Quem cuida de quem cuidará de você? Médicos e estudantes estão sob alto estresse
Ler matéria →Fibras: o nutriente ignorado que ajuda a espantar as principais doenças da atualidade As fibras são anti-câncer, têm impacto no coração, na glicemia, na microbiota e até no envelhecimento saudável. Mas não comemos o suficiente delas Você percebeu como, na última década, o intestino passou por uma verdadeira transformação científica e cultural?
Um rebranding, como diriam os departamentos de marketing das empresas. Durante muito tempo, tudo que era relacionado a esse órgão tinha uma conotação quase constrangedora. Mas, impulsionado por pesquisas de ponta— que vasculham dos micro-organismos que vivem ali, a microbiota, à sua conexão com o cérebro —, o intestino deixou de ocupar um papel secundário e escanteado para se tornar um dos maiores protagonistas da medicina moderna.
Leia no AINotícia: Saúde: Fibras, Pressão, Ansiedade e Preço de Medicamentos
Um protagonista cujo bom trabalho depende de um ingrediente que não goza do apelo de outros nutrientes reverenciados por aí, como a proteína. Estamos falando das fibras. Parece um paradoxo— e é!
A popularidade da saúde intestinal nos consultórios, nas redes sociais e nas prateleiras do mercado, medida pela oferta de protocolos, tendências e produtos vendidos com a promessa de equilibrar o órgão e sua microbiota, não alavancou o consumo da substância que, já amparada em um consenso científico, ajuda de fato o intestino a dar o seu melhor ao organismo. As fibras continuam em falta no prato do brasileiro. E, se quisermos tirar proveito das múltiplas vantagens de um intestino saudável, a situação precisa mudar.
Ninguém duvida mais da ação direta e indireta dessa longa e complexa estrutura do aparelho digestivo em diversos sistemas do corpo humano. Os estímulos, as bactérias e as moléculas produzidos pelo intestino influenciam a imunidade, as artérias e até a mente. Quer uma prova viva e popular desse poder? Leia também: Radar da Saúde ganha destaque após novo desdobramento em radar da saúde
As canetas emagrecedoras, como Wegovy e Mounjaro, sensação dos laboratórios e farmácias, nada mais são que análogos de um hormônio intestinal que regula a fome e a saciedade, promovendo a tão esperada perda de peso. Sim, o trabalho do intestino vai muito além da digestão. E o que as fibras têm a ver com isso tudo?
Ora, se elas puderem dar o ar da graça nesse órgão que é uma autêntica central metabólica, irão favorecer uma série de mecanismos que protegem o corpo e colaboram inclusive para emagrecer. Acontece que, enquanto outros nutrientes e dietas são alavancados por aí, a fibra permanece negligenciada. As pessoas correm atrás de proteína, creatina, colágeno e vitaminas e se esquecem de algo que dá em árvore ou cresce no solo e comprovadamente ajuda a modular a fome e os níveis de açúcar no sangue, para citar algumas de suas virtudes.
“Embora historicamente as fibras tenham sido vistas como substâncias que não fornecem energia da mesma forma que carboidratos, proteínas e gorduras, passamos a reconhecê-las como componentes essenciais à saúde“, contextualiza a nutricionista Manuela Dolinsky, presidente do Conselho Federal de Nutrição (CFN). “ Elas desempenham funções fisiológicas vitais, sendo indispensáveis para a manutenção da saúde gastrointestinal e para a prevenção de doenças crônicas”, resume.
Mesmo assim, a maioria da população não faz ideia da quantidade de fibras que ingere no dia a dia. E está longe de atingir as recomendações diárias. Entidades como a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) sugerem uma ingestão média de 25 gramas por dia para mulheres e 30 para homens.
“Mas estudos indicam que o consumo no Brasil é menos da metade do mínimo recomendado“, alerta Dolinsky. Em países que comem ainda mais alimentos ultraprocessados que o Brasil, como os Estados Unidos, boa parte da população ingere apenas 10 gramas de fibra por dia, uma quantidade baixíssima. Em meio a essa carência, a onda wellness até que tentou ajudar: em 2025, surgiu a tendência conhecida como Fibermaxxing, que buscou emplacar a fibra como a “nova proteína”. Mais de saude
Influenciadores, especialmente da geração Z, passaram a publicar vídeos no TikTok falando sobre saúde intestinal, microbiota e estratégias para aumentar o consumo na alimentação— muitas delas envolvendo, claro, suplementos. Não demorou para que supermercados fossem inundados por pacotes de barrinhas e biscoitos com fibra adicionada. A questão é que a gente precisa das versões naturalmente fornecidas pelos vegetais, que vêm escoltadas de outras substâncias bem-vindas.
Classificadas como carboidratos não digeríveis, as fibras estão amplamente presentes no reino vegetal, e são formadas por componentes estruturais das plantas, como celulose, hemicelulose, pectinas, lignina etc. Diferentemente de açúcares e amidos, que são totalmente degradados pelo organismo, elas possuem ligações químicas que não são quebradas por nenhuma enzima presente no corpo humano.
Assim, as fibras atravessam boa parte do trato gastrointestinal quase intactas. E é justamente por isso que fazem toda a diferença. Durante muito tempo, achou-se que as fibras não ofereciam nada de mais— ajudavam a formar o bolo fecal e olhe lá. Leia também: Saúde: Fibras, Pressão, Ansiedade e Preço de Medicamentos
Uma visão bastante equivocada, como provaram diversas descobertas a respeito. + Por que as pessoas estão comendo menos fibras?
Bom, a resposta passa diretamente pela transformação do padrão alimentar moderno. Durante milhares de anos, a alimentação humana era naturalmente rica nesse componente, já que se baseava em frutas, raízes, sementes, leguminosas e grãos integrais. Ou seja, nossa espécie evoluiu consumindo fibra aos montes.
Tanto que, nas sociedades tradicionais, a presença de farelos, cascas e estruturas fibrosas era algo comum e incontestável. Esse cenário começou a mudar, no entanto, entre o fim do século 19 e o início do 20, com o avanço da industrialização e do refinamento dos grãos. A remoção do farelo e do germe permitia produzir farinhas mais brancas, macias e duráveis— características associadas, na época, a maior pureza, modernidade e melhor digestibilidade.
Nesse contexto, as fibras passaram a ser vistas como componentes “grosseiros”, irritantes e pouco úteis nutricionalmente. Depois disso, outra distorção roubou a cena. Como não eram totalmente digeridas pelo corpo e podiam se ligar a minerais como ferro, zinco e cálcio, reduzindo parcialmente sua absorção no intestino, pesquisadores passaram a enxergá-las com maus olhos.
Em uma época em que a nutrição estava fortemente focada no combate às deficiências nutricionais e no máximo aproveitamento calórico dos alimentos, as fibras foram tratadas como um “resíduo” vegetal sem valor biológico. Um verdadeiro “antinutriente”. A virada começou a ganhar força entre os anos 1960 e 1970.
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