José Luís Carneiro ganha destaque após novo desdobramento em esta transcrição
Ler matéria →Contrariando todas as previsões, a seleção da Espanha venceu a Argentina e clamou para si o título de Campeã do Mundo em 2026— o segundo na história daquele país. O futebol é mesmo, como diz o velho ditado, uma caixinha de surpresas. Mas, de novo, o FlatOut é um site sobre carros.
E quando a gente pensa na indústria automobilística espanhola, o primeiro nome que vem à mente é o da SEAT. Por aqui, a conhecemos principalmente através dos irmãos Córdoba e Ibiza, sedã e hatchback, ambos lançados no Brasil em 1995, enquanto o furgão Seat Inca e a perua Córdoba Vario são bem mais raros. A marca viveu pouco no nosso País, deixando nosso mercado em 2002— e, de qualquer forma, já naquela época os carros da SEAT de espanhol só tinham o nome, já que eles eram modelos da Volkswagen rebatizados e reestilizados.
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E hoje a Volks sequer dá tanta atenção à SEAT— na verdade, o futuro de sua divisão hispânica é até incerto para a próxima década. Mas a história automotiva da Espanha vai muito além dos carros de passeio populares da era VW. Se cavarmos um pouco mais fundo, descobriremos um país com uma tradição mecânica visceral, que já produziu alguns dos automóveis mais aristocráticos e sofisticados do planeta.
Muito antes de os alemães assumirem a SEAT, a Hispano-Suiza colocava a engenharia espanhola no topo do luxo e do alto desempenho mundial nas primeiras décadas do século XX, rivalizando em prestígio direto com nomes como Rolls-Royce e Bugatti. Anos mais tarde, no pós-guerra, a Pegaso surgiria para provar que a Espanha também sabia fazer supercarros exóticos: o lendário Pegaso Z-102, com seu V8 de duplo comando no cabeçote, peitava de frente as feras de Maranello e de Coventry. Só que a verdadeira competitividade espanhola— aquela movida a paixão pura, obsessão por corridas e fumaça azulada de motor dois-tempos— encontrou seu lar definitivo sobre duas rodas.
E nenhuma fabricante representa melhor essa era de ouro do que a Bultaco. Nascida da recusa de um homem em abandonar as pistas, a marca do famoso emblema com o polegar levantado colocou a Espanha no mapa do motociclismo mundial e, mais do que isso, redefiniu categorias inteiras do esporte a motor. Além de produzir algumas das motos de dois tempos mais cultuadas da história. Leia também: João Fonseca fora ganha destaque após novo desdobramento em tênis: sem joão
A trajetória da Bultaco foi relativamente curta— durou só 25 anos, entre 1958 e 1983, mas foi o suficiente para garantir uma reputação que dura até hoje. E boa parte disso se deve à paixão de um homem pela velocidade sobre duas rodas: Francisco Xavier Bultó Marqués. Mas pode chamá-lo de Paco Bultó.
Paco Bultó nasceu em Barcelona em. E, como aconteceu com todos nós, Paco descobriu muito cedo que gostava de velocidade. Cem anos atrás, em 1926— quando ainda um moleque imberbe de 14 anos —, ele já assinava a revista britânica The Motorcycle e, ao voltar de escola, passava religiosamente em frente às concessionárias espalhadas pelo caminho de casa: as Norton no Passeig de Gràcia, as BSA na Calle Provenza, as Rudge e Ariel na esquina da Mallorca com Pau Claris.
Foi ali, conversando com aprendizes de oficina, que o vírus da mecânica e da velocidade se instalou definitivamente em seu sistema, de onde nunca mais saiu. Mais ou menos naquela época ele comprou seu primeiro motor de verdade— um estacionário da DKW, só para desmontar, aprender como funcionava e modificá-lo por conta própria. Aos 17 anos, após assistir ao Grande Prêmio da Europa de Motociclismo, decidiu que precisava pilotar.
Mas, para não causar pânico entre seus familiares, ele estreou nas pistas sob nomes falsos: primeiro como “Francisco Roig” e, depois, como “Patek”— um apelido inspirado na sua admiração pelos relógios suíços Patek Philippe.
E ele era rápido de verdade. Tanto que, em 1935, já era Campeão Amador da Espanha montado em uma Velocette 90 Plus. Apesar disso, Paco Bultó não tardou a descobrir que sua verdadeira paixão (e vocação) era o lado técnico, a engenharia da coisa. Mais de saude

E, diferentemente de muitos construtores artesanais da época, Paco Bultó aliou a paixão ao rigor acadêmico. Formou-se em Engenharia Industrial e fundou com um colega de faculdade a Barella y Bultó, uma empresa focada em algo altamente técnico: a fabricação de pistões e anéis para motores de combustão interna. Essa empresa cresceu tanto que se transformou na FISA (Fundiciones Industriales), tornando-se a principal fornecedora da indústria automobilística espanhola e formando, anos mais tarde, uma joint-venture com ninguém menos que a gigante alemã Mahle.
Mas fabricar pistões para os carros dos outros não satisfazia a fome de velocidade de Paco. Em 1944, ele se aliou ao empresário Pere Permanyer para construir veículos de duas rodas. Bultó foi direto ao ponto:
“Se for para fazer motos de verdade, eu estou dentro! ”. Em plena crise do pós-guerra, com escassez total de suprimentos, eles conseguiram um lote de ignições Leia também: José Luís Carneiro ganha destaque após novo desdobramento em esta transcrição
Bosch importadas e tubos de chassi que estavam encostados. Faltava o motor. A solução de Paco foi radical:
ele pegou “emprestado” um ciclo-motor francês Motobécane B1V2 que ele mesmo havia dado de presente ao seu sobrinho, desmontou o veículo peça por peça e “copiou” (ou fusiló, como ele próprio dizia) o conjunto de motor e câmbio. Assim nascia, em junho de 1945, a Montesa, com um motorzinho de 98cc— e que estreou direto em uma competição para provar seu valor. “
O mercado segue a bandeira quadriculada” Durante mais de uma década, a Montesa prosperou. Mas, em 1958, uma crise financeira motivada por uma mudança precipitada de endereço (e agravada por uma recessão na Espanha) fez a diretoria da empresa tomar uma decisão drástica: para cortar despesas e focar em modelos populares, a Montesa encerraria seu departamento de corridas— a menina dos olhos de Paco Bultó. Bultó argumentou enfaticamente com uma frase que se tornaria seu grande dogma no esporte a motor:
“ El mercado sigue la bandera de cuadros” (algo como “o mercado segue a bandeira quadriculada”). Para ele, uma marca que não corria não tinha alma.
Diante do voto da diretoria para fechar a equipe de fábrica nas 24 Horas de Montjuïc, Paco Bultó pediu demissão no mesmo dia e abandonou a empresa que ajudara a criar. A história conta que a semente da Bultaco germinou logo em seguida. Poucos dias depois do ocorrido, um grupo de antigos funcionários da Montesa chamou Paco para uma reunião.

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