O Inferno de Dante Alighieri, primeira parte da Divina Comédia, talvez não seja apenas um dos mais importantes poemas da literatura ocidental. Segundo um novo estudo apresentado na Assembleia Geral da EGU 2026, em Viena, o poeta florentino antecipou em 500 anos os conceitos da meteorítica moderna — a ciência que estuda o impacto de corpos celestes na Terra.
Timothy Burbery, da Universidade Marshall (Virgínia Ocidental, EUA), propôs uma leitura inusitada da queda de Satanás descrita na obra. Em vez de uma tragédia espiritual, o pesquisador vê ali o relato de um impacto planetário de alta velocidade: Lúcifer seria um impactor oblongo, do tamanho de um asteroide e comparável ao objeto interestelar Oumuamua, que se choca contra o Hemisfério Sul e se abre caminho até o centro da Terra.
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Um evento de extinção
A magnitude da colisão, segundo Burbery, é equivalente à do asteroide Chicxulub (K-Pg), que há 66 milhões de anos dizimou os dinossauros. A força do impacto teria recuado o Hemisfério Norte, e o material deslocado teria se erguido para formar a montanha do Purgatório como um pico central — uma estrutura geológica comum em grandes bacias de impacto.

Os nove círculos do Inferno, nessa leitura, deixam de ser uma alegoria do pecado e passam a descrever com precisão notável a morfologia de crateras de múltiplos anéis, como as encontradas na Lua, em Vênus e em Marte. Dante teria intuído, assim, a geometria concêntrica e em terraços dessas formações, antecipando conceitos que a ciência só viria a descrever séculos depois.
Por que isso importa
Burbery argumenta que, ao descrever a queda de Lúcifer como um evento físico tangível — um impacto de alta velocidade que deforma a crosta e chega ao núcleo da Terra — Dante desafiou o dogma aristotélico de que os céus são perfeitos e imutáveis. O poeta ajudou a pavimentar o caminho para o reconhecimento de que corpos celestes podem ser agentes de transformação geológica, uma ideia que só seria formalizada com o surgimento da meteorítica. Mais de tecnologia

O estudo também sugere que narrativas antigas podem conter “verdade planetárias” codificadas, o que Burbery chama de “geomitologia literária”. Essa abordagem interdisciplinar poderia até auxiliar os programas atuais de defesa planetária, ao demonstrar há quanto tempo a humanidade reconhece (ainda que de forma intuitiva) os riscos de impactos extraterrestres. Leia também: Baruch Spinoza, filósofo: “Não rir, nem lamentar, nem odiar, mas compreender.”
A Divina Comédia, portanto, não é apenas um monumento da literatura — é também um experimento mental em geofísica que só agora a ciência começa a compreender plenamente.
Lucas Soares é editor de Ciência e Espaço no Olhar Digital e formado em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
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