time inglês— batizando o que se tornaria o Sport Club Corinthians Paulista, um dos maiores clubes do país até hoje.

Outro escocês, outra história


Montagem com três imagens lado a lado. À esquerda, uma fotografia em preto e branco granulada de Charles Miller jovem, vestindo uma camisa de futebol antiga de gola listrada, com bigode e cabelo penteado para o lado. No centro, uma fotografia colorida de quatro jogadores da seleção brasileira em campo, comemorando um gol, vestindo o uniforme reserva azul-marinho com detalhes rosa — visíveis os números 20, 5 (Casemiro), 7 e 9. À direita, um retrato antigo e desgastado de Thomas Donohoe, homem de bigode vestindo terno, com a mão apoiada no peito.

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