Entrada da PF pode mudar o jogo no caso Lojas Americanas
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Daniele Madureira
Bruna Fantti
José Marques
São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília
A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta quinta-feira (25), em conjunto com o Ministério Público Federal, a segunda fase da Operação Disclosure, que investiga a fraude bilionária na contabilidade da Lojas Americanas. Entre os alvos estão Beto Sicupira (um dos três principais acionistas da Americanas) e Paulo Alberto Lemann (ex-conselheiro e filho de outro dos principais sócios da rede, Jorge Paulo Lemann).
Policiais federais cumpriram nove mandados de busca e apreensão nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. A 10ª Vara Federal Criminal do Rio também determinou bloqueio de bens e valores em nome de investigados até o limite de R$ 54 bilhões.
Leia no AINotícia: Americanas: PF avança na Operação Disclosure e Justiça bloqueia R$ 54 bilhões
Também são investigados Eduardo Saggioro Garcia (atual presidente do conselho de administração da Americanas), além de executivos ou ex-executivos de bancos que mantinham operações com a varejista —José de Castro Araújo Rudge (Itaú), Gustavo Balassiano (Itaú), Carlos Henrique Villela Pedras (Bradesco), André Juaçaba de Almeida (Santander) e Alexandre Lian Abdo (Santander).
As ações da Americanas caíram 5,37% e terminaram o dia cotadas a R$ 4,05.
Segundo as investigações, os suspeitos teriam conhecimento das fraudes contábeis praticadas ao longo de anos, relacionadas a operações de risco sacado e a contratos de verba de propaganda cooperada (VPC), supostamente contabilizados sem lastro econômico. Leia também: No centro da crise do Rio, Alerj tem sede asséptica recheada de escândalos
Risco sacado é uma operação em que um banco antecipa ao fornecedor o valor que a varejista deveria pagar, cobrando juros por isso. Os contratos de VPC são acordos entre varejista e fornecedor por meio dos quais os fornecedores dão descontos em grandes volumes de compras, em troca de participação na da empresa.
No caso da Americanas, porém, esses contratos eram supostamente fictícios: a Americanas informava que recebia o desconto, mas ele não ocorria. As apurações apontam indícios dos crimes de manipulação de mercado e associação criminosa, segundo a PF.
Como a Folha revelou no ano passado, em delação ao MPF, o ex-diretor financeiro da Americanas Fabio Abrate citou o nome de Sicupira, apontando sua dinâmica de comunicação com o ex-CEO Miguel Gutierrez, considerado pelos investigadores como o principal responsável pelas fraudes.
Em sua resposta, Abrate cita os nomes de Gutierrez e Anna Saicali, ex-diretora da varejista. Em seguida, os define como "praticamente a mesma pessoa", e completa que tudo o que Gutierrez sabia também era conhecido por Saicali.
"Quando a Anna chegava, o Miguel já tinha vindo. Quando Miguel ia, ela já voltou. Eles se falavam 100% do tempo sobre tudo. E vamos falar mais à frente. Assim era a dinâmica de Miguel com Beto [Sicupira]. De Miguel com [Eduardo] Saggioro", disse Abrate. Mais de politica
Ele volta a citar Sicupira em outros momentos da delação. Em um deles, quando Abrate diz que Gutierrez e Anna Saicali "sabiam de tudo" na empresa, o advogado do delator lhe pergunta: "Alguma outra pessoa aqui que você acha que também sabia tudo que o Miguel e o que Anna sabiam?". Abrate responde: "Beto".
Apesar da citação, o MPF não incluiu o empresário em denúncia apresentada à Justiça em março do ano passado contra 13 ex-executivos e ex-funcionários da Americanas, dizendo que o conselho de administração foi ludibriado por eles e que os acionistas de referência foram levados a suportar um prejuízo de R$ 12 bilhões.
A primeira fase da Operação Disclosure havia sido deflagrada há dois anos, em junho de 2024. Trata-se de um processo criminal, à parte do processo cível deflagrado pelo escândalo contábil, que culminou no acordo entre Americanas e credores, fechado no âmbito da recuperação judicial. Leia também: Entrada da PF pode mudar o jogo no caso Lojas Americanas
O titular da ação penal é o Ministério Público Federal. A Justiça estipulou o bloqueio de R$ 54 bilhões, que podem ser cobrados como multa caso sejam comprovados os crimes como manipulação de informações contábeis.
Em nota, a Americanas afirmou que não foi alvo de mandados de busca na manhã desta quinta e a Operação Disclosure se refere à fraude revelada em 2023. A companhia diz que seguirá colaborando com as investigações e é a maior interessada no esclarecimento dos fatos.
A LTS —holding e escritório de investimentos das famílias de Beto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles, os principais acionistas da Americanas, que também representa Paulo Alberto Lemann e outros sócios, como Eduardo Saggioro— informou em nota que "os acionistas de referência foram surpreendidos" pela operação.
"As investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal ao longo dos últimos anos, inclusive com base em acordos de colaboração premiada, indicam que o conselho de administração e os acionistas de referência foram continuamente enganados e induzidos a erro pela antiga diretoria da companhia", diz o texto.
A nota informa que as defesas ainda não tiveram acesso à íntegra da decisão judicial que fundamentou a medida. "Os acionistas de referência entendem que a operação integra o curso regular das apurações em andamento e reiteram seu compromisso de colaborar plenamente com as autoridades competentes para o esclarecimento dos fatos, como vêm fazendo desde, quando tiveram conhecimento das fraudes contábeis."
ATUAL PRESIDENTE DO CONSELHO É ALVO
RAIO-X AMERICANAS
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