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Estou pronto para ir embora, não tenho apego, diz Heitor Martins, presidente

Heitor Martins abre um sorriso quando entra na grande galeria dos cavaletes de vidro do Museu de Arte de São Paulo

Estou pronto para ir embora, não tenho apego, diz Heitor Martins, presidente do

Heitor Martins abre um sorriso quando entra na grande galeria dos cavaletes de vidro do Museu de Arte de São Paulo. " Fazia tempo que eu não vinha aqui", diz o presidente do Masp, como se entrasse numa casa que não vai mais chamar de sua.

Ele fecha em setembro um ciclo de 12 anos em que liderou o processo de tirar o maior museu da América Latina do fundo do poço. Quando assumiu o comando, o Masp era uma instituição falida, com R$ 75 milhões em dívidas, além de enfrentar problemas graves, desde a falta de luz a roubos de obras de seu acervo, que depois foram recuperadas. Nas contas do empresário, R$ 1,5 bilhão foi investido ali desde o início de sua gestão, um valor impensável para a realidade dos museus do país.

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Outros R$ 275 milhões financiaram sua nova torre, montante arrebanhado por Martins entre os maiores empresários do país, mais R$ 25 milhões foram destinados à compra do terreno atrás do museu, para uma futura expansão, e há ainda R$ 30 milhões de recursos próprios em caixa, caso sequem todas as outras fontes. Mas nem tudo foram flores. O poder de Martins e o séquito magnético de financiamento que ele articulou em torno do museu detonaram críticas e desconfianças.

Nesta entrevista realizada no alto da torre que fez construir, ele comenta ainda as acusações de conflitos de interesse com os arquitetos do anexo, a polêmica venda dos cavaletes de vidro originais de Lina Bo Bardi e seu apego ao cargo que deixa em breve, trono de grande influência no mercado da arte. Sua atitude é serena, e o "media training" segue em dia. Martins desliza entre perguntas espinhosas, mas não deixa de se emocionar.

Não pensa duas vezes ao dizer que está pronto para ir embora e se mostra satisfeito ao ver pelo retrovisor o legado que deixa, entre eles um controverso arranha-céu todo preto em plena avenida Paulista. Na primeira entrevista ao assumir o comando do museu, você disse que sua missão no cargo era devolver o Masp à sociedade, porque o museu estava fora da realidade, parado no tempo. Como vê a situação agora, mais de uma década depois? Leia também: Tom Hiddleston une ficção e documentário em minissérie sobre fantasmas

De fato, o museu vinha de um processo de isolamento muito grande, da sociedade civil, da comunidade paulistana, dos doadores, dos artistas, dos curadores. Tinha um modelo de governança, uma liderança, que estava envelhecida. Fizemos essa abertura, criamos uma malha de suporte dentro da sociedade, conquistamos uma aproximação com a classe artística.

Como é olhar para trás agora? Vou ter muita saudade. É muito bacana essa sensação de estar contribuindo com a construção de algo que tem relevância para São Paulo, para o Brasil.

E a jornada é difícil, tem desafios, precisa engajar as pessoas, fazer com que acreditem no projeto, mobilizar. Quanto da sua visão de vida se imprime no museu? O museu é maior do que todos nós, é uma instituição que tem 70 anos, que é símbolo de São Paulo, icônica no imaginário paulistano.

A gente não deve perder isso nunca de perspectiva, mas acho que o que fizemos foi pensar um museu com um nível de ambição maior do que ele tinha antes, deu uma guinada importante na trajetória do museu. Ele estava numa situação financeira muito precária, com dificuldade de pagar as contas. Tinha uma programação esvaziada, pouca transparência, e o quadro de funcionários estava debilitado.

A gente avançou em todas essas frentes, revitalizou o programa expositivo, e o acervo hoje está muito bem representado com a volta dos cavaletes, que é um marco da nossa gestão. Multiplicou por quatro o público nesses 12 anos, de 340 mil visitantes para quase 1 milhão ao ano. E houve um processo grande de restauro, de arqueologia arquitetônica, para trazer o edifício de volta, resgatar o brilho desse edifício. Mais de entretenimento

Foi todo restaurado, e construímos um prédio novo, que expandiu em 60% a área do museu e endereçou um conjunto grande de lacunas que a gente tinha. O museu termina esse ciclo com uma certa reserva de caixa e está muito estável, não tem mais dívida nenhuma, todas as pendências foram sanadas. Mas esse é um museu de natureza privada, não tem verba pública, então é sempre uma instituição que está vulnerável ao entorno.

Essa é uma fonte contínua de grande preocupação, não só minha, mas da nossa diretoria, do nosso conselho. Havia também um objetivo de fazer uma limpeza no acervo, retirar obras que estavam fora do escopo da instituição, e ampliar a coleção ao mesmo tempo com peças que faltavam para a narrativa que se queria apresentar da história da arte. Como ficou o saldo final?

Cumprimos bem a primeira parte da missão. Esse ciclo dos últimos 12 anos foi o maior de expansão do acervo desde os anos 1960. A gente incorporou mais de 1.200 obras. Leia também: Entretenimento: Panorama da Semana com Toy Story, Xuxa e F1

Não conseguiu crescer significativamente o acervo de obras internacionais, mas ainda assim fez algum avanço. Como vê a sucessão? Quem gostaria de ver ocupando o seu lugar neste momento de transição?

Não tenho candidatos que eu prefira. Gostaria de ter uma gestão de continuidade do nosso projeto de construção de museu. Mas, quando você faz alguma coisa, tem orgulho do seu legado, quer que alguém carregue isso para frente.

Muitos no alto escalão do museu criticam seu apego ao cargo, dizem que busca se perpetuar nessa posição. O que pensa disso? Não tenho esse apego, mas acho que o que a gente fez aqui foi incrível, mas é hora de ir embora, passar o bastão.

Já dei a minha contribuição, e vai ser bom ter novas pessoas, com nova energia, com visões diferentes. Essa é uma posição que demanda tempo e prontidão. Você tem de estar alerta.

Pretendo continuar participando da vida do museu, envolvido em maior ou menor grau, mas certamente não com uma função de linha de frente. Estou pronto para sair. Que futuro prevê para a direção artística?

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