" Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei."
As desconcertantes primeiras frases do romance " O Estrangeiro", que Albert Camus publicou em 1942, estão ainda hoje entre as mais lembradas de toda a literatura francesa, e não à toa impressionaram o então adolescente François Ozon, quando leu o livro pela primeira vez, na década de 1980. Mas o futuro cineasta não foi especialmente marcado pela obra como um todo na época –o livro era mais um daqueles clássicos franceses que todos eram obrigados a ler no colégio.
Foi só quando o releu em 2024, aos 56 anos, é que esse grande marco da literatura existencialista de fato falou à sensibilidade do diretor, que decidiu transformá-lo em filme. " Fiquei impressionado com o quanto ainda é poderoso, misterioso e belamente escrito.
E me vieram tantas perguntas sobre tudo ali", disse Ozon, no último Festival de Veneza, quando exibiu o filme na competição. " Fiquei animado para fazer uma adaptação, mas também com muito medo, porque é uma obra-prima muito conhecida.
Então eu sabia que todos estariam me esperando com uma arma na mão. " Embora não tenha sido recebido na base da artilharia em sua estreia em Veneza, o filme acabou alvo de críticas por uma suposta cosmetização da história de Meursault.
Interpretado por Benjamin Voisin, o personagem é um francês niilista que leva uma vida burocrática e apática na Argélia colonizada por seu país. Ele até ensaia algum interesse —como no romance com a bela Marie—, mas seu grau de indiferença é tão profundo que nem esse envolvimento o mobiliza: trata-o com o mesmo desdém com que reage à morte da própria mãe. É só quando certo dia, em um impulso, Meursault assassina um árabe em uma praia é que parece relembrar que tem sangue nas veias.

É submetido a um julgamento cheio de detalhes absurdos, mas àquela altura já não havia nada capaz de obliterar seu desencantamento com o mundo. A vida de Meursault se tornaria um epítome da falta de sentido da existência humana de meados do século 20. Muitos críticos acharam que o preto e branco escolhido por Ozon embeleza demais as imagens. Leia também: Como Filho do Piseiro transformou uma batida em símbolo pop do forró atual
" Aquele mundo do livro é um mundo perdido. Nós o redescobrimos, viajamos ao passado.
E, pelo fato de ser um livro filosófico, eu tinha a sensação de que as cores nos perturbariam, afastando-nos da pureza, da abstração e do pensamento de Camus. Sem cores, seria mais fácil criar a atmosfera, o peso, o sol. E a estranheza também.
Acho que em preto e branco, entramos no mundo do colonialismo", defende-se o cineasta. " Mas teve outro motivo, econômico.
Eu não tinha o orçamento de um blockbuster para recriar Argel como eu queria. Então, filmar em preto e branco simplificou muitas coisas", reconhece Ozon, que não conseguiu rodar o longa na Argélia por questões políticas atuais no país –as filmagens se deram no Marrocos. Embora preserve o núcleo da obra de Albert Camus, o filme adota uma leitura afinada com releituras contemporâneas de "

O Estrangeiro", que identificam um resquício de superioridade colonial no modo como se trata o argelino assassinado. François Ozon não demoniza o autor, mas faz uma escolha significativa: em vez de abrir com a morte da mãe de Meursault, inicia a narrativa com sua chegada à prisão. Ali, ao ser questionado por um companheiro de cela sobre o motivo de estar ali, ele responde de forma direta: " Mais de entretenimento
Eu matei um árabe". " Para nós, atualmente, essa é uma frase de fato chocante.
E começar por ela foi uma forma de explicar qual é a minha visão do livro hoje", diz Ozon. " Porque é impossível hoje invisibilizar o árabe como foi feito em 1942.
Na época, isso não era absolutamente racista. Era parte do processo de escrita descrever um arquétipo de personagem. " Leia também: Zayn Malik diz que quer retornar ao Brasil sem resquícios do One Direction
Até a cena final do longa desloca o olhar para quem, na obra de Camus, aparece quase de passagem —em parte porque o romance privilegia questões de outra ordem, mais existenciais do que políticas. Para Ozon, isso não diminui o livro. "
É por isso que ainda é relevante como livro. Pode levar alguém a uma crise como a de Meursault, com o mundo. Eu não sei por que ele matou [o árabe].
Mas ele queria quebrar a harmonia da época. " A dificuldade de compreender o mal-estar do personagem foi um dos impulsos para Ozon fazer o filme.
" Nessa história tudo é tão ambíguo, tão misterioso. Eu queria manter isso", diz o cineasta, que busca em seu novo trabalho instigar, mas não tanto provocar como tantas vezes fez desde que foi revelado, com "Sitcom - Nossa Linda Família", de 1998.
" Não quis a facilidade, fazer nada muito explicativo. Se fizesse isso, seria um filme da Netflix.
O que, definitivamente, não é o que eu queria fazer. " Pensando bem, Ozon ainda adora uma provocação.
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