Panorama Notícias: STF, CNH, Saúde e Influenciadores
Ler matéria →Com sorriso aberto, Daniel Perez, o indicado por Donald Trump à embaixada dos Estados Unidos no Brasil contou a um site local, em 7 de junho, ter ouvido uma pergunta inusitada de um dos três filhos sobre o possível novo destino da família: “eles têm escolas? ”.
Informações sobre a América do Sul não são mesmo o forte da família. Na semana seguinte, em 16 de julho, o deputado pela Flórida admitiu saber pouco sobre a realidade brasileira e ainda coletar dados a respeito da economia e política da região, que visitou uma única vez, há quase 20 anos, em viagem informal de três dias. Daniel Perez tem 39 anos, é classificado como um “nome leal a Trump” e demonstra conhecimento e interesse sobre o movimento nacionalista Make America Great Again (MAGA), o que, segundo apurou a Agência Pública, se fez crucial na indicação.
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O nome do deputado ainda não teve aprovação pelo governo brasileiro. Em retaliação à demora na aprovação de Perez, Trump revogou, nesta terça-feira (4), o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, o que equivale, na prática, a expulsar a profissional do país– condição que o governo norte-americano deixa claro que só deve mudar, concedendo renovação para Viotti, em caso de aprovação formal para Perez. Atual presidente da Florida House of Representatives (o que, no Brasil, seria equivalente à Assembleia Legislativa do estado), o parlamentar começou, em 2017, o primeiro de quatro mandatos consecutivos como representante– o que, para nós, seria um deputado estadual, com período de atuação de até dois anos.
Em novembro deste ano, embaixador ou não, Perez deixará o cargo, dado o limite máximo estipulado na Flórida de oito anos seguidos. Daniel Perez é considerado por correligionários e opositores um “político nato” e bem articulado; alguém sem barreiras ao diálogo, até com deputados fortemente contrários à gestão trumpista. Uma parlamentar da Flórida, por exemplo, contou à Pública reconhecer Perez como uma figura carismática e “um político que transita bem entre os dois partidos”.
A indicação ocorreu no último dia 1º de junho, em meio a tensões diplomáticas entre EUA e países governados por políticos de esquerda e centro-esquerda. No Congresso brasileiro, assuntos de interesse norte-americano vêm sendo discutidos antes mesmo das eleições à Presidência da República, previstas para outubro de 2026. No radar de ambos os países estão a exploração internacional de minerais críticos no Brasil, que detém cerca de 10% das reservas mundiais de matéria-prima essencial na transição energética, bem como a regulamentação das Big Techs e do setor de Inteligência Artificial (IA). Leia também: Embaixadora brasileira poderá ficar em Washington, dizem EUA
A embaixada no Brasil, no entanto, não foi a primeira proposta de Trump a Perez. No segundo semestre de 2025, o presidente dos EUA passou a cogitar o deputado ao disputado e influente cargo de procurador-geral da Flórida para que, entre outras atribuições, representasse o estado em ações na Suprema Corte. A Pública apurou que Trump teve mais de uma reunião com o deputado na tentativa de convencê-lo.
Boa parte dos encontros foram realizados em Mar-a-Lago– uma espécie de Casa Branca secundária, utilizada para reuniões e deliberações políticas, na Flórida.
Contudo, Perez não teria demonstrado interesse na função. Historicamente, nos EUA, as indicações a embaixadas são objeto de barganha para garantir o financiamento das campanhas por não haver a necessidade de que o nome indicado tenha experiência na carreira diplomática. Trump, porém, teria adicionado um critério a mais: a lealdade ideológica.
“ O presidente Donald Trump demonstrou que sua administração utiliza cargos de embaixador como recompensa para aliados políticos; não vejo este caso como algo diferente”, salientou à Pública a deputada democrata da Flórida Anna Eskamani. A indicação de Perez ocorreu fora do protocolo, sem consulta ao governo brasileiro, e reflete a ideia de Trump de “premiar” a lealdade política, observou o professor e cientista político da Florida International University (FIU) e coordenador do Observatório da Extrema Direita, Guilherme Casarões.
Conforme a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, de 1961, o país para o qual um novo embaixador é indicado deve conceder o agrément (aprovação) do nome, sem a obrigação de justificar uma possível recusa. À Pública, o Ministério das Relações Exteriores informou que a substituição de embaixadores é “sigilosa até a concessão de agrément” e que não comenta assuntos sigilosos. Mais de noticia
O agrément é o que busca o governo norte-americano após a indicação e o que está em jogo no movimento de inviabilizar a permanência de Viotti em território estadunidense. Sabatinado no Senado americano, Perez classificou o Brasil como estratégico à economia e à segurança dos EUA. Calmo ao responder, ele reforçou ter o objetivo de proteger cidadãos americanos e defender os interesses estadunidenses sobre comércio e investimentos e frisou atuar pela “liberdade de expressão” durante as Eleições 2026.
“ A democracia estável é melhor para os Estados Unidos”, declarou. Ele respondeu questionamentos junto a outros indicados a embaixadas e citou o combate ao tráfico e crime organizado como um dos grandes desafios a serem enfrentados no Brasil.
Em maio, os EUA classificaram as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas, contrariando especialistas em segurança pública e autoridades brasileiras. Leia também: Itamaraty rebaixa relação diplomática com Argentina após novas ofensas de Milei
Após a sabatina, a indicação de Perez foi aprovada pela Comissão de Relações Exteriores do Senado por 13 votos a 8. O nome agora precisa ser apreciado pelos senadores em plenário; ainda não há data para a análise. Uma embaixada (e uma presidência) em disputa Embora o papel de um embaixador não englobe, teoricamente, a formulação de leis e mobilização política, no caso de uma indicação de Donald Trump essa regra é facilmente descartada.
Em seu primeiro mandato, ele nomeou Richard Grenell à embaixada americana na Alemanha. Em 2018, pouco tempo após a nomeação, Grenell declarou à imprensa desejar “empoderar” outros líderes conservadores pela Europa. O então embaixador ficou no cargo até 2020 em meio a críticas por relações com partidos ultraconservadores.
Atualmente, é enviado especial dos EUA para missões especiais. Diante de ações controversas na política externa americana, fontes procuradas pela reportagem não descartam a possibilidade de Daniel Perez influenciar, de forma direta ou não, na legislação brasileira por meio de uma interlocução com grupos bolsonaristas. “É uma nomeação que significa não necessariamente que o Trump esteja totalmente investido na vitória de Flávio Bolsonaro, eu não acho que ele se importa com o Flávio Bolsonaro, em particular, mas que ele vê dividendos políticos com a disputa com o atual governo.
Portanto, por tabela, empoderar a oposição quando há oportunidade”, analisou o vice-diretor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Eduardo Mello. Embaixador dos EUA na Organização dos Estados Americanos (OEA), entre janeiro de 2023 a janeiro de 2025, durante a gestão Biden, Frank Mora é crítico das ações diplomáticas de Trump e afirma que o governo busca implementar uma “diplomacia coercitiva”, com políticas focadas em ameaçar outros países para, assim, extrair de líderes nacionais o que considerar necessário. “É uma abordagem extrativista, uma abordagem coercitiva em relação à região [América Latina], e usará suas ferramentas, particularmente suas ferramentas militares, como na Venezuela, em Cuba e em outros lugares, para extrair o que considera suas prioridades ou seus interesses.

Não consegue, e não está, a fazer a paz militar; a faz apenas em circunstâncias específicas”, frisou, em entrevista à Pública. Mais trumpista que republicano


