vultos da comédia Adriana Negreiros Mai 2026 07h41 27 min de leitura Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo Dercy Gonçalves entrou no palco do estúdio da TV Excelsior para apresentar o número final do programa e, diante das câmeras, teve um branco. Esqueceu completamente o que deveria fazer ali. Como o improviso nunca foi um problema para ela, gritou para o regente da orquestra, Aristides Zacarias: “Maestro, mete um ritmo de macumba aí, que lá vai a perereca.
” Quando os músicos entraram em ação, Dercy começou a rodar, fingindo que era mãe de santo, e improvisou uma canção, no ritmo dos instrumentos. “
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A perereca da vizinha/tá presa na gaiola/xô, perereca/xô, perereca. ” A plateia caiu na gargalhada.
Nos bastidores, ao presenciar a cena, o ator Grande Otelo deu um cutucão na cintura do escritor Sérgio Porto, contratado pela Excelsior para escrever o programa de humor Viva o vovô Deville, do qual Dercy era a grande estrela. “Essa tal de perereca vai pegar mais que sarampo em berçário”, comentou. Embora aquele não fosse o desfecho planejado por Sérgio Porto, ele resolveu deixá-lo na versão final do programa que logo iria ao ar.
Tinha a opção, se quisesse, de fazer diferente. A popularização do videoteipe, em 1960, libertara a televisão de improvisos como aquele. Se errasse, bastava fazer de novo. Leia também: Fé e Ciência ganha destaque após novo desdobramento em um conjunto de práticas
Mas ele decidiu bancar o improviso. Conforme calculara Grande Otelo, a música criada por Dercy se espalhou como vírus. O videoteipe ajudava a disseminar as atrações da tevê pelo país.
Essas fitas eram enviadas para diferentes cidades nos voos da Panair, cujo dono – Mário Wallace Simonsen – era o mesmo da Excelsior. E assim os telespectadores do Recife conheceram a composição que faria sucesso no Carnaval daquele ano de 1964. A história seria contada pelo próprio Sérgio Porto, numa de suas crônicas assinadas sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta.
Além de telespectadores mais marotos, a música encantara gente respeitável, como o artista plástico pernambucano Augusto Rodrigues, um dos convidados para o Baile Municipal do Recife e “um dos grandes incentivadores da perereca”, nas palavras de Porto. Na crônica, ele conta que Rodrigues pediu autorização da primeira-dama do estado, Maria Magdalena Fiúza, para puxar o coro com o hit. “
A senhora Miguel Arraes achou imensa graça no pintor e deu a licença”, escreveu Porto. “ Augusto Rodrigues saiu a cantar e logo todo o salão cantava a perereca como se fosse Mamãe, eu quero”, narrou.
O escritor disse que passou a ser abordado por curiosos querendo saber a origem da canção: A coisa foi se desenvolvendo, a ponto de um professor dos mais austeros telefonar-me para perguntar se a perereca tinha raízes folclóricas. [...] Mais de saude
Se todos queriam enveredar pelo perigoso caminho da galhofa, eu também ia. Com a maior cara de pau, expliquei ao distinto que A perereca da vizinha era um ponto de terreiro que eu colhera na Bahia, onde os crentes de determinada seita têm a perereca como bicho sagrado. A verdade, Sérgio Porto assumiu, é que ninguém sabia ao certo como a perereca surgira – nem mesmo Dercy.
Ele se divertia ao vê-la dando entrevistas sobre o assunto, inventando uma história “cheia de truques”. Numa de suas primeiras versões, Dercy disse que, em Santa Maria Madalena, cidade do interior do Rio de Janeiro onde nasceu, tinha o costume de brincar junto com outras crianças num brejo repleto de pererecas. Certo dia, para implicar com uma senhora ranzinza, prenderam uma delas na gaiola da mulher.
Depois, saíram a cantarolar: “ A perereca da vizinha/está presa na gaiola. Leia também: Spielberg ganha destaque após novo desdobramento em steven spielberg, o
” “Ainda bem que eu não estava perto quando Dercy deu a entrevista, senão eu olhava para ela e os dois cairíamos na gargalhada”, escreveu Sérgio Porto. Numa versão alternativa, Dercy relacionaria a música a outro episódio da infância.
Certa vez, segundo ela, visitou a avó e saiu de lá com uma linguiça escondida dentro das calças. No caminho de volta para casa, enquanto pulava um muro, sentiu a linguiça escapar e cair num córrego. Ao mergulhar a mão na água para recuperar o embutido, apanhou uma perereca.
Assustada, gritou: “Xô, perereca” – palavras que, anos depois, no palco da Excelsior, retornariam à sua mente, inspirando a canção. A conhecida indisposição de Dercy para respeitar texto de autor e seguir ordem de diretor nunca foi impeditivo para que ela trabalhasse na televisão.
Em 1963, numa atitude agressiva para os padrões da época, a TV Excelsior havia oferecido salários muito acima da média do mercado para que artistas ingressassem no canal 2, no Rio de Janeiro. Assim, atraiu quase todo o elenco da TV Rio, incluindo alguns de seus maiores astros, como o comediante Chico Anysio e o cantor Moacyr Franco. Ao investir pesado numa programação moderna, sustentada por shows e programas humorísticos, tornou-se líder nacional de audiência, desbancando a antiga campeã, a TV Record.
Com um salário mensal de 4,5 milhões de cruzeiros, Dercy estava entre as artistas mais bem pagas da emissora – o ordenado-base era de 200 mil. A atriz Betty Faria, que tinha iniciado a carreira televisiva na TV Rio, recebia 650 mil cruzeiros. Na época, um apartamento de três quartos em Ipanema, na Zona Sul, podia ser comprado por 13 milhões.
