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'Há cobrança para que a gente faça arte política': Adriana Varejão critica

'Há cobrança para que a gente faça arte política': Adriana Varejão critica rótulo imposto a artistas latinos Crédito, Patrícia de Melo Moreira/AFP via Getty Images

'Há cobrança para que a gente faça arte política': Adriana Varejão critica
'Há cobrança para que a gente faça arte política': Adriana Varejão critica rótulo imposto a artistas latinos
Adriana Varejão, uma mulher de cabelos longos e ondulados, posa de braços cruzados diante de uma instalação artística que remete a carne e vísceras expostas, em tons intensos de vermelho e rosa. Ao fundo, azulejos claros contrastam com a obra orgânica e dramática, criando uma imagem que mistura delicadeza e impacto visual.

Crédito, Patrícia de Melo Moreira/AFP via Getty Images

Legenda da foto, A artista plástica Adriana Varejão em abertura de mostra em Lisboa em 2025
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    • Author, Pedro Martins
    • Role, Da BBC News Brasil em Londres
  • Published Há 41 minutos
  • Tempo de leitura: 8 min

É caminhando sobre o fio de uma navalha que Adriana Varejão, ao lado de Rosana Paulino, construiu o pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza, a mostra de arte mais importante do mundo, que abriu suas portas no último fim de semana.

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Esta tem sido considerada uma das edições mais controversas do evento em seus mais de cem anos, depois que a organização anunciou a reabertura do pavilhão da Rússia, lacrado desde 2022, após a invasão do Kremlin à Ucrânia.

O conflito se intensificou após a organização da Bienal ignorar os artistas que pediam retaliação a Israel por ter, junto dos Estados Unidos, iniciado uma guerra contra o Irã. Os iranianos, aliás, se retiraram do evento.

O presidente da mostra, Pietrangelo Buttafuoco, disse na semana passada que é contra a censura a qualquer artista ou país. Isso levou o júri da mostra, liderado pela brasileira Solange Farkas, a pedir demissão às vésperas da abertura. Leia também: O que foi a Revolução Cultural e como ela moldou a história da China há 60 anos?

O evento promove então uma votação pública para eleger seus vencedores, mas parte dos artistas e países se recusa a receber o Leão de Ouro, a láurea máxima das artes visuais, equivalente ao Oscar no cinema ou ao Nobel na literatura.

Mas Adriana Varejão está acostumada ao fio da navalha. A carioca, de 61 anos, passou suas últimas quatro décadas representando, na pintura e na escultura, os cortes e rasgos figurativos que a colonização deixou na sociedade, algo que ela vê como um processo tão violento quanto as guerras em curso.

Uma instalação artística ocupa paredes brancas com rasgos verticais preenchidos por formas avermelhadas e orgânicas que lembram carne exposta.

Crédito, Andrea Avezzù/Divulgação

Legenda da foto, Obras de Adriana Varejão no pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza

Na mostra Comigo Ninguém Pode, exposta no pavilhão brasileiro, Varejão apresenta obras de acervo e inéditas. Entre elas estão as releituras de azulejos portugueses pelas quais ficou conhecida. São 12 pinturas cheias de incisões — como se as peças estivessem quebradas — que subvertem uma expressão central da arte barroca.

Ela exibe ainda uma instalação de quase cem metros que leva as paredes e vigas do pavilhão explodirem em vísceras — moldadas em materiais como tinta óleo, resina e barro —, como se escancarasse a violência por trás das instituições. Mais de mundo

A ideia é que, sob a aparência refinada de certos espaços, está o sangue derramado de tantos brasileiros, algo que se recusa a permanecer invisível em tempos em que reivindicações, principalmente as das chamadas minorias sociais, pressionam estruturas antes vistas como inabaláveis.

Um painel horizontal reúne desenhos em tons de vermelho e azul que remetem a figuras humanas, rostos e formas orgânicas em movimento. A obra, instalada sob uma estrutura de concreto aparente, mistura referências aos azulejos tradicionais com traços fluidos e fragmentados.

Crédito, Andrea Avezzù/Divulgação

Legenda da foto, Obras de Adriana Varejão no pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza inspiradas em azulejos portugueses

Ao menos esta é a interpretação que prevalece entre críticos e curadores de arte. Mas a artista vê com reticência essa leitura, que às vezes se sobressai, segundo ela, à plasticidade de seu trabalho, feito a partir da experimentação de diversas técnicas e materiais, em processos que podem levar meses. Leia também: Os instrutores de fitness criados com IA que prometem resultados irreais

"Enquanto latino-americana, vejo que há uma cobrança para que a gente faça arte política, porque existe uma tradição. Existe uma expectativa de que você, como latino-americano, vivendo nos países colonizados, que tiveram décadas de ditaduras, faça arte crítica, política. Mas as ruínas são a história do mundo, não só do Brasil", ela afirma.

Varejão avalia que, não raro, essa cobrança pode vir da própria América Latina e que, no exterior, sua obra é lida de maneiras diferentes.

Ela se lembra de uma exposição na Espanha, país com tradição da pintura de carne em suas naturezas-mortas, os bodegones, na qual um visitante ficou diante de seus azulejos sangrentos por 40 minutos, em um fascínio que ela acredita estar mais associado ao que ele via concretamente do que aos significados possíveis da obra.

"Não é uma obra só sobre mensagem. Ela não ilustra uma teoria, um assunto", diz ela. "Esse espanhol era um carniceiro e disse que aquilo era uma das coisas mais incríveis que já tinha visto. Pra mim, foi um grande elogio, porque vinha de um homem que lidava com a matéria que eu estava tentando representar."

Em uma parede branca minimalista, uma pequena obra de azulejos exibe cortes verticais que lembram feridas abertas, enquanto estruturas orgânicas e escuras percorrem o espaço como fissuras ou cicatrizes.

Crédito, Andrea Avezzù/Divulgação

Legenda da foto, Instalação e pintura de Adriana Varejão no pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza retratam a explosão da carne em parede e azulejos
A silhueta de um homem observa uma obra formada por azulejos azuis de inspiração portuguesa rasgados por aberturas que revelam uma massa vermelha semelhante a carne e sangue.
Legenda da foto, A obra de arte Pele Tatuada a Moda de Azulejaria, de Adriana Varejão, em leilão em Nova York realizado em 2007

O ringue político visual

Em uma parede branca marcada por fissuras avermelhadas que parecem atravessar a arquitetura, uma obra oval emoldurada em madeira revela uma paisagem vegetal parcialmente rasgada por uma abertura orgânica e visceral.
Legenda da foto, Obras de Adriana Varejão no pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza
A foto mostra uma galeria de arte contemporânea de paredes brancas e espaço amplo. Em primeiro plano, uma coluna revestida de azulejos claros parece rasgada, revelando formas vermelhas e orgânicas que lembram carne ou vísceras, criando um contraste entre a superfície limpa e o interior brutal da estrutura. Ao fundo, três quadros com pinceladas azuis inspiradas em azulejos portugueses estão expostos na parede curva do salão iluminado.
Legenda da foto, Obras de Adriana Varejão em exposição na galeria Gagosian, em Roma, em 2016
Uma estrutura revestida de azulejos brancos corta o centro de um espaço de concreto aparente, como uma parede fragmentada ou aberta à força. As bordas irregulares revelam camadas avermelhadas e orgânicas que lembram carne exposta, criando um contraste intenso entre a geometria limpa dos azulejos e a sensação de violência da obra.
Legenda da foto, Obra de Adriana Varejão em pavilhão dedicado à sua obra no Instituto Inhotim, um museu a céu aberto em Brumadinho (MG)
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