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ETV 2026 : No caminho de Proust

ETV 2026: No caminho de Proust PUBLICIDADE Achei impactante o longa-metragem de Carlos Adriano intitulado Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas

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ETV 2026 : No caminho de Proust

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Achei impactante o longa-metragem de Carlos Adriano intitulado Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas. Na sinopse apresentada pelo festival, Adriano afirma se inspirar nos livros Proust e os Signos, de Gilles Deleuze, e Proust e as Artes, obra póstuma de Roberto Machado. Ok, mas, no fundo, parece mesmo uma reflexão pessoal sobre a catedral literária de Marcel Proust, escrita entre 1906 e 1922 e publicada entre 1913 e 1927 em sete volumes. É dos maiores romances do século passado, talvez o maior, provavelmente ao lado de Ulisses, de James Joyce. Foi traduzido no mundo todo, e algumas vezes aqui no Brasil. Há uma antiga tradução da Globo do Rio Grande do Sul, que reuniu vários escritores como Carlos Drummond de Andrade e Mário Quintana no trabalho de tradução. Existem outras. A mais recente se deve a Mário Sérgio Conti e Rosa Freire D'Aguiar.  Leia também: Linhas de pipa cortantes ainda fazem vítimas pelo país | Repórter Brasil | TV Brasil

Há também uma imensa bibliografia em torno de Em Busca do Tempo Perdido, toda uma biblioteca, na verdade. E também há suas repercussões em outras artes, como, naturalmente, o cinema. Volker Schlondorff adaptou o primeiro volume, Du Côté de chez Swann (na edição da Globo, No Caminho de Swann). De fato, esta é adaptação de uma das três partes desse primeiro volume, Um Amor de Swann. Já Raul Ruiz preferiu ir direto ao volume final, Le Temps Retrouvé (O Tempo Redescoberto). As duas têm seus limites. A de Ruiz é melhor. Schlondorff contenta-se com o relato. Ruiz busca a estrutura mesma da "coisa" proustiana. 

Como é óbvio (mesmo a partir do título), a gigantesca obra de Proust debruça-se sobre essa entidade misteriosa chamada tempo. Mal podemos compreendê-lo. E é sempre conveniente citar a frase de Agostinho: "Se não me perguntam o que é o tempo, sei o que é; se me perguntam, já não sei mais". Quer dizer, é a nossa experiência cotidiana, o tecido mesmo de nossas vidas. Mas não conseguimos defini-lo. E então, como recuperá-lo? Através da memória. Mas esta é enganosa. 

Proust confiava no poder da memória involuntária. Aquela despertada por um estímulo qualquer, quase aleatório, desimportante na aparência. Por isso ficou famosa a passagem em que evoca a madeleine, mergulhada no chá de tília, cujo odor e sabor lhe abrem uma porta para memórias antigas e julgadas esquecidas ou apagadas. Outros incidentes podem desencadear esse efeito de memória, por exemplo ao pisar numa calçada irregular. Mesmo as primeiras linhas da Recherche se abrem com uma lembrança distante e querida, quando a mãe do narrador ia dar o beijo de boa-noite ao filho já deitado para dormir. A primeira linha é célebre: "Longtemps, je me suis couché de bonne heure". Mário Quintana traduz: "Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo". Frase simples, direta, chave que abre todo um mundo. 

Mas, enfim, é em torno dessa obra que Adriano também se deixa levar e produz sua reflexão fílmica em modo associativo. Quer dizer, uma imagem leva a outra, que conduz às seguintes e assim por diante. O filme funciona como a nossa memória - de modo não linear. Como nos filmes de Jean-Luc Godard, autor bastante citado também na obra. São imagens e falas que se superpõem, depositando-se sobre as anteriores, como indica o próprio título de Palimpsesto. Na verdade, as camadas não se anulam - somam-se.  Leia também: Pesquisa aponta mau uso das redes sociais por policiais | Repórter Brasil | TV Brasil

E ancoram-se em algumas recorrências. Godard é uma delas, Jorge Luis Borges (que tanto meditou sobre o tempo), outra. Mas, sobretudo, um fragmento de imagem em movimento em que se supõe, vê-se Marcel Proust em meio a outras pessoas em Paris. Adriano também é fascinado por fragmentos, como atesta uma de suas obras mais conhecidas, Remanescências, baseada nos poucos fotogramas de um cais banhado pelo mar. Talvez imagem originária do cinema no Brasil. Talvez. 

A série de referências é vasta, vai do Hitchcock de Um Corpo que Cai ao baião maneiro de Luiz Gonzaga e à ginga de Caetano, assim como incorpora o fraseado de Deleuze à poética de Drummond.  Processo associativo, como dissemos, que mergulha de cabeça na espiral de memória proposta por Freud, mas também Walter Benjamin. Memória involuntária, que Freud definiu como a técnica de associações livres logo no início da invenção da psicanálise. 

É também uma sugestão de leitura para este filme. Deixar-se levar por ele. Deixar que o fluxo proposto na tela conduza a outro fluxo, o nosso próprio, o fluir da nossa memória. Um exercício prazeroso. E talvez muito útil neste mundo tolo, partilhado entre a violência política e a mediocridade intelectual. Funciona como uma espécie de antídoto. 

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