Entrevista: a mão invisível das big techs sobre a saúde humana Advogado explica que as gigantes da internet são a "mãe " das indústrias que adoecem a população — e regular só tabaco ou álcool
não é mais suficiente Que as redes sociais e o uso excessivo do smartphone afetam a cabeça você provavelmente já sabe. Mas há outros efeitos nocivos da tecnologia menos discutidos e igualmente importantes para a saúde pública. Um deles é a forma como elas se relacionam intimamente com grandes setores da economia cujas atividades provocam doenças, os chamados determinantes comerciais da saúde.
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É o caso, por exemplo, de cigarro, álcool e da indústria de ultraprocessados. Nesse contexto, é preciso não apenas criar políticas públicas e leis que regulem estas indústrias, mas também olhar para as chamadas “big techs”, alertam especialistas. O termo engloba as empresas de tecnologia mais poderosas do mundo, como Google, Meta, Amazon e Microsoft.
Isso porque elas são hoje o principal meio de comunicação entre essas indústrias, que estão entre seus clientes mais importantes, e seus potenciais consumidores. O advogado indiano Kakish Aneja, advogado, líder para a Ásia no Center for Transformational Health Law da Universidade de Georgetown, concedeu uma palestra sobre o assunto durante a 8ª Global Alcohol Policy Conference (GAPC) – Conferência Global sobre Políticas Públicas para o Álcool, em tradução livre. O evento, realizado no Rio de Janeiro, discutiu caminhos para reduzir o consumo de bebidas e seus grandes impactos na saúde pública.
E também abriu espaço para a discussão sobre o papel das big techs nisso. Para Aneja, também devemos começar a pensar nessas empresas como determinantes comerciais da saúde. Confira a seguir uma entrevista com o especialista: VEJA SAÚDE: Leia também: Caso Ypê ganha destaque após novo desdobramento em caso ypê: marca ganha
Por que devemos pensar mais na relação entre big techs e saúde? Kakish Aneja: No ativismo pela saúde pública, trabalhamos com a regulação de setores [que impactam a saúde humana] como tabaco, álcool, indústria farmacêutica e alimentícia, mas sempre de forma separada. Mas o fato é que precisamos focar em algo maior que unifica tudo isso, que são as big techs.
E isso especificamente para a propaganda e marketing dessas empresas, porque todos contratam serviços das big techs, que atuam como intermediárias, e esse é o principal problema. Que problema é esse? Meta e Google são a plataforma que hospeda a maior parte do marketing promovido por essas indústrias.
Então precisamos regular as plataformas em si, não apenas os setores prejudiciais. Isso porque o marketing de produtos nocivos evoluiu muito por conta das big techs, e nos últimos dois anos mais ainda, com a ampliação do uso de inteligência artificial. Antigamente, víamos propagandas em outdoors, TVs e jornais, ou no máximo em banners de sites.
Mas agora ela está disseminada nas redes sociais e acontece de forma conectada entre diferentes plataformas, que têm, aifinal de contas, os mesmos donos. Além disso, há um constante monitoramento e análise do nosso comportamento online, nossos gostos e preferências por determinados produtos. Se eu sou mais responsivo à álcool ou cigarro, por exemplo, receberei mais conteúdo sobre isso. Mais de saude
E como a inteligência artificial influencia nesse marketing? Com o advento da IA generativa, ficou muito mais barato e rápido fazer propaganda. Para ativistas da saúde pública e advogados como eu, está muito mais complicado pensar em meios de regular as plataformas.
Tentamos fazer isso o mais rápido possível, mas a indústria é muito mais veloz do que nós. O quão importantes os fabricantes de produtos danosos à saúde (cigarro, tabaco, alimentos ultraprocessados) são para os lucros das big techs? Eles são os principais clientes, e são também as principais indústrias do mundo, atrás apenas das de tecnologia.
E a relação é de “ganha-ganha”, porque estes fabricantes contratam as big techs para o marketing, e, enquanto esse marketing é feito por meio de postagens e anúncios, as plataformas geram muitos dados sobre o comportamento do consumidor, que são vendidos de volta para as indústrias. É justamente isso que faz com que as big techs sejam tão poderosas e elas sabem disso. Você acha que podemos considerar as grandes empresas de redes sociais e tecnologia como determinantes comerciais da saúde? Leia também: TDAH em ebulição ganha destaque após novo desdobramento em tdah em ebulição
Elas impactam diretamente na saúde da população? Eu participei de um dos primeiros relatórios da Organização Mundial de Saúde sobre o assunto, focado na minha região (Sul e Sudeste Asiático), e um dos atores que encontramos foram as big techs, como empresas que têm um papel importante em desfechos de saúde pública. E não falamos normalmente sobre isso.
Geralmente, quando pensamos em determinantes comerciais pensamos em commodities como o tabaco e o álcool, mas eu diria que a big tech é a “mãe” dessas indústrias agora, e acho que devemos olhar melhor para essa influência na saúde. Em sua palestra, você mencionou a questão da opacidade dos algoritmos [isto é, sobre como sabemos pouco sobre como eles funcionam]. Pode explicar um pouco mais sobre isso?
É uma questão interessante. A opacidade é um problema que já existia na indústria, mas cresceu com a IA, e nós não podemos regular algo que não conhecemos. Precisamos entender os algoritmos, sua previsibilidade e os indicadores utilizados em todo o processo.
Aumentar a transparência é fundamental. Em 2022, a União Europeia aprovou uma lei sobre IA e tecnologia, com uma estrutura para transparência fantástica — e é aí que precisamos olhar. Mas precisamos entender que regulamentar qualquer um desses produtos exige um contexto mais local.
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