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Ler matéria →Existe mesmo uma onda anti-Argentina no mundo, como diz Javier Milei?- Author, Edison Veiga- Role, De Bled (Eslovênia) para BBC News Brasil- Published- Tempo de leitura: 9 min "Vamos a hacer grande a la Argentina otra vez" é o "make America great again" do presidente argentino Javier Milei, no poder desde dezembro de 2023. Mais do que uma frase de efeito, a declaração remete ao período em que a Argentina tinha clara superioridade econômica em relação a seus vizinhos.
O contraste com o cenário atual alimenta o discurso de "nós contra eles", reforçado por Milei ao afirmar que há uma ofensiva anti-Argentina para conter o desenvolvimento do país. Onda esta que não passa de ficção, argumentam especialistas. Ou narrativa conveniente.
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" A ideia de que há, no momento, uma espécie de onda anti-Argentina é simplesmente ridícula", diz o economista Fabio Giambiagi, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas e autor do recém-lançado livro Argentina para Brasileiros. "
Não consigo enxergar uma onda global anti-Argentina. Na verdade, as redes digitais amplificam isso que se convencionou chamar de narrativa, construída por setores políticos que dela extraem benefícios", completa o sociólogo Rogério Baptistini, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie. "É uma teoria, como é óbvio, mas há bons motivos para acreditar que o presidente Javier Milei use o argumento para desviar a atenção sobre os resultados sociais do seu governo, que infelicitam as classes médias e os trabalhadores argentinos.
Essa é uma estratégia clássica da extrema-direita, de Donald Trump a Jair Bolsonaro: criar inimigos externos e capitalizar o ressentimento", diz Baptistini. Na bola Essa onda anti-Argentina propalada por Milei e parte da população local contemporânea acabou impulsionada pelo esporte. Leia também: Apps deixaram de ser só um 'bico': como o perfil dos trabalhadores
No caso, a Copa do Mundo, em que o time liderado pelo craque Lionel Messi ficou com o vice-campeonato, perdendo a final para a Espanha. " O que houve concretamente foi uma reação, compreensível, em função de atitudes anti-esportivas de um conjunto de jogadores argentinos imediatamente após a partida final", reconhece Giambiagi.
No caso, o fato de que muitos jogadores argentinos deram as costas à comemoração dos espanhóis. Giambiagi cita o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, que costumava enfatizar a importância do soft-power no cenário global contemporâneo. Para o economista, a Argentina vinha construindo uma simpatia grande ao longo do campeonato, por vitórias impressionantes e viradas épicas.
Além do fato de que o mundial marcava a despedida de Messi, um gigante inquestionável no esporte. " Infelizmente esse esforço acabou sendo jogado no lixo, foi por água abaixo 15 minutos depois do encerramento do jogo contra a Espanha", afirma ele.
Nos dias que se seguiram, profusões de teorias conspiratórias fortaleceram o discurso de "nós contra eles", deixando a Argentina realmente isolada nos debates entre torcedores e afins. De um lado, a tese de que a Fifa seria parte de um complô para favorecer o time de Messi— o que, segundo as teorias difundidas nas redes sociais, seria "fundamentado" por decisões polêmicas da arbitragem nas partidas anteriores à final. De outro, justamente o contrário: argentinos divulgando que seu escrete havia entregue o jogo para os espanhóis, por conta de ingerência da Fifa.
" Na Argentina muitos acreditam nessa tese. Uma estupidez absoluta", diz Giambiagi. Mais de mundo
Ele lembra que o escritor italiano Umberto Eco (1932-2016) disse certa vez que a internet "dava voz aos idiotas". " Infelizmente, no mundo de hoje, qualquer doido acaba tendo sua verbalização ecoada e magnificada", comenta.
" De fato, a Copa do Mundo é emblemática, pois houve situações em que a Argentina foi beneficiada por decisões polêmicas, como é comum acontecer no futebol. Mas isso não foi uma exclusividade", comenta Baptistini.
Para o sociólogo, o discurso nas mídias contra a Argentina, durante a competição, foi amplificado " pelo fato de a seleção desafiar a ordem estabelecida com seu jogo"— um estilo mais prático e menos estético. " Leia também: Tufão Dolphin atinge Sul do Japão; China fecha portos antes da chegada à costa
Um futebol baseado na catimba, na irritação do adversário. E os puristas defensores do futebol bonito não aceitam isso que chamam de antijogo. "
" No fundo, há um preconceito contra o estilo emocional de futebol dos argentinos", analisa o sociólogo. "
Apesar de contar com Messi, assim como já tiveram Maradona, os sul-americanos mostram aos europeus que podem vencer com paixão e desordem criativa. E isso ofende o establishment. "
Mas esse ponto de vista não seria suficiente para identificar aí uma onda anti-Argentina, como querem acreditar os defensores de Milei. " A Argentina não é especialmente odiada.
O que há, sobretudo por conta do evento da Copa e graças às redes, é um desvio de foco", acredita o sociólogo Baptistini. " O ceticismo quanto ao futuro econômico do país e à sua estabilidade foi transplantado para uma questão de orgulho nacional.
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